Santa Sé excomunga bispos de grupo tradicionalista; conheça o movimento que reza em latim no BrasilPor Bruna
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O Vaticano anunciou nesta quinta-feira (02/07) a excomunhão de padres e fiéis de um grupo católico dissidente que procedeu com a ordenação de novos bispos sem a autorização pontifícia.
Por meio de um decreto, o Dicastério para a Doutrina da Fé, que é o principal órgão de supervisão doutrinária da Igreja, emitiu um aviso global. Nele, a entidade esclareceu que a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, com sede na Suíça, realiza seus sacramentos de forma inválida. Os membros deste movimento são conhecidos como lefebvrianos, uma referência aos ensinamentos do arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905 – 1991).
Com essa medida disciplinar, os religiosos agora estão impedidos de participar dos sacramentos da Igreja até que demonstrem arrependimento e busquem o perdão.
A determinação papal especificou a excomunhão de dois bispos, Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, que conduziram a ordenação não autorizada na Suíça na última quarta-feira. Também foram incluídos na punição os quatro padres que se tornaram os novos bispos: Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier.
O Vaticano afirmou que todos os sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X e todos os católicos que “aderem formalmente” ao grupo estão agora em estado de cisma e, consequentemente, excomungados.
O termo “cisma” é empregado para descrever uma ruptura significativa e oficial dentro da comunidade católica.
De acordo com o decreto, o grupo ultratradicionalista perde a validade para celebrar casamentos e administrar o sacramento da confissão.
Conforme informações, a Igreja Católica mantém uma norma rigorosa pela qual somente o papa possui a autoridade para aprovar a consagração de novos bispos. Esta regra visa preservar a ligação da instituição com os 12 apóstolos de Jesus, considerados os primeiros sacerdotes e bispos.
Na quarta-feira (01/07), ignorando os apelos finais do papa Leão 14, a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X havia justificado a necessidade de prosseguir com as ordenações sem consentimento papal, citando “circunstâncias excepcionais”.
Quem são os lefebvrianos e suas crenças?
A vivência em uma capela da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, como a observada em São Paulo, é bem diferente da rotina das milhares de igrejas católicas brasileiras aos domingos.
Após um momento de silêncio profundo, o badalar de sinos e um forte aroma de incenso sinalizaram o início da missa das 9h. Isso ocorreu na discreta capela da Fraternidade, situada no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, no último domingo de Pentecostes, no final de maio.
O sacerdote entrou, acompanhado de seus diáconos, pelo corredor central. Ele carregava um turíbulo, um recipiente de metal com correntes que era balançado ritmicamente, como um metrônomo, ao som das preces melodiosamente recitadas em latim.
Posicionou-se de frente para o altar e permaneceu ali por aproximadamente uma hora, com o olhar fixo no Cristo crucificado, nas flores e nos castiçais, enquanto conduzia a cerimônia religiosa.
Atrás do padre, a capela estava repleta de fiéis. Os bancos estavam todos ocupados, e as pessoas se acomodavam de pé nas laterais da igreja e nas escadas que levavam ao mezanino. A maioria não precisava dos livretos com traduções, disponíveis na entrada, para acompanhar as orações em latim.
Além do vermelho e dourado das vestes do padre, as cores sóbrias predominavam. Mulheres e jovens usavam saias e vestidos longos, cobrindo os cabelos com lenços de renda.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X representa uma das congregações que resistem às reformas modernizadoras implementadas pelo Vaticano na década de 1960. Ela continua a celebrar missas nos moldes medievais, em latim, com o sacerdote de costas para os fiéis durante grande parte da cerimônia.
Fundada em 1970, na Suíça, a Fraternidade tem desafiado a Santa Sé desde então. Em 1988, seu criador, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, enfrentou a punição mais severa da Igreja Católica, sendo excomungado por nomear quatro novos bispos sem a aprovação do papa João Paulo 2º.
