Cenipa revela alertas ignorados em queda de avião da Voepass que matou 62 pessoas
O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), divulgado em 23 de julho de 2026, apontou que o avião da Voepass que caiu em Vinhedo, São Paulo, em 9 de agosto de 2024, emitiu ao menos cinco tipos de alertas antes do acidente. A investigação concluiu que esses avisos, que indicavam formação de gelo, perda de desempenho e velocidade baixa, não foram tratados de forma adequada pela tripulação, resultando na morte de todas as 62 pessoas a bordo.
Sequência de alertas desconsiderados antes da tragédia
A aeronave registrou uma série de alertas cruciais nos momentos que antecederam a perda de controle. Os sistemas internos indicaram condições perigosas que, se abordadas corretamente, poderiam ter evitado o desastre.
- Detector eletrônico de gelo: Avisou sobre o acúmulo de gelo nas superfícies do avião diversas vezes, o que exigia o acionamento do sistema de degelo e ajuste da velocidade.
- Alerta de velocidade baixa (Cruise Speed Low): O computador alertou que a aeronave voava abaixo da velocidade recomendada, com aumento de arrasto, condição compatível com o gelo.
- Avisos do monitoramento de performance (APM): O sistema indicou degradação do desempenho, mas a tripulação demonstrou dificuldade em reconhecer a gravidade da situação.
- Alerta de estol: Nos instantes finais, o sistema avisou sobre a perda de sustentação, com os pilotos não seguindo o procedimento de emergência adequado.
- Aviso de nível 2: Um alerta de velocidade perigosamente baixa foi classificado como de “nível 2” pelo fabricante, categoria de atenção que, segundo o relatório, pode ter contribuído para a subestimação do risco.
Falhas na cabine e a cultura de desvios da Voepass
A investigação detalhou que os alertas não foram ignorados por uma única razão, mas por uma combinação de fatores complexos. Os pilotos estavam envolvidos em conversas sobre assuntos pessoais durante parte do voo, o que impactou diretamente a atenção dedicada aos avisos emitidos pela aeronave. Além disso, os tripulantes não acionaram o sistema de degelo, nem solicitaram uma descida imediata ou declararam emergência, mesmo diante do agravamento das condições de voo.
Um ponto destacado pelo Cenipa foi a chamada “normalização de desvios” na Voepass. A companhia, segundo o relatório, mantinha uma cultura em que alguns alertas recorrentes do sistema de monitoramento eram tratados como situações comuns, reduzindo a percepção de risco entre os pilotos. Essa prática, que minimizava a gravidade de procedimentos operacionais, foi considerada um fator contribuinte para a tragédia.
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Aeronave com problemas e as mudanças pós-acidente
O relatório também revelou uma irregularidade que precedeu a decolagem do voo. O avião apresentava uma falha no limpador de para-brisa e, com a previsão de chuva na rota e no destino, a aeronave não deveria ter iniciado o trajeto nessas condições. A investigação identificou ainda que problemas relacionados ao sistema de degelo haviam ocorrido em voos anteriores da mesma aeronave, na véspera e no próprio dia do acidente. Essas panes, contudo, não foram devidamente registradas no diário técnico, impedindo que a manutenção realizasse os reparos necessários.
Como consequência direta do acidente, a fabricante francesa do modelo da aeronave alterou o manual e atualizou o sistema operacional. Essas modificações representam uma resposta às falhas identificadas e visam aprimorar a segurança da aviação, evidenciando mudanças práticas para evitar que tragédias semelhantes ocorram no futuro.
A posição da Voepass sobre as conclusões do relatório
Em nota, a Voepass declarou que a tragédia foi o episódio mais difícil em sua história. A companhia afirmou que atuou de forma transparente desde o acidente e permanece à disposição das autoridades para colaborar com as investigações. A empresa também garantiu que sempre adotou procedimentos de segurança, capacitação e orientação das tripulações alinhados aos padrões internacionais.
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A Voepass reiterou que os pilotos do voo eram experientes, acumulando mais de 5 mil horas de voo, estavam devidamente certificados e com treinamentos e acompanhamentos de saúde em dia. Segundo a companhia, não havia qualquer registro prévio que impedisse a atuação dos profissionais.
Relembre os detalhes do acidente de 2024
O voo 2283 da Voepass caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo, durante o trajeto entre Cascavel, Paraná, e Guarulhos, São Paulo. O acidente resultou na morte de 62 pessoas, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes. Este desastre é considerado o mais grave da aviação brasileira desde o voo da TAM em 2007.
Ao longo da investigação, o Cenipa realizou uma análise minuciosa, que incluiu as duas caixas-pretas, testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500. Foram examinados motores, sistemas de degelo e proteção contra estol, além de um estudo de mais de 15 mil voos da mesma frota e diversos documentos técnicos. O relatório final reúne as conclusões técnicas sobre os fatores que contribuíram para o acidente e apresenta recomendações para aumentar a segurança da aviação, visando evitar novas tragédias.

















