Acampamento de imigrantes se forma em Ceuta após fluxo em massa na fronteira com MarrocosPor Jeronimo Santos
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Uma praia no território espanhol de Ceuta, localizado no norte da África, se transformou em um acampamento para centenas de imigrantes no dia 3 de julho. Este movimento ocorre dias depois que milhares de pessoas realizaram a travessia pela fronteira.
As autoridades da Espanha calculam que aproximadamente 69.500 imigrantes já foram repatriados para Marrocos ao longo dos últimos quatro dias. Esse total ultrapassa as projeções iniciais que indicavam cerca de 50 mil entradas na cidade até o dia 30 de junho.
O balanço oficial de vítimas aponta 72 falecimentos no lado espanhol da divisa, enquanto 11 mortes foram contabilizadas na área marroquina.
Diversos imigrantes informaram que a decisão de deixar Ceuta foi motivada pela paralisação do comércio, o que resultou na escassez de alimentos. Eles também relataram ter sofrido com a hostilidade da população local e a impossibilidade de prosseguir para a Espanha continental.
Ceuta, juntamente com Melilla, outro enclave espanhol no norte da África, situa-se na costa do Mediterrâneo, vizinha ao Marrocos. Ambos os locais são pontos de frequentes tentativas de travessia por parte de imigrantes que almejam alcançar a Europa.
Filmagens divulgadas revelaram dezenas de imigrantes, grande parte da África Subsaariana, repousando na areia da praia de El Trampolín. Diversos indivíduos se protegiam do vento com toalhas, enquanto carros do Exército e da polícia realizavam patrulhamento na via adjacente.
Juan Jesus Vivas, líder de Ceuta, concedeu entrevista a uma emissora, informando que o enclave ainda abriga entre 3 mil e 5 mil imigrantes. Ele acrescentou que os dois centros de acolhimento, um destinado a adultos e outro a menores, entraram em colapso devido à sobrecarga.
Alberto Gaitan, autoridade municipal, afirmou que a cidade está em processo de atendimento a 862 menores imigrantes. Estes jovens recebem proteções legais específicas que os resguardam da deportação.
Desdobramentos diplomáticos e críticas na União Europeia
A escalada da crise fomentou a retórica anti-imigração por todo o continente europeu e gerou tensões diplomáticas significativas no âmbito da União Europeia (UE) em relação à política de fronteiras. A Espanha, em particular, criticou alguns países parceiros por adotarem uma postura prejudicial e polarizadora.
O ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, declarou no dia 3 de julho que seu país já havia prestado apoio a outras nações da UE em momentos de crises migratórias. Por isso, esperava agora uma reciprocidade no auxílio.
O bloco europeu agendou uma reunião de emergência por videoconferência, reunindo os ministros do Interior, para debater a crise no dia 4 de julho.
Albares dirigiu críticas severas ao governo da Itália, acusando-o de contribuir para a disseminação de desinformação.
Ele mencionou ainda que o Marrocos prontamente ofereceu suporte policial e não estabeleceu condições para a cooperação, o que viabilizou o rápido retorno da maior parte dos indivíduos que realizaram a travessia.
Em contrapartida, Vivas, representante de Ceuta, expressou críticas ao Marrocos. Ele enfatizou a percepção generalizada em Ceuta de que o país vizinho havia permitido a crise, ou até mesmo a orquestrado.
“O Marrocos nos mostrou que não é confiável. Não há alternativa a não ser implementar todos os meios necessários para garantir que ele não possa fazer isso novamente”, afirmou Vivas.
No dia 2 de julho, o Ministério do Interior do Marrocos atribuiu o crescimento do fluxo migratório a informações imprecisas difundidas em plataformas sociais, à atuação de redes de tráfico de pessoas e a uma interpretação equivocada de um veredito judicial espanhol que proibia o retorno imediato de imigrantes interceptados em alto-mar.
Essa posição se alinhava com a perspectiva oficial apresentada pelo governo espanhol.
Investigações de inteligência sobre a situação na fronteira
De acordo com informações obtidas, que citaram autoridades cientes do tema, os serviços de inteligência da Espanha apontaram que o Marrocos não planejou a travessia em massa, mas sim permitiu que ela acontecesse.
Os mecanismos de controle fronteiriço do Marrocos foram flexibilizados de forma gradual no decorrer de julho e, conforme relatos, foram retirados enquanto grandes grupos de pessoas avançavam rumo à passagem de Tarajal, durante as celebrações do Dia do Trono marroquino.
O Ministério do Interior marroquino não se manifestou de imediato quando solicitado para comentar a situação.
Em seu pronunciamento do dia 2 de julho, a pasta ministerial reiterou que o Marrocos mantém seu “compromisso em fortalecer a cooperação e a coordenação internacional no combate à migração irregular e ao tráfico de pessoas”.
Fernando Grande-Marlaska, ministro do Interior da Espanha, relatou a jornalistas no dia 1 de julho que a agência de inteligência estrangeira CNI, vinculada ao Ministério da Defesa, não emitiu alertas sobre um crescimento iminente do fluxo.
No dia 3 de julho, foi noticiado que este fato resultou em atritos entre as duas pastas ministeriais envolvidas.







