Uma criança de 10 anos foi resgatada na quinta-feira, 9 de julho, pelo Conselho Tutelar em Goiânia, após ser encontrada sozinha, sem acesso a alimentos ou água, e trancada dentro de um apartamento. O incidente ocorreu no dia de seu próprio aniversário, intensificando a gravidade da situação. Vídeos do resgate mostram o garoto conversando com os conselheiros pela janela, revelando que havia consumido apenas biscoitos oferecidos por uma vizinha e que precisava urinar em uma garrafa.
A mãe do menino foi detida e será acusada por abandono de incapaz, conforme informações da Polícia Civil. Sua identidade não foi divulgada, o que impediu a localização de sua defesa para um pronunciamento sobre o caso.
Segundo relatos da Polícia Militar, a mulher justificou sua ausência dizendo que havia saído para o trabalho noturno. Ela alegou ter trancado o filho para impedir seu acesso a alimentos, sob o pretexto de que ele era diabético e poderia passar mal caso comesse em excesso, uma justificativa que agrava a negligência em vez de justificá-la.
O resgate aconteceu em um prédio localizado no Setor Faiçalville, em Goiânia. José Roberto da Silva, um dos conselheiros tutelares envolvidos, confirmou que a criança, portadora de diabetes tipo 1, estava em uma condição de extrema vulnerabilidade no momento da intervenção.
Comunicação com o menino pela janela do apartamento
Em registros audiovisuais que precederam a ação, o conselheiro José Roberto utilizou uma escada para facilitar a comunicação com o menino, que falava através da janela do quarto. Ele questionou se o garoto havia se alimentado naquele dia, ao que a criança respondeu:
“Acabei de comer umas bolachinhas.”
Sentindo muita sede, o menino pediu água aos conselheiros. Eles improvisaram uma solução, utilizando uma sacola plástica amarrada a lençóis para içar uma garrafa com água até a janela do apartamento.
Conforme a Polícia Civil, a mãe da criança será autuada por abandono de incapaz. O conselheiro José Roberto informou que, após o resgate, o menino passou a noite em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) no Hospital Estadual da Criança e do Adolescente (Hecad).
Equipes encontram apartamento com lixo e comida estragada
O Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar foram acionados para auxiliar no resgate, uma vez que as portas do apartamento e do quarto estavam trancadas. Ao conseguir abrir a porta, os militares se depararam com um cenário de desordem, encontrando roupas sujas espalhadas, lixo acumulado e restos de comida apodrecida pelo imóvel.
Após a abertura da porta do quarto, o menino expressou a esperança de ter “uma vida melhor” a partir daquele momento. No cômodo onde ele estava, foram encontrados um colchão, alguns brinquedos, um ventilador e a garrafa utilizada para as necessidades fisiológicas.
Vizinhos já haviam notado a situação de vulnerabilidade do garoto
Em depoimento, a vendedora Loiana Kelly Brito relatou já ter testemunhado a mãe agredindo a criança e que a havia alertado sobre a intenção de contatar o Conselho Tutelar.
“Tinha uma outra mulher que morava aqui, que disse que já tinha ligado para o Conselho Tutelar porque já havia escutado várias vezes ele gritando por socorro, sozinho da janela. Ela ajudou até ele a se alimentar, porque ele ficava aqui sozinho”, acrescentou Loiana.
O síndico do prédio, Carlos Eduardo Freitas, confirmou que o menino costumava gritar da janela do apartamento durante todo o dia. “À tarde, as crianças saem pra brincar e ele fica interagindo com eles. É triste, machuca a gente”, desabafou Freitas.
O tenente da Polícia Militar, Antônio Marmo Júnior, corroborou a versão da mãe, que alegou ter deixado o filho sozinho por motivos de trabalho.
Saúde da criança diabética descompensada após o resgate
Após ser resgatado, o menino foi encaminhado ao CAIS Jardim América, onde foi constatado que seu diabetes estava descompensado. “A médica explicou que a glicose dele ficou muito alterada pelo tempo que ele ficou sem se alimentar”, detalhou o conselheiro Cleiton Araújo.
Para receber a insulina, o garoto precisou de medicação adicional e foi transferido para o Hospital da Criança e do Adolescente. A instituição, no entanto, informou que não poderia fornecer detalhes sobre o estado de saúde do paciente, em respeito às diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente.
A mãe foi levada para a Central de Flagrantes e deve ser formalmente acusada por abandono de incapaz.
O delegado Eduardo Carrara afirmou que a criança foi encontrada em um ambiente onde estava privada de alimentos e de um local adequado para suas necessidades fisiológicas. “Sem falar que tinham canetas de insulina, que é muito perigoso para criança administrar sozinha”, ressaltou o delegado, apontando o risco adicional para a saúde do menino.
Ao Conselho Tutelar, o garoto manifestou o desejo de morar com o pai. O conselheiro José Roberto informou que o órgão avaliará essa possibilidade junto ao Juizado da Infância e da Juventude.
