Universidade Federal do Ceará obtém 100ª patente com tecnologia de ácido de caju contra câncer colorretal
Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) alcançaram um marco importante ao desenvolver uma nova abordagem terapêutica para o câncer colorretal. A tecnologia utiliza o ácido anacárdico, um componente natural extraído da casca da castanha de caju, em combinação com nanopartículas magnéticas. Testes em laboratório demonstraram uma ação seletiva contra células cancerígenas, com impacto reduzido sobre as células saudáveis. Esta inovação é a 100ª patente concedida à universidade pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).
A professora Nágila Ricardo, coordenadora do Laboratório de Polímeros e Inovação de Materiais (LabPIM), explicou o funcionamento da tecnologia. Ela combina a capacidade biológica do ácido anacárdico de combater as células tumorais com o potencial das nanopartículas magnéticas de gerar calor localizado, contribuindo para a regressão do tumor de forma simultânea e complementar.
O desenvolvimento desta pesquisa ocorreu em duas unidades da UFC: o LabPIM e o Laboratório de Oncologia Experimental (LOE), este último ligado ao Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM), ambos pertencentes ao Departamento de Química Orgânica e Inorgânica da instituição. A patente reconhece um grupo de inventores, incluindo Nágila Ricardo, David Alves de Assis, Alexandre Souza, Deyse Maia, Louhana Rebouças, José Vieira Neto, João Victor Pereira e Cláudia do Ó Pessoa.
Os resultados preliminares observados em ambiente laboratorial confirmaram a eficácia seletiva contra células de câncer colorretal, apresentando menor toxicidade para as células normais, conforme detalhou David Alves de Assis, um dos inventores e autor da tese de doutorado em Química que originou o estudo. A conquista foi celebrada durante o XII Encontro Nacional de Propriedade Intelectual (ENPI), que ocorreu em Fortaleza, no Campus do Pici Prof. Prisco Bezerra, entre os dias 17 e 19 de junho.
Não é a primeira vez que o ácido anacárdico proveniente da castanha de caju é objeto de estudos na UFC. A Agência de Inovação da UFC (UFC Inova) já havia registrado a patente PI284, que protege formulações dermatológicas e cosméticas. Essas preparações, que também contêm o mesmo composto encapsulado em nanopartículas lipídicas sólidas, possuem propriedades antimicrobianas, antioxidantes e antiacne para aplicação tópica. Embora publicada em março de 2023, essa tecnologia se distingue da centésima patente em termos de aplicação e sistema de entrega, mas compartilha o uso do mesmo ativo natural nordestino e parte da equipe de pesquisadores, como Deyse Maia, que participou de ambos os projetos.
A versatilidade do líquido da casca do caju
A casca da castanha de caju é uma fonte rica de Líquido da Casca da Castanha de Caju (LCC), um composto formado por ácido anacárdico, cardanol, cardol e 2-metilcardol. Segundo a Agência UFC, este é um dos mais abundantes reservatórios de fenóis de origem vegetal. O Ceará, estado líder na produção nacional, contribui com 71,2% da castanha de caju, totalizando 141 mil toneladas, conforme o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), e o LCC representa cerca de 25% do peso da casca.
Várias pesquisas em andamento na UFC exploram as diversas possibilidades do LCC, demonstrando o potencial multifacetado deste recurso. Na esfera industrial, cientistas desenvolveram um método que emprega o líquido como aglomerante na siderurgia, substituindo o carvão mineral nos processos de briquetagem, com patente já registrada no INPI. O cardanol, um derivado do LCC obtido por destilação molecular, serve também como base para a produção de biolubrificantes, funcionando como uma alternativa sustentável aos lubrificantes de petróleo, de acordo com informações da Agência UFC.
Na área da saúde, além da recente patente contra o câncer colorretal, uma revisão científica publicada no jornal da Universidade Federal do Piauí (UFPI) indica o ácido anacárdico como uma alternativa promissora no tratamento da leishmaniose visceral. Esta é uma doença negligenciada, com alta incidência na região Nordeste. Estudos de laboratório também têm documentado a eficácia do composto contra bactérias responsáveis pela tuberculose e cárie dentária, conforme a literatura compilada no banco de dados SciELO, ressaltando o valor estratégico do caju em diversas frentes.

Dados sobre a crescente inovação na Universidade Federal do Ceará
A UFC registra um total de aproximadamente 653 depósitos relacionados à propriedade intelectual, englobando pedidos de patente, de desenho industrial e registros de software. Em 2025, a universidade ocupou a 14ª posição no ranking do INPI, com 44 patentes de invenção depositadas, e a 6ª colocação entre as instituições do Nordeste em número de depósitos.
O Centro de Ciências lidera o número de cartas-patentes concedidas na UFC, com 33. Em seguida, aparecem o Centro de Ciências Agrárias, com 28, e o Centro de Tecnologia, com 17. Entre os departamentos, o de Química Orgânica e Inorgânica se destaca com 21 cartas-patentes, seguido pelo de Engenharia Agrícola, com 19, e o de Física, com 9. Nos campi localizados no interior do estado, Sobral contabiliza 5 cartas-patentes, e Crateús, 1.
















