Fóssil de ‘crocodilo bruxo’ sem dentes e bípede é achado no Novo México e preenche lacuna evolutiva

4 min de leitura
Fóssil de Osteolaemus tetraspis, crocodilo Foto: Fóssil de Osteolaemus tetraspis, crocodilo - ecologiste/ Shutterstock.com

Pesquisadores revelaram a identificação de um novo ancestral dos crocodilos, um animal que exibia características radicalmente distintas dos répteis semiaquáticos atuais.

O réptil recém-catalogado, denominado Labrujasuchus expectatus, destacava-se por possuir um bico sem dentes e braços diminutos, além de se locomover sobre duas patas, conforme detalhado em um estudo publicado em 26 de maio no Journal of Vertebrate Paleontology. Esta descoberta, aguardada há tempo pelos cientistas, promete fechar uma lacuna no registro fóssil.

Os vestígios de L. expectatus foram encontrados em 2006, em uma pedreira datada de aproximadamente 212 milhões de anos, evidenciando sua existência no final do período Triássico. Os paleontólogos desenterraram ossos das pernas e dos braços, fragmentos da coluna vertebral e outros restos mortais em Ghost Ranch, no Novo México, uma localidade fossilífera célebre cuja paisagem inspirou diversas obras da artista Georgia O’Keeffe.

A espécie e gênero recém-identificados guardam semelhanças com dinossauros do tipo ornitomimossauros, que se assemelhavam a avestruzes e habitaram a Terra no período Cretáceo, entre 66 e 145 milhões de anos atrás. Contudo, o L. expectatus não era um dinossauro. Ele pertencia ao grupo dos shuvossauros, animais com traços de dinossauros que fazem parte do ramo evolutivo que originou os crocodilos contemporâneos.

Para quem questiona a relação com crocodilos, que se movem em quatro patas e possuem dentição vasta, Alan Turner, principal autor do estudo e paleontólogo da Universidade Stony Brook, esclareceu que os répteis da espécie *L. expectatus* “definitivamente não são ancestrais diretos dos jacarés e crocodilos modernos”. Em entrevista, ele adicionou que “podemos considerá-los como primos muito, muito distantes. Eles se separaram há centenas de milhões de anos do grupo que eventualmente nos leva aos jacarés e crocodilos. É uma espécie de ramo lateral.”

crocodilo
crocodilo – Vollverglasung/Shutterstock.com

A biodiversidade e as morfologias animais passaram por transformações drásticas durante o período Triássico, que durou de 252 milhões a 201 milhões de anos atrás. “Muitas das estratégias bem-sucedidas para animais modernos e dinossauros não-aviários surgem primeiro no Triássico, e os shuvossauros são um excelente exemplo dessa evolução convergente”, afirmou Turner em comunicado. “O bipedalismo é, sem dúvida, um caminho incomum para os parentes dos crocodilos, mas é um trajeto bem-sucedido por dinossauros e, posteriormente, por aves. Claramente, funcionou para esses animais.”

O L. expectatus não apenas apresenta um novo gênero e espécie com características singulares, mas também contribui para conectar peças do registro fóssil. Mais especificamente, ele se encaixa entre dois shuvossauros previamente descobertos na mesma região, preenchendo uma lacuna evolutiva que os paleontólogos já teorizavam existir, mas ainda não haviam comprovado.

“A descoberta de um shuvossauro do início do Triássico e outro do período posterior já indicava aos paleontólogos a provável existência de mais exemplares do período intermediário, esperando serem encontrados e descritos”, explicou em comunicado o coautor do estudo, Nathan Smith, paleontólogo e diretor do Instituto de Dinossauros do Museu de História Natural do Condado de Los Angeles.

A natureza da descoberta como o “inesperado esperado” foi imortalizada no nome da espécie do animal, *expectatus*. Já o nome do gênero, Labrujasuchus (pronuncia-se la-bru-ra-su-kus), remete a uma antiga denominação espanhola para o Rancho Fantasma, “Ranchos de los Brujos”, que significa Rancho das Bruxas, e é combinado com o termo grego “suchus”, que quer dizer crocodilo.

Esta pesquisa sucede a identificação de outro gênero e espécie do Triássico, também ligado aos crocodilos, cujos ossos foram encontrados em Ghost Ranch. Batizado de Eosphorosuchus lacrimosa, este animal, do porte de um chacal, possuía um focinho curto, um crânio robusto e músculos mandibulares desenvolvidos para capturar suas presas, conforme relato de pesquisadores em 15 de abril na revista Proceedings of the Royal Society B.

Apesar de o fóssil ter sido desenterrado em 1948, sua identificação definitiva só ocorreu recentemente. Os ossos permaneceram guardados no porão do Museu Peabody de Yale por décadas, conforme contou a coautora do estudo e paleontóloga de Yale, Miranda Margulis-Ohnuma. Contudo, ela percebeu diferenças na estrutura facial deste fóssil em comparação com outros membros do gênero ao qual havia sido inicialmente atribuído, o que motivou uma nova investigação.

“Em relação aos primeiros crocodilos, observamos uma grande escassez de dados, então cada novo fóssil descoberto altera a narrativa”, declarou Margulis-Ohnuma. “Se continuarmos a descrever esse material que já possuímos e, idealmente, encontrarmos novos fósseis, a história continuará a evoluir a cada descoberta.”

Bruna Santos é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve e colabora para o portal desde 2024. Formação: Professora.

Notícias relacionadas