Alopecia areata: alto custo e falta de acesso ao tratamento moderno afetam a saúde mental de pacientesPor Carolina Costa
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A personal trainer Karina Lucco, mãe do cantor Lucas Lucco, utilizou suas redes sociais na quinta-feira, 10 de julho de 2026, para revelar o retorno de uma crise de alopecia areata. Em um vídeo emocionante, ela narrou ter notado o rápido surgimento de novas falhas no couro cabeludo após meses de recuperação, expressando sua frustração, mas confirmando que prosseguirá com o tratamento.
A experiência de Karina Lucco sublinha a natureza volátil da doença: mesmo depois de períodos de melhora, a alopecia areata pode reativar-se. Segundo especialistas, esta é uma condição autoimune crônica e imprevisível, que suspende temporariamente a atividade do folículo piloso sem destruí-lo, o que frequentemente permite o recrescimento dos fios.
Médicos indicam que aproximadamente 2% da população global, ou cerca de uma em cada 50 pessoas, desenvolverá alopecia areata em algum momento da vida. Além do impacto físico, a doença tem um forte componente psicológico, podendo afetar gravemente a autoestima, a identidade pessoal e o bem-estar mental dos indivíduos.
Especialistas ressaltam que, embora existam agora terapias eficazes e aprovadas, o principal desafio não é mais a pesquisa científica, mas sim a acessibilidade. O alto custo da medicação mais avançada disponível, que gira em torno de R$ 1.800 mensais, e a ausência de políticas públicas para a doença, tornam o tratamento para casos graves inacessível para grande parte dos afetados.
Entendendo a alopecia areata: o ataque do sistema imunológico aos folículos pilosos
A alopecia areata é caracterizada como uma doença autoimune, na qual o próprio sistema de defesa do corpo ataca os folículos pilosos, responsáveis pelo crescimento dos cabelos.
A tricologista Ludmila Vieira explica que o folículo não é destruído, mas entra em um estado de repouso. Como não há dano permanente ou formação de cicatrizes, há um potencial significativo de recuperação, podendo, em muitos casos, levar à restauração completa dos fios.
- Pequenas áreas arredondadas sem cabelo no couro cabeludo.
- Alopecia total, que implica a perda completa dos cabelos na cabeça.
- Alopecia universal, que se estende à perda de pelos em todo o corpo, incluindo sobrancelhas e cílios.
Pedro Henrique de Almeida, especialista em transplante capilar, observa que as regiões afetadas geralmente apresentam pele lisa, sem vermelhidão ou descamação, e que os cabelos podem voltar a crescer mesmo após anos, justamente pela preservação do folículo.
Comportamento imprevisível da condição
A natureza da alopecia areata é frequentemente descrita por especialistas como imprevisível. A doença pode entrar em remissão espontaneamente, permanecer estável por longos períodos ou reativar-se após fases de melhora.
Karina Lucco relatou que, menos de um ano depois de começar o tratamento e apresentar sinais de melhora, novas falhas no couro cabeludo surgiram rapidamente. Ela foi informada por seu médico de que a reativação da doença é uma possibilidade, mas demonstrou confiança na recuperação e na continuidade do tratamento.
Fatores que desencadeiam a alopecia areata
Não há uma causa única para o desenvolvimento da alopecia areata. Especialistas afirmam que a condição é principalmente resultado de uma predisposição genética combinada com uma resposta autoimune.
A doença também pode estar associada a outras condições de saúde, como tireoidite, artrite reumatoide, doença celíaca, lúpus, esclerose múltipla, psoríase, vitiligo e diabetes tipo 1, além de quadros atópicos como rinite, asma e dermatite atópica.
Os médicos enfatizam que o estresse não é considerado uma causa direta da doença, mas pode atuar como um fator desencadeante em indivíduos geneticamente predispostos.
Quem está sujeito a desenvolver alopecia areata?
A alopecia areata pode afetar homens, mulheres e crianças de todas as idades, com um risco vitalício de aproximadamente 2% da população. A prevalência em um dado momento varia entre 0,1% e 0,2%, sendo que as formas mais severas, como a total e a universal, representam cerca de 5% dos casos.
Embora possa manifestar-se em qualquer faixa etária, os especialistas mostram preocupação com os casos que surgem na infância.
