Clima extremo no Brasil: El Niño influencia temporais, mas não é a única causa dos ventos devastadores
No início de agosto de 2026, o Brasil testemunhou uma série de eventos climáticos severos, que incluíram enchentes, tornados, granizo, deslizamentos e ventos com velocidades superiores a 100 km/h, além da rara aparição de nuvens de rolo. Esses fenômenos extremos causaram mortes e ampla destruição em estados do Sul, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Diante dessa sequência, a questão central é: qual a real influência do El Niño, já estabelecido no Oceano Pacífico, sobre esses acontecimentos?
Pesquisadores consultados afirmam que o El Niño já exerce impacto sobre o clima brasileiro, principalmente na região sul, mas não é o único responsável por todos os episódios recentes, como os fortes ventos que atingiram São Paulo e o Rio de Janeiro.
“O que temos observado é uma antecipação da potencial influência desse fenômeno”, explicou Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
O El Niño é um fenômeno caracterizado pelo aquecimento atípico das águas superficiais do Oceano Pacífico, perto da costa do Peru. Quando sua intensidade aumenta, ele modifica os padrões de circulação atmosférica e altera o regime de chuvas e temperaturas em diversas partes do globo.
Giovanni Dolif, pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), reforça que os primeiros efeitos do El Niño já são perceptíveis no Brasil.
“Ele já está influenciando e favorecendo essas tempestades severas e inundações no Sul, e o auge desses eventos deve ocorrer em alguns meses”, detalhou Dolif.
Primeiros sinais do El Niño se manifestam na região sul
O Rio Grande do Sul foi uma das áreas mais afetadas durante a semana de 2 de agosto de 2026, enfrentando chuvas intensas, granizo e tornados, resultantes da passagem de uma robusta frente fria.
Para os especialistas, é no Sul do país que a atuação do El Niño se mostra mais nítida neste período. Historicamente, o fenômeno contribui para o aumento das precipitações na região e pode intensificar episódios de chuvas extremas.
Ainda assim, os cientistas advertem que o El Niño não age isoladamente. Eventos meteorológicos de grande intensidade resultam da combinação de múltiplos fatores atmosféricos, que variam conforme cada situação. As projeções, no entanto, geram preocupação.
“O Brasil precisa se preparar para uma maior probabilidade de ocorrência de eventos extremos até o final do ano”, alertou Lincoln Muniz Alves.
Como se formaram os ventos intensos em São Paulo e no Rio de Janeiro
Se o El Niño contribui para explicar parte dos desastres no Sul, os especialistas não o apontam como a causa direta das ventanias que devastaram São Paulo e o Rio de Janeiro.
A explicação para esses eventos reside em uma dinâmica atmosférica distinta. Uma massa de ar de temperatura muito baixa avançou do sul em direção ao sudeste do país. Ao encontrar-se com uma massa de ar mais quente do que o habitual para o inverno, que se deslocava em sentido contrário, gerou um choque.
O encontro dessas massas de ar criou as condições ideais para a formação de uma potente frente de rajadas, capaz de gerar ventos com poder destrutivo. A intensidade dessa interação se relaciona diretamente com a diferença de temperatura entre as massas de ar envolvidas.
Foi esse mecanismo que provocou a queda de árvores, o colapso de estruturas, as interrupções no transporte e os acidentes que resultaram em óbitos tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo.
Entre os fenômenos mais notáveis durante a passagem dessa frente fria esteve a formação das chamadas nuvens de rolo, estruturas alongadas que se assemelham a cilindros em movimento no céu.
Essas nuvens se desenvolvem quando o ar quente e úmido se condensa rapidamente em uma atmosfera que apresenta marcantes contrastes de temperatura e ventos fortes.
O piloto Passos presenciou a situação de perto enquanto realizava um voo entre o Rio de Janeiro e uma plataforma de petróleo no mar.
“Era impossível medir o tamanho dela, e a velocidade com que se aproximou foi inacreditável. Não imaginávamos que ela estava se deslocando tão rapidamente em nossa direção”, relatou.
Ele descreveu que tudo aconteceu em questão de poucos minutos.
“Nós vimos essa formação. Ela estava distante da plataforma. Ao fazer a curva, ela já estava ao nosso lado. Foi muito rápido. Nunca tinha visto algo assim”, completou o piloto.
Durante a aproximação para pouso na plataforma, a velocidade dos ventos aumentou de aproximadamente 20 km/h para 100 km/h. Diante do perigo, a equipe decidiu retornar ao Rio de Janeiro.
“A segurança está sempre em primeiro lugar”, disse o piloto.
Com vinte anos de experiência e mais de 8 mil horas de voo, Passos observa alterações no padrão climático.
“O comportamento está diferente. São mudanças drásticas e repentinas. Mesmo com a previsão, acabamos nos surpreendendo com frequência”, afirmou.
Aquecimento global agrava a intensidade dos eventos climáticos extremos
Na mesma semana de 2 de agosto de 2026, outros eventos extremos foram registrados globalmente: inundações e deslizamentos na Índia, enchentes e uma onda de calor intensa na China, milhares de mortes na Alemanha ligadas ao calor extremo, uma seca histórica na Inglaterra e nevascas e inundações no Chile.
Estudos indicam que o aquecimento global já intensifica e aumenta a frequência de diversos eventos climáticos extremos. Na Europa, por exemplo, pesquisadores concluíram que a probabilidade de incêndios florestais recentes foi ampliada devido ao aumento da temperatura média do planeta.
Para Giovanni Dolif, uma atmosfera com temperaturas mais elevadas cria condições mais instáveis e, consequentemente, mais difíceis de prever.
“Uma atmosfera mais quente torna-se mais turbulenta e caótica, o que dificulta ainda mais as previsões”, explicou.
A conclusão dos cientistas é que o El Niño, de fato, influencia os eventos extremos no país, especialmente na região sul. Contudo, essa influência se manifesta em um contexto maior: o de um planeta em constante aquecimento, onde os fenômenos meteorológicos severos encontram condições mais propícias para se tornarem ainda mais intensos e destrutivos.
Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.
