SAFs no Brasil: Crises de investidores impulsionam novo olhar para governança e estabilidadePor Thiago Lemos
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O cenário das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) no Brasil tem passado por uma significativa transformação, reorientando o debate sobre o futuro dos clubes. Enquanto a avaliação inicial do modelo priorizava a força financeira dos investidores, a crescente maturidade do mercado na quarta-feira, 8 de julho de 2026, realça agora a importância de estruturas de governança robustas. Essas estruturas são cruciais para assegurar a continuidade das operações, mesmo quando os controladores enfrentam crises.
Essa mudança reflete a valorização do futebol brasileiro. Conforme a sexta edição do estudo “Valuation dos Clubes do Brasil”, da consultoria Sports Value, os 30 clubes de maior valor no país atingiram, em 2025, um montante combinado de R$ 47,4 bilhões. Esse valor representa uma expansão de 15% comparado ao ano anterior e um impressionante crescimento de 43% no triênio. A pesquisa atribui a expansão ao fortalecimento das marcas, aos aportes em infraestrutura e elencos, e à solidificação das SAFs como um formato de negócio promissor.
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Diante de ativos com valor crescente, o mercado passou a monitorar não somente os responsáveis pelo controle dos clubes, mas primordialmente a forma como essas operações foram arquitetadas para suportar quaisquer oscilações no cenário.
O especialista em finanças no esporte, Moises Assayag, que atua em reestruturação financeira e operacional, avalia que “o amadurecimento do mercado ocorre precisamente por essa alteração de foco. Inicialmente, o debate se centrava em quem adquiria o clube. Atualmente, a discussão se volta para a estrutura da operação. Contratos, direitos, deveres, governança e salvaguardas deixam de ser elementos jurídicos secundários e se tornam parte integrante do valor do ativo, pois são eles que asseguram estabilidade em transições e elevam a confiança para futuros investidores”.
Botafogo e Vasco: Exemplos da nova dinâmica nas Sociedades Anônimas do Futebol
Essa nova percepção é visível em casos notórios de SAFs no futebol nacional. O Botafogo, por exemplo, emergiu como um marco desta fase. Quando John Textor comprou 90% da SAF alvinegra em março de 2022, a principal questão era o aporte financeiro que um investidor internacional traria ao clube.
Contudo, três anos após, a crise que atingiu a Eagle Football Holdings, grupo liderado por Textor, mudou drasticamente o rumo das conversas. A reestruturação financeira da companhia colocou os credores em evidência, fortaleceu a função dos administradores na condução da recuperação e resultou no acordo para que Michele Kang assumisse o controle do conglomerado.
O acontecimento demonstrou que a continuidade do planejamento esportivo não se limita mais às escolhas do investidor fundador. Contratos, estatutos sociais e mecanismos de governança passaram a ter um peso direto sobre os rumos futuros da agremiação.
Uma conjuntura parecida se deu no Vasco. A crise da 777 Partners gerou uma controvérsia jurídica em torno do domínio da SAF, forçando o clube a procurar saídas para reconfigurar sua organização societária. Durante o andamento, a discussão saiu do foco na permanência do investidor e passou a valorizar a manutenção da operação, do patrimônio e do propósito esportivo.

Ambos os exemplos sublinham uma alteração na visão do mercado sobre as SAFs. Se a fase inicial do modelo foi caracterizada pela entrada de conglomerados econômicos e pelos montantes investidos, a fase corrente acentua a relevância da governança corporativa como um fator decisivo para assegurar estabilidade em face de alterações no controle acionário.
A estrutura de governança como um pilar no valor do clube
Essa abordagem teve seu alicerce na criação da Lei da SAF, em 2021. Além de viabilizar a conversão de clubes em entidades empresariais aptas a atrair investimentos privados, a legislação inseriu dispositivos para reestruturação financeira, proteção dos credores, segregação patrimonial e a implementação de métodos administrativos alinhados ao ambiente corporativo.
Para os especialistas, tais ferramentas se tornaram um diferencial competitivo para os clubes. Isso é ainda mais relevante em um panorama onde os investidores podem encarar instabilidades financeiras ou redefinições estratégicas.
Pedro Weber, sócio-fundador da Chenus Holdings e especialista em negócios do esporte, afirma que “o amadurecimento das SAFs ocorre quando o clube deixa de depender da solidez econômica de um único indivíduo e passa a possuir uma estrutura apta a superar diversos ciclos econômicos. Investidores podem variar, grupos podem ser reestruturados e o mercado sofre oscilações, mas a operação do clube deve persistir. Por essa razão, uma SAF eficaz é fundamentada em governança, contratos bem elaborados, mecanismos de proteção e uma perspectiva de longo prazo. Com esses fundamentos, o ativo mantém seu apelo para novos investidores, e o projeto esportivo tem continuidade, independentemente de quem detém o controle no momento”.
A sequência de acontecimentos envolvendo Botafogo e Vasco consolidou uma nova fase para as SAFs no Brasil. Se, no começo do modelo, o mercado focava primordialmente no capital trazido pelos investidores, a discussão atual passa a englobar a capacidade das estruturas societárias de salvaguardar o funcionamento dos clubes, mesmo diante de períodos de instabilidade financeira de seus controladores. Assim, contratos, governança e mecanismos de proteção transcendem o papel de meros instrumentos administrativos, tornando-se parte intrínseca do valor estratégico dos ativos no futebol nacional.