Apesar da penalidade, que impede a participação na comunhão e em outros ritos e sacramentos católicos, a congregação expandiu-se. Ela se internacionalizou, chegando à América do Sul pela Argentina e, nas últimas duas décadas, tem ganhado força no Brasil, impulsionada pelo crescimento de correntes conservadoras entre os católicos locais.
Nos dias que antecederam a decisão, já havia a expectativa de que o grupo realizaria novas nomeações de bispos, em oposição à autorização do Vaticano.
Durante a missa na Vila Mariana, em um breve momento em que se dirigiu aos fiéis em português, o sacerdote convidou aqueles que desejassem acompanhar a comitiva brasileira ao evento de ordenação. A cerimônia ocorreria na quarta-feira, na cidade suíça de Écône, e ele pediu orações pelos novos bispos.
A Santa Sé havia previamente alertado que as sagrações sem consentimento papal seriam interpretadas como uma ruptura formal com a Igreja, resultando novamente em excomunhão.
O historiador Vinícius Couzzi Mérida, especialista com mestrado e doutorado em Ciências da Religião, ressalta que “a excomunhão é algo raríssimo de acontecer, uma coisa que ocorre uma ou duas vezes por século”.
A divergência entre a tradição e as mudanças na Igreja
A razão fundamental para a atual controvérsia reside na maior reforma da história recente da Igreja Católica: o Concílio Vaticano 2º. Essa assembleia de bispos, realizada entre 1962 e 1965, promoveu alterações profundas na forma como a missa católica era celebrada.
Até aquele período, o padre rezava exclusivamente em latim, muitas vezes sem que os fiéis compreendessem o que era dito. Além disso, a leitura e a interpretação da Bíblia eram privilégio exclusivo dos membros da hierarquia eclesiástica, como sacerdotes e bispos.
Com o Concílio, a língua litúrgica oficial passou a ser o idioma local de cada paróquia. A Igreja começou a encorajar os fiéis a terem maior contato com a Bíblia, incentivando a formação de grupos leigos para estudar os textos religiosos. Abriu-se também “ao diálogo com as religiões não cristãs e à liberdade de consciência”, como explica Mérida, referindo-se à ideia de que a fé é uma escolha pessoal e não deve ser imposta pelo Estado, por exemplo.
Este foi um movimento de cunho progressista, que gerou descontentamento entre a ala mais conservadora do catolicismo.
Entre as figuras que se opuseram a essas mudanças estava o arcebispo francês Marcel Lefebvre. Em 1970, ele fundou o Seminário Internacional São Pio X na cidade de Friburgo, Suíça, como uma resposta direta às reformas.
A intenção era que esse local se tornasse um centro para a formação de sacerdotes que desejassem preservar o modelo de Igreja “tradicional”, que existia antes do Concílio.
Esse período foi marcado pelo surgimento de diversos movimentos, onde o moderno e o antigo entraram em conflito no catolicismo. Segundo Mérida, mais de 40 mil padres abandonaram o sacerdócio nessa época.
“Muitos padres e seminaristas interpretaram que a Igreja estava em um processo de ruptura, caminhando para o nascimento de uma nova igreja, mais progressista e alinhada ao mundo moderno. Isso, de fato, causou grande confusão”, destaca o especialista.
A partir da Suíça, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X expandiu-se, alcançando a França, Alemanha, Estados Unidos, Argentina e até mesmo a Oceania.
O desenvolvimento da Fraternidade no Brasil
A presença e a expansão da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no Brasil estão ligadas a outro grupo de católicos tradicionais: a Diocese de Campos dos Goytacazes, localizada no Rio de Janeiro.
Similarmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a Diocese de Campos também se recusava a aceitar o Concílio Vaticano 2º e mantinha a celebração da missa tridentina, rezada em latim.
As duas congregações mantinham uma relação de grande proximidade. Dom Antônio de Castro Mayer, um dos bispos da diocese, inclusive participou da ordenação dos bispos da Fraternidade e foi excomungado junto com Lefebvre em 1988.
Contudo, após anos de ruptura, a diocese de Campos se reconciliou com o Vaticano em 2002. Aceitando a proposta de reconciliação do papa João Paulo 2º, seus párocos puderam continuar celebrando a missa tridentina, desde que finalmente aceitassem o Concílio Vaticano 2º.
