Emily Wilson aprofunda críticas ao filme de Christopher Nolan: ‘emocionalmente vazio’
A renomada tradutora de “A Odisseia”, Emily Wilson, cuja versão de 2017 da epopeia influenciou o processo criativo de Christopher Nolan, intensificou recentemente suas objeções ao filme do diretor. Em um texto de opinião publicado no The Atlantic, Wilson classificou a obra de Nolan como “emocionalmente vazia”, reforçando comentários anteriores em que descreveu o roteiro como “abismal” em uma crítica para a London Review of Books.
Em seu artigo no The Atlantic, Wilson detalha que um dos pontos centrais de sua desaprovação reside na interpretação da “lei de Zeus” pelo filme de Christopher Nolan. Essa máxima, frequentemente citada pelos personagens, é uma variação da Regra de Ouro, que prega a acolhida gentil a mendigos e estrangeiros, pois podem ser divindades disfarçadas. Wilson aponta que a obra de Nolan retrata Odisseu (interpretado por Matt Damon) desrespeitando essa lei ao conceber e executar o ardil do Cavalo de Troia para saquear a cidade, uma abordagem com a qual a tradutora discorda.
Mais sobre o assunto: Apple revoluciona AirPods com tradução em tempo real no iOS 19
Segundo Wilson, a apresentação do Cavalo de Troia como a transgressão máxima da lei de Zeus é problemática, pois o considera uma arma de destruição disfarçada de presente que rompe com a “civilização”. Ela argumenta que o filme sugere que Odisseu, o herói, ecoa o comportamento dos vilões ao ser um hóspede enganoso e ingrato. Contudo, a especialista questiona como a “hospitalidade” se relaciona com uma situação em que os gregos já sitiavam Troia há uma década, cenário não explorado no filme de Nolan. Para ela, é ilógico focar no cavalo como o ponto crucial em vez da decisão original de Agamenon de invadir Troia ou da escolha de Odisseu de ceder às demandas do império. Wilson observa ainda que o espetáculo visual do cavalo em uma praia intocada confunde a narrativa, já que o local não demonstra sinais de habitação humana, apesar de supostamente ser onde os gregos acamparam por anos.

Para Wilson, a produção de Nolan não demonstra interesse nas complexidades sociais ou psicológicas do engano humano. Ela aponta uma clara dissonância entre o que o roteiro do diretor propõe e o que suas imagens mostram. Enquanto o texto “insiste grandiosamente na importância da bondade humana”, a câmera apresenta uma hierarquia de valores completamente distinta, focada, segundo ela, no “desafio mecânico de mover objetos pelo espaço”, sejam eles o Cavalo de Troia, embarcações ou outros elementos.
Saiba mais: WhatsApp testa tradução automática de chats com pacotes offline para 2025
Ela ilustra essa observação afirmando que o que importa cinematograficamente são os aspectos logísticos, como o movimento do cavalo colina acima e o ambiente claustrofóbico e alagado de seu interior. No início da emboscada, a câmera se detém repetidamente não nos personagens, mas nas estruturas em chamas e em colapso e nos imponentes portões da cidade, cujos mecanismos lentos são exibidos em detalhes. Wilson reitera que, apesar de o roteiro sugerir que as pessoas são importantes, a filmagem de Nolan prioriza a engenharia e o movimento de objetos no espaço.
A “Odisseia” de Nolan, em si, pode ser vista como uma espécie de Cavalo de Troia, continua Wilson. Ela argumenta que o roteiro enfatiza a importância da humanidade, mas a direção cinematográfica revela um conjunto de valores distintos. Em tempos de polarização e desinformação, a tradutora afirma que é preciso mais do que a “magia aparente” de imagens enganosas, demandando uma arte que seja sincera sobre os custos e a necessidade da compaixão. Ela conclui que essas lições, presentes em Homero e Virgílio, são omitidas no filme de Nolan, que ela descreve como visualmente deslumbrante, mas carente de profundidade emocional.
Wilson, que também leciona estudos clássicos na Universidade da Pensilvânia, havia inicialmente criticado a versão de Nolan por sua falta de “profundidade psicológica, emocional, política e ética”, afirmando que o filme “não tem nada de convincente a dizer”.
No mesmo tema: Dallas Jenkins revela como The Chosen alcança 280 milhões com temporada 5
Originalmente, Wilson destacou que o filme de Nolan não apresenta muitos dos elementos que tornam o poema original grandioso. Ela escreveu que o longa “não tem nada de convincente a dizer sobre o tempo, a memória, a história, a guerra ou sobre a relação entre o glorioso retorno de um guerreiro e a vida de sua família, adversários, camaradas, amigos e vizinhos”. A acadêmica apontou ainda que a obra “carece de profundidade psicológica, emocional, política e ética”, além de ter uma “estrutura narrativa artificial” e uma “escrita péssima”, sem que nenhum personagem apresente motivação convincente para suas ações ou palavras, e com poucas cenas de sexo ou comida apetitosa.
Apesar das severas críticas de Wilson, a recepção do público foi amplamente positiva. O filme obteve uma nota “A” no CinemaScore em seu fim de semana de lançamento e se consolidou como um dos maiores sucessos de bilheteria do ano. A produção arrecadou notáveis US$ 405 milhões nos Estados Unidos e um total de US$ 922 milhões globalmente em apenas três semanas de exibição.
As avaliações negativas de Wilson também geraram uma reação da escritora Joyce Carol Oates, que a censurou publicamente por seus comentários sobre o filme de Nolan.
Oates escreveu que, em vez de expressar discordâncias sobre as interpretações de Homero de maneira respeitosa, Wilson, que teria se beneficiado significativamente da projeção do filme de Nolan, usou uma linguagem “grosseira”. A autora argumentou que se esperaria de uma tradutora, alguém comprometida com o texto e a serviço dele, uma postura mais atenciosa e respeitosa com aqueles que agem de boa-fé.

















