O que acontece no cérebro ao passar a noite em claro? Estudo inédito em humanos revela alterações sinápticas

Médico neurologista, Cérebro
Foto: Médico neurologista, Cérebro - SvetaZi/ Shutterstock.com

Dormir pouco causa mais do que apenas cansaço, irritabilidade e a necessidade de cafeína para se manter ativo. Uma nova investigação, divulgada pela revista científica PLOS Biology, demonstrou que a ausência de sono por longos períodos provoca modificações perceptíveis no interior do cérebro.

Após um período de aproximadamente 28 horas e meia sem repouso, participantes do estudo apresentaram um aumento nos marcadores ligados às sinapses, que são os pontos de comunicação entre os neurônios. O cérebro de quem permaneceu acordado revelou sinais de um número maior de conexões ativas entre as células nervosas.

Ao longo do dia, nossa mente está em constante atividade. Cada interação, pensamento, processo de aprendizado ou estímulo vindo do ambiente exige uma troca de informações entre os neurônios. Essa comunicação ocorre por meio das sinapses, que são pequenas regiões onde uma célula nervosa transmite sinais para outra.

Tais conexões são fundamentais para o funcionamento cerebral. Graças a elas, conseguimos adquirir novos conhecimentos, consolidar memórias e nos ajustar às diversas situações do cotidiano. Contudo, manter todas essas conexões funcionando de forma ininterrupta demanda muita energia, gerando uma sobrecarga que impacta a capacidade de foco, o humor e a memória.

Uma das teorias mais aceitas para explicar a importância do sono é a hipótese da homeostase sináptica. Essa teoria sugere que, durante a vigília, as sinapses se tornam mais robustas e numerosas à medida que o cérebro absorve informações. O sono, então, atua como um período de reequilíbrio: algumas conexões vitais são mantidas, enquanto outras são ajustadas para restaurar a harmonia do sistema neural.

É possível comparar esse processo a uma espécie de organização profunda após um dia intenso. O cérebro seleciona o que é essencial para preservar e descarta o que representa um “excesso” de informação.

“O sono é o momento para trabalhos de manutenção que só podem ser realizados após o término das operações normais: o sistema é limpo e os resíduos metabólicos são removidos. Memórias importantes são arquivadas e informações desnecessárias são eliminadas. As conexões neurais são ajustadas e as sinapses são fortalecidas ou desfeitas”, detalhou David Elmenhorst, neurocientista especializado em sono do Centro de Pesquisa Jülich e um dos autores da pesquisa, em um comunicado oficial.

Até o momento, as evidências que sustentavam essa hipótese vinham majoritariamente de experimentos com animais, como moscas-da-fruta e camundongos. O novo estudo teve como objetivo observar esse mecanismo diretamente em seres humanos.

Detalhes da pesquisa que analisou o impacto da falta de sono no cérebro

Os pesquisadores acompanharam um grupo de 40 adultos saudáveis, com idade média de 28 anos. Os voluntários foram divididos em duas categorias: metade teve um padrão de sono regular, dormindo cerca de oito horas entre os exames; a outra metade permaneceu acordada. Na segunda avaliação, este último grupo estava sem dormir por aproximadamente 28,5 horas.

Para visualizar o cérebro dos participantes, os cientistas empregaram uma combinação de ressonância magnética (RM) e tomografia por emissão de pósitrons (PET). Essa última é uma técnica avançada de imagem que permite monitorar processos que ocorrem em tempo real dentro do organismo.

A equipe analisou os níveis de uma proteína específica, conhecida como SV2A, que está presente nas estruturas responsáveis pela liberação de neurotransmissores — as substâncias químicas que permitem a comunicação entre os neurônios. Como essa proteína tem uma forte ligação com as sinapses, ela serve como um indicador indireto da quantidade dessas conexões no tecido cerebral.

O principal achado foi que, após o período de privação de sono, os participantes exibiram níveis elevados de SV2A em diversas áreas cerebrais. Entre essas regiões, destacaram-se o hipocampo, essencial para a formação de memória e o aprendizado, e o tálamo, uma área crucial para o estado de alerta e o processamento de informações sensoriais. A elevação nesses marcadores em áreas tão importantes reflete uma sobrecarga neural, indicando um cérebro que lutava para manter a clareza mental e a capacidade de aprender.

Entretanto, é fundamental ressaltar que esse aumento não indica uma melhora na função cerebral por ter mais conexões. Pelo contrário, a elevação sinaliza que o órgão continuou em atividade por um tempo prolongado, acumulando um volume de trabalho que normalmente seria regulado e reequilibrado durante as horas de sono.

“Nosso estudo sugere que a privação de sono não apenas causa fadiga, mas também é acompanhada por alterações mensuráveis nas conexões neurais”, concluíram os autores em seu comunicado oficial, reforçando a importância do descanso para a saúde cerebral.

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