“Os ‘padres de Campos’ pediram perdão e retornaram à plena comunhão com a Santa Sé, e por isso foram considerados traidores pelos antigos aliados da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”, explica Mérida.
Com essa decisão, um grupo de fiéis que também desaprovou a aproximação da diocese com o Vaticano e não desejava mais participar das missas celebradas por esses padres solicitou que a Fraternidade passasse a atuar no Brasil.
Geralmente, a abertura de novas igrejas é determinada pelos bispos diocesanos. No entanto, como a FSSPX se encontra em uma situação canônica irregular, ou seja, não está em conformidade com as normas do Vaticano, essas decisões são frequentemente tomadas por iniciativa da própria Fraternidade, atendendo a pedidos de seus devotos.
“Eles então iniciaram suas atividades no norte fluminense, em São Paulo e na região Sul do Brasil”, relata o historiador, que há mais de duas décadas pesquisa o catolicismo tradicional no país.
Atualmente, a Fraternidade está presente em 14 capelas distribuídas em quatro das cinco regiões brasileiras. A congregação não possui atuação apenas na região Norte do país. Os endereços são listados nos boletins distribuídos aos fiéis e incluem cidades como São Paulo, Indaiatuba (SP), Ribeirão Preto (SP), Sorocaba (SP), Itapetininga (SP), São José do Rio Preto (SP), Passos (MG), Curitiba (PR), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Fortaleza (CE), Parnaíba (PI), Teresina (PI) e São Luís (MA).
“Este é um movimento em ascensão”, afirma Mérida, indicando que o grupo hoje congrega cerca de um milhão de fiéis globalmente e conta com aproximadamente 700 padres.
“Além da expansão da Fraternidade, há também grupos dissidentes que continuam a se fragmentar e multiplicar”, acrescenta.
Embora o número seja relativamente pequeno em comparação com o universo de 1,4 bilhão de católicos, ele é expressivo e reflete o avanço do que é conhecido como catolicismo tradicional. Mesmo não sendo o caso específico da Fraternidade, alguns desses grupos, mesmo em menor escala, são bastante ativos em plataformas digitais e influenciam discussões públicas sobre pautas conservadoras.
O pesquisador explica que tanto a Fraternidade quanto os grupos tradicionalistas que não aceitam o Concílio continuam sendo considerados católicos, mesmo em situação canônica irregular. Isso ocorre porque o Vaticano, segundo ele, persiste na tentativa de promover uma reconciliação com eles.
Essa postura da Santa Sé será testada pela primeira vez durante o papado de Leão 14.
“Tudo indica que a Santa Sé permanecerá intransigente, exigindo que a Fraternidade aceite o Concílio Vaticano 2º para que, assim, possa obter a aprovação do papa”, opina Mérida.
Os folhetos com as orações pelos novos bispos, recomendados pelo padre na capela da Vila Mariana, estavam disponíveis na pequena livraria localizada na entrada da igreja, mas esgotaram rapidamente na manhã daquele domingo.
Restavam nas prateleiras os livros à venda, incluindo obras como “1492: O fim da Barbárie, Começo da Civilização na América”, do autor argentino Cristian Iturralde. Este livro defende a colonização espanhola como um evento benéfico para o continente americano.
Do mesmo autor, “A Inquisição, Um Tribunal de Misericórdia”, se propõe a refutar as críticas aos tribunais religiosos estabelecidos pela Igreja Católica no período medieval, cujo propósito era investigar, julgar e punir indivíduos acusados de heresias.
Ao término da missa, a equipe tentou conversar com um dos padres que se encontrava entre os fiéis na calçada. Ele respondeu a algumas indagações sobre a igreja, que era uma residência doada há quase vinte anos e que passou por diversas reformas para ser expandida. No entanto, o padre informou que as questões relativas aos novos bispos deveriam ser tratadas com o Padre Juan María de Montagut Puertollano, que é o superior da congregação no Brasil.