A tricologista Ludmila Vieira aponta que quando a alopecia surge precocemente, especialmente antes dos 6 ou 12 anos, há uma maior probabilidade de progressão para formas mais extensas da doença.
Pedro Henrique de Almeida complementa que cerca de 20% dos casos de alopecia areata têm início ainda na infância.
Como o diagnóstico de alopecia areata é estabelecido?
O diagnóstico da alopecia areata é, em geral, feito em consultório, por meio da avaliação clínica e de um exame detalhado do couro cabeludo.
- Pelos em ponto de exclamação.
- Pontos pretos.
- Pontos amarelos.
Conforme os especialistas, a biópsia é geralmente reservada para situações onde há dúvidas diagnósticas.
Eles também salientam a importância de distinguir a alopecia areata de outras condições capilares, como eflúvio telógeno, tricotilomania e infecções do couro cabeludo, visto que cada uma exige abordagens terapêuticas distintas.
Ludmila Vieira explica que “alopecia” refere-se a falhas, afinamento ou perda progressiva de densidade capilar, enquanto “eflúvio” indica uma queda acentuada dos fios. Ambas as condições podem coexistir.
A médica exemplifica: “Uma pessoa pode ter alopecia androgenética e, simultaneamente, um eflúvio provocado por uma cirurgia, pós-parto, dieta inadequada, deficiência nutricional ou estresse. Por isso, a queda de cabelo não deve ser tratada como um fenômeno único e indiferenciado”.
Tratamento da alopecia areata: desafios de custo e acesso à medicação avançada
As opções de tratamento para alopecia areata variam conforme a extensão e a gravidade da doença.
- Uso de corticoides tópicos.
- Infiltrações com corticoides.
- Acompanhamento clínico, pois algumas placas podem regredir de forma espontânea.
Em situações mais extensas ou que não respondem aos tratamentos iniciais, os avanços mais notáveis foram observados com os medicamentos conhecidos como inibidores de JAK.
Esses fármacos agem bloqueando a via de sinalização que estimula o ataque do sistema imunológico aos folículos pilosos. Exemplos incluem o ritlecitinibe (comercializado como Litfulo) e o baricitinibe (Olumiant), ambos já aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
Por serem imunossupressores, esses medicamentos demandam rigoroso acompanhamento médico e monitoramento laboratorial durante todo o período de tratamento.
Os especialistas também esclarecem que essas terapias controlam a progressão da doença, mas não oferecem uma cura definitiva.
Ludmila Vieira enfatiza que o ritlecitinibe representou um marco significativo no tratamento da condição, mas seu alto custo ainda impede que seja acessível a todos os pacientes necessitados. O tratamento mensal, mesmo com descontos oferecidos pelo laboratório, custa em torno de R$ 1.800, e o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não oferece este medicamento.
Em resposta a questionamentos, o Ministério da Saúde comunicou que não há, até o momento, uma solicitação para a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec) analisar a inclusão do ritlecitinibe para o tratamento da alopecia areata. A pasta informou ainda que tanto pessoas físicas quanto jurídicas têm o direito de solicitar à Conitec a incorporação, alteração ou exclusão de qualquer tecnologia no SUS.
Além da estética: o impacto psicológico da alopecia areata
Os profissionais de saúde ressaltam que a alopecia areata transcende a questão estética, configurando-se como uma condição com profundas repercussões.
Ludmila Vieira destaca que a doença pode desencadear um impacto psicológico intenso, afetando severamente a autoestima, a percepção da própria imagem e a saúde mental dos indivíduos. Ela compartilha experiências de pacientes que desenvolveram depressão grave e ideação suicida, além de crianças que sofreram bullying escolar.
Pedro Henrique de Almeida complementa que os níveis de ansiedade e depressão observados em pacientes com alopecia areata são comparáveis aos registrados em doenças consideradas clinicamente graves, o que torna o suporte psicológico uma parte essencial do tratamento.
O caso de uma criança evidencia os desafios da doença
A família de Maria Eduarda Miranda, residente em Minas Gerais, vivenciou a rápida progressão da alopecia areata em sua filha. Rodrigo Miranda, pai da menina, relatou que Maria Eduarda começou a apresentar pequenas falhas capilares aos 7 anos. Apenas dois anos depois, ela perdeu todos os cabelos em um período de 15 dias, incluindo cílios e sobrancelhas.







