Uma medida regulatória federal, implementada há 25 anos, impediu que fortificantes, tônicos e estimuladores de apetite comercializados no Brasil contivessem álcool. Essa determinação forçou o Biotônico Fontoura, um dos produtos nacionais mais antigos e conhecidos, a passar por uma reformulação.
Lançado em 1910, o popular fortificante, presente em muitos lares brasileiros durante o século XX, possuía 9,5% de etanol em sua composição. Essa porcentagem de álcool é comparável à de um vinho espumante e o dobro da encontrada em uma cerveja comum no país.
Contudo, a relevância do Biotônico Fontoura ultrapassa sua característica alcoólica inicial. Sua jornada centenária representa uma fusão de aspectos culturais, conhecimentos tradicionais e, de certa forma, espelha a evolução da saúde pública brasileira ao longo do tempo.
A origem do produto remonta a 1910, no interior de São Paulo. O farmacêutico Cândido Fontoura Silveira (1885-1974) criou uma fórmula destinada a aliviar o cansaço frequente de sua esposa, Elvira Siqueira de Castro. O composto, elaborado com fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol, demonstrou ser eficaz.
“Durante aquele período, grande parte dos remédios era produzida de maneira artesanal por farmacêuticos, conhecidos como boticários, em suas próprias boticas ou laboratórios menores”, explica Eder de Carvalho Pincinato, professor de farmácia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O especialista detalha que esses profissionais trituravam ervas e minerais, destilavam extratos vegetais e criavam pomadas e fórmulas específicas, sempre com o objetivo de combater as enfermidades mais prevalentes na sociedade.
Outros produtos de destaque da época incluíam o Elixir de Nogueira, composto por nogueira e plantas medicinais, a Emulsão Scott, à base de óleo de fígado de bacalhau, e a pomada Minâncora, contendo zinco e cânfora.
O desenvolvimento inicial e a comercialização do fortificante
De acordo com a Hypera Pharma, empresa farmacêutica proprietária da marca desde 2007, Cândido Fontoura iniciou a venda do fortificante em sua farmácia. Gradativamente, profissionais de saúde na área de Bragança Paulista passaram a indicar o produto para seus pacientes.
“Esses eram produtos similares a garrafadas, extratos de plantas em elixires e tônicos, que caracterizavam a indústria farmacêutica daquele tempo”, define o médico e nutrólogo José Roberto da Costa Pereira, que possui diversas patentes e participou do desenvolvimento de muitos farmacêuticos. Ele observa que “a destinação posterior para crianças, mesmo com álcool, reflete a ausência do conhecimento atual, pois acreditava-se que, em certas circunstâncias, era vantajoso e agia como estimulante do apetite infantil, uma crença anterior às modernas diretrizes de toxicologia pediátrica”.
O preparado inicialmente não possuía um nome oficial nem rótulo. Em 1916, Fontoura estabeleceu contato com o escritor e fazendeiro Monteiro Lobato (1882-1948). Ambos contribuíam para o jornal O Estado de S. Paulo. Relata-se que Lobato expressou queixas de cansaço, e o farmacêutico rapidamente lhe ofereceu o fortificante.
Impressionado com os efeitos, Lobato tornou-se um fervoroso promotor do fortificante. Atribui-se a ele a sugestão do nome: “Biotônico”, que significa “tônico da vida”, combinado com Fontoura, o sobrenome do criador do remédio.
Naquele momento, o Serviço Sanitário do Estado já havia concedido autorização para a venda do fortificante em todo o estado de São Paulo. A Hypera Pharma indica que a produção era bastante rudimentar, com embalagens irregulares e rótulos criados manualmente por um ajudante da farmácia.
“Em uma de suas visitas à capital paulista, Cândido Fontoura levou um frasco e os esboços originais dos rótulos para a Litografia Ipiranga, uma das primeiras empresas a realizar impressão gráfica colorida na América do Sul. Cerca de um mês depois, Bragança Paulista recebia os rótulos verdes litografados que identificaram a marca por quase um século: um design art nouveau com o nome do produto e, abaixo, a descrição de suas características”, detalha a assessoria da empresa atual dona da marca.
