Após terremotos, porto de La Guaira se transforma em necrotério para identificar vítimas na VenezuelaPor Bruna
5 min de leitura
![]() |
A região costeira de La Guaira, na Venezuela, a mais afetada pelos recentes terremotos, transformou seu principal porto em um local de recepção provisório para os corpos recuperados dos prédios que ruíram.
Profissionais forenses, identificados por seus jalecos azuis, movimentavam-se na última segunda-feira (29) entre inúmeros sacos e caixões de madeira dispostos no solo. Nas proximidades da estrutura que serve de centro para as operações, centenas de caixões vazios estavam alinhados em um lado, enquanto pilhas de destroços ocupavam o outro, conforme observou a imprensa.
Siga o Mix Vale no Google e veja nossas notícias primeiro
A série de tremores sísmicos que abalou a nação na quarta-feira anterior, com abalos de 7,2 e 7,5 de magnitude em rápida sucessão, causou destruição generalizada em La Guaira. Este estado litorâneo, adjacente a Caracas, possui um porto de grande relevância estratégica para o país devido à sua proximidade com a capital.
As informações oficiais mais recentes indicam um total de 1.719 mortes, porém a contagem segue em ascensão, e a equipe de legistas opera sob extrema pressão. Inicialmente, feridos e falecidos foram levados a hospitais locais, mas os necrotérios dessas instituições logo atingiram sua capacidade máxima diante do grande volume de vítimas.
Famílias enfrentam espera agonizante para reconhecer seus entes queridos
“Me disseram que minha irmã e seus filhos estão ali, junto com os filhos do meu irmão, que conseguiu escapar”, relata Wilker Molalla, de 25 anos. Ele aguarda no local a chance de identificar os membros de sua família, que moravam perto do porto. Dos onze familiares, apenas ele e o irmão sobreviveram, pois estavam trabalhando no momento da catástrofe.
A paciência dos que aguardam no porto é testada. Parentes formam longas filas, esperando a permissão para acessar o espaço, identificar os corpos ou proceder com o recolhimento. É comum ver muitos deles com buquês de flores coloridas em suas mãos.
Há muitas reclamações sobre a insuficiência de equipes para lidar com a situação de emergência, adicionando-se a outras críticas sobre a forma como a crise está sendo administrada. Grande parte da procura por vítimas nos escombros é feita pelos próprios moradores, sem o apoio formal das autoridades.

Desafios na identificação: histórias pessoais em meio ao caos
Médicos e profissionais forenses executam suas tarefas com os corpos sob tendas improvisadas, montadas ao ar livre. Alguns cadáveres são cobertos com cal, uma prática que certos especialistas consideram dispensável no contexto atual.
O porto de La Guaira também serve como ponto para a emissão de certidões de óbito e permissões para cremação. Além disso, um veículo especializado em resíduos hospitalares se faz presente para coletar as amostras necessárias para as autópsias.
“Eu estive aqui ontem e procurei por toda parte, mas não achei minha filha”, desabafa Antony Marcano, um cozinheiro de 41 anos, visivelmente abalado. “Retornei hoje com mais tranquilidade e, felizmente, a encontrei e consegui identificá-la”, complementou, explicando: “Foi pelo anel que eu havia lhe dado”.
Ajuda humanitária internacional e a gestão da crise pós-terremoto
Embora as autoridades venezuelanas evitem mencionar o número de desaparecidos, a Organização das Nações Unidas (ONU) calcula que sejam aproximadamente 50 mil pessoas. Em um anúncio feito na segunda-feira, a ONU informou que enviará 10 mil bolsas mortuárias para o país.
Empresas funerárias particulares estão presentes, oferecendo gratuitamente serviços de transporte e cremação. Seus veículos fúnebres permanecem estacionados nas imediações do porto.
Darwin Silva, de 37 anos, organiza o translado do corpo de sua mãe, que residia no conjunto habitacional Hugo Chávez I, um projeto governamental simbólico. “Ela já foi identificada, e a certidão de óbito foi emitida”, disse ele, visivelmente comovido. Ele próprio levou o corpo até o porto para finalizar a burocracia, contando que a mãe foi encontrada sob uma viga à noite, graças a um gerador cedido por vizinhos para iluminar a área.
Erguidos inicialmente como um marco da modernização nacional, os edifícios deste conjunto habitacional agora se tornaram um símbolo da precariedade e da profunda crise que assola a Venezuela, expondo as fragilidades do desenvolvimento em um cenário de calamidade.
“Muitas das construções na área traseira do conjunto ruíram totalmente”, relatou Jenny Contreras, de 28 anos. Ela, o esposo e o filho de quatro anos têm dormido em um colchão na rua desde que os abalos destruíram parte do complexo residencial na cidade de Catia La Mar, próxima a La Guaira.
Todos os 3.400 apartamentos foram esvaziados, e Contreras menciona que não teve oportunidade de retornar para resgatar seus objetos pessoais. Fissuras significativas percorrem as edificações, expondo a estrutura interna, conforme observou a imprensa. Parte dessas construções ameaça desabar, enquanto outras já vieram abaixo por completo.