Essa descrição agia praticamente como um slogan, proclamando: “Regenera o sangue, tonifica os músculos, fortalece os nervos”.
O contexto de saúde no brasil e a ascensão do produto
“O produto se consolidou como um ícone da indústria brasileira”, observa Pereira. “Sua criação ocorreu no começo do século XX, período em que a produção industrial se fundamentava majoritariamente em extratos de ervas e fitoterápicos, com pouca disponibilidade de medicamentos sintéticos. Naquele cenário, tônicos e elixires eram a regra.”
Assim, Cândido Fontoura é visto como uma figura crucial na passagem das tradicionais boticas para o modelo de indústria farmacêutica moderna.
O Brasil enfrentava um cenário de elevada desnutrição e escassez de saneamento básico, o que tornava grande parte da população suscetível a verminoses que provocavam severos sintomas de fraqueza. Monteiro Lobato chegou a relatar em jornais sua estimativa de que aproximadamente 70% dos brasileiros padeciam do “amarelão”, popularmente conhecido como ancilostomose, uma infecção intestinal causada por parasitas, cuja contaminação se dá principalmente pelo contato de pés descalços com solos infectados, resultando em anemia severa e palidez.
“O Biotônico nasceu de uma demanda urgente daquela era, na qual verminoses e deficiências nutricionais eram amplamente disseminadas no Brasil”, declara a educadora em saúde Cíntia Oliveira, especialista em nutrição funcional e escritora do livro “Diabetes em Remissão: A Revolução da Alimentação Consciente”. Ela complementa que “o Biotônico Fontoura é um testemunho da história de um Brasil que enfrentava a carência em diversos aspectos”.
Cândido Fontoura também criou um vermífugo, o Ankilostomina Fountoura. A estratégia era combinada: o vermífugo tratava a infecção, e o Biotônico, em seguida, visava restaurar a energia e estimular o apetite.
A emblemática parceria publicitária com Jeca Tatuzinho
Nesse período, estabeleceu-se uma união entre o produto de Fontoura e um dos personagens mais famosos da literatura de Lobato: o Jeca Tatu, originalmente retratado em 1914 como um camponês indolente.
“Apesar de suas trajetórias e origens serem diferentes, tanto Lobato quanto Fontoura tinham uma preocupação comum com as condições de saúde da população brasileira”, informa a empresa detentora da marca.
Inicialmente, o personagem Jeca Tatu foi descrito por Lobato como um “parasita danoso da terra”, um “indivíduo ocioso, incapaz de se adaptar à civilização”. Em suma, um sujeito desocupado, a quem o autor atribuía a responsabilidade pelo alegado atraso do país.
Com o aprofundamento nas teorias sanitaristas em voga, especialmente na década de 1920, Lobato começou a entender a suposta preguiça como um sintoma de problemas de saúde. “O Jeca Tatu não possui essa característica naturalmente, ele se encontra nessa condição”, passou a defender o escritor.
O personagem Jeca Tatu não era “inerentemente desinteressado”; ele estava, de fato, enfermo.
Em 1924, Lobato concebeu uma versão renovada do personagem, o Jeca Tatuzinho. Este novo caipira era aquele que buscava tratamento e se curava, e ainda ensinava conceitos de higiene e saneamento para o público infantil. “A ideia de Lobato foi brilhante”, comenta a educadora Cíntia Oliveira.
Cândido Fontoura adquiriu os direitos do personagem, transformando Jeca Tatuzinho no rosto publicitário do Biotônico. Na história inicial, Jeca Tatuzinho recebe o diagnóstico de ancilostomose de um médico e, naturalmente, se restabelece. Essa colaboração se tornaria uma das mais marcantes na história da publicidade no Brasil.
“Tratou-se de uma iniciativa precursora de ‘branded content’, bem antes da formulação desse conceito. A publicidade transcendia o simples anúncio de um produto, passando a narrar uma trajetória de mudança e estabelecendo uma conexão afetiva com a audiência”, avalia Karine Karam, comunicóloga e professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Entre 1926 e 1973, foram lançadas 35 edições do folheto Jeca Tatuzinho, com uma tiragem média de um milhão de cópias cada. O personagem Jeca Tatu alcançou reconhecimento nacional, e a marca Biotônico foi amplamente divulgada.
Um movimento de marketing igualmente bem-sucedido foi a introdução do Almanaque do Biotônico Fontoura, posteriormente conhecido apenas como Almanaque Fontoura. Essa publicação anual era distribuída gratuitamente em farmácias e trazia desde pequenos textos educativos sobre saúde e curiosidades, até horóscopo, piadas, calendário de pesca, quadrinhos e diversas anedotas. Monteiro Lobato também esteve por trás da criação desse almanaque, que contava com a presença do Jeca Tatuzinho.
“A revista era fornecida nas farmácias e, com ela, a marca ganhava visibilidade. É notável como essa iniciativa já constituía uma tática avançada de marketing de conteúdo para a época”, declara o publicitário Fernando Lebbe, autor de “Full Marketing”. O especialista atribui a esses esforços a forte inserção do Biotônico na cultura popular.
A produção atingiu volumes impressionantes. Em seu pico, no ano de 1982, foram impressos 100 milhões de exemplares do almanaque.
A campanha de marketing da empresa sempre se caracterizou por ser agressiva e de grande ressonância popular. O famoso jingle “bê a bá, bê é bé, bê i Bi… otônico Fontoura”, lançado em 1978, popularizou-se de uma forma que hoje seria descrita como viral. Celebridades como o jogador Pelé (1940-2022), a apresentadora Xuxa e os artistas Sandy & Júnior foram contratados para estrelar a publicidade do produto, tanto em revistas quanto em comerciais de televisão.
“A publicidade foi o fator decisivo para o êxito do Biotônico Fontoura”, afirma o professor Eder de Carvalho Pincinato.
Receitas populares e a visão científica moderna
Conforme a empresa atual da marca, o Biotônico foi originalmente lançado como um fortificante para indivíduos de todas as idades e em estado de debilitação. No entanto, ao longo do tempo, ele se reorientou progressivamente para o segmento infantil, sendo posicionado como um suplemento nutricional.
A forte ligação com a nutrição infantil e a percepção de acessibilidade transformaram o Biotônico em um componente de diversas receitas da sabedoria popular. Muitas pessoas recordam de ter consumido na infância, com a justificativa de ser um complemento para ganho de peso, uma mistura calórica feita com um frasco de Biotônico Fontoura, dois ovos de pata e uma lata de leite condensado, uma combinação que alguns poderiam comparar a uma bebida de festa universitária.
“Do ponto de vista cultural, essas preparações evidenciam um fato relevante: o Biotônico transcendeu seu papel de medicamento, tornando-se parte integrante de tradições familiares e populares”, pontua a comunicóloga Karine Karam.
“Atualmente, sob a perspectiva nutricional e medicamentosa, essas práticas não são aconselháveis”, comenta o nutrólogo José Roberto da Costa Pereira. “No entanto, naquele período, eram corriqueiras, visto que a dependência de produtos fitoterápicos, tônicos e elixires era grande, e esses eram os recursos acessíveis e considerados eficazes.”
“Em termos populares, faz sentido combinar um fortificante, indicado para anemia, com leite condensado, que é calórico e fornece energia, e ovos, que são ricos em proteína”, explica Cíntia Oliveira. “Contudo, o perigo dessas receitas é considerável, por exemplo, devido ao risco de contaminação provocado pelo ovo cru.”
A empresa proprietária da marca expressa que observa essas receitas tradicionais com “carinho e respeito”, compreendendo que tais misturas caseiras “constituem um legado afetivo que perdurou por gerações de famílias no Brasil”.
Simultaneamente, a corporação enfatiza que “a forma de uso recomendada atualmente segue rigorosamente as informações do rótulo e as diretrizes de especialistas da saúde”, e que as “combinações feitas em casa pertencem à esfera da memória e das tradições familiares de tempos passados, não estando alinhadas com as recomendações de uso atuais do produto”.
Pincinato observa que o Biotônico é um suplemento com “pouca quantidade de ferro elementar”. Ele detalha que a concentração de ferro na fórmula era inferior a 0,16 miligramas por mililitro, enquanto as diretrizes atuais para o tratamento da anemia ferropriva em crianças indicam doses diárias de 3 a 6 miligramas, “podendo alcançar até 60 miligramas por dia”.
Especialistas alertam que o tônico não deve ser considerado uma solução universal. “Dentre outros alimentos, é importante recordar que a alimentação brasileira típica, como o nosso popular feijão com arroz, oferece quantidades apropriadas de ferro e outros elementos vitais para a produção de hemácias e hemoglobina, como o ácido fólico e vitaminas do complexo B”, destaca Ionara Rodrigues Siqueira, bióloga e professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
“É crucial salientar que o produto não influencia os mecanismos fisiológicos da fome. A crença popular de que ele atua como um tônico para estimular o apetite provém da publicidade dos antigos almanaques, que divulgava que o álcool na composição despertava o apetite e promovia uma ‘sedação suave'”, ressalta o farmacêutico Eder de Carvalho Pincinato.
“Não existem provas científicas de sua efetividade como promotor de apetite”, afirma categoricamente a farmacêutica Rosane Gomez, coordenadora da pós-graduação em Farmacologia e Terapêutica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ela explica que “o sulfato ferroso é o único ingrediente ativo com ação comprovada, indicado para anemia ferropriva, uma condição resultante da falta de ferro. No entanto, a deficiência precisa ser confirmada por exames, já que o excesso de ferro pode gerar náuseas, vômitos e hemorragias gástricas”.
A professora também destaca que “o Biotônico Fontoura surgiu em um período de ampla ocorrência de deficiências nutricionais, infecções parasitárias e anemia”. Ela conclui que “o produto provavelmente amenizava sintomas como a fadiga ligada a quadros anêmicos, mas não há comprovação de que ele estimule o apetite ou atue como um real estimulante”.
“Sob a ótica do consumo, o mais fascinante é notar que, a despeito do debate científico, sucessivas gerações de brasileiros foram criadas com a convicção na eficácia do produto, dado que ele estava inserido em um ritual familiar de grande presença”, observa Karine Karam.
A eliminação do álcool e a adaptação da fórmula
Referente à alteração da fórmula, motivada pela regulamentação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há 25 anos, a Hypera Pharma esclarece que a exclusão do álcool é uma das modificações históricas, parte de “atualizações” realizadas para “acompanhar tanto os progressos científicos quanto as novas exigências regulatórias”.
Naquela ocasião, a argumentação da Anvisa se baseava na preocupação de que a exposição diária de crianças a doses de álcool poderia gerar problemas de saúde e aumentar a predisposição ao alcoolismo na vida adulta.
Conforme o farmacêutico Pincinato, diferentemente da ideia difundida de que o álcool funcionava como estimulante do apetite, sua verdadeira função era de solvente, atuando como uma solução farmacotécnica. “Ele auxiliava na dissolução de ingredientes da fórmula que tinham baixa solubilidade em água, contribuía para a conservação e melhorava a aceitação e a estabilidade do produto”, detalha.
O médico e nutrólogo Pereira apresenta uma visão distinta. “Ao ser administrado em pequena quantidade para uma criança, o álcool causava, no início, uma irritação no estômago, provocando um certo desconforto que se manifestava como um desejo de comer”, esclarece. “Funcionava como um aperitivo.”
De acordo com o nutrólogo, a eficácia do tônico também está ligada a outros elementos que “potencializam a secreção gástrica, estimulando o apetite”.
“Com a reformulação, outros ingredientes foram modificados: houve a inclusão de canela, mirra e babosa, substâncias com propriedades cicatrizantes e que estimulam a digestão, favorecendo o aumento da secreção gástrica e, por conseguinte, do apetite, além de auxiliar na preservação”, relata Pereira. Ele ainda comenta que “no passado, a ingestão de álcool por crianças era mais frequente, seja em combinações com água e vinho ou outras, refletindo uma particularidade cultural daquele tempo”.
A companhia aponta que, em 2021, a fonte de ferro convencional da fórmula também foi substituída: o sulfato ferroso deu lugar ao bisglicinato ferroso. Segundo a fabricante, o componente atual promove uma melhor absorção no corpo do usuário.
Adicionalmente, uma inovação recente são as opções de sabores. A partir de 2017, além do sabor tradicional, o Biotônico Fontoura passou a ser comercializado com versões de uva ou morango.
