Nova opção: cofrinhos digitais rendem mais que a poupança; veja o que cada banco oferece
O dinheiro da caderneta de poupança está migrando para outras formas de investimento. Segundo dados do Banco Central (BC), os saques superaram os depósitos em R$ 39,3 bilhões no primeiro semestre de 2026. Em meio a essa movimentação, os cofrinhos ou caixinhas oferecidos por aplicativos de bancos e carteiras digitais ganham força, prometendo retornos mais vantajosos para os correntistas.
Entretanto, as “caixinhas” se apresentam como um nome genérico. Na prática, por trás dessa denominação amigável, existem produtos financeiros com características e proteções distintas, exigindo atenção do consumidor.
Geralmente, o capital alocado nesses “cofrinhos” é direcionado para Certificados de Depósito Bancário (CDB) ou Recibos de Depósito Bancário (RDB) da própria instituição. Esses títulos funcionam como empréstimos do cliente ao banco, que paga juros em troca, e contam com a garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), assegurando até R$ 250 mil por CPF em caso de falência da instituição.
A rentabilidade anunciada frequentemente parte de 100% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), um índice que acompanha a taxa básica de juros da economia. Contudo, algumas versões “turbinadas” dos cofrinhos podem oferecer rendimentos ainda maiores, com limites de valor e condições específicas.
O motivo da criação dos cofrinhos pelos bancos
A proliferação dessas ofertas não é meramente uma coincidência, mas uma estratégia bancária. Danilo Jusan, reitor do Ibmec-RJ e especialista em Finanças, explica que o dinheiro parado nas contas correntes dos clientes gera pouco lucro para os bancos. Uma parte desse valor fica retida no recolhimento compulsório e tem uso restrito. Ao converter esse saldo em uma aplicação financeira, a instituição adquire maior liberdade para emprestar o dinheiro e aumentar seus ganhos com o spread, a diferença entre o que paga e o que cobra de juros.
Jusan afirma que “o banco cria mecanismos que transformam o dinheiro que está parado em um dinheiro que está sendo remunerado”. Ele acrescenta que isso “ajuda o investidor, sem dúvida, mas, para o banco, também tem a perspectiva de gerar um retorno maior com as operações que ele passa a fazer com esse recurso”.
O especialista ainda ressalta que não existe uma regulamentação específica do Banco Central para os cofrinhos. Cada instituição financeira tem autonomia para decidir onde aplicar os recursos, o que resulta em variações na proteção oferecida, mesmo quando o produto recebe o mesmo nome no aplicativo.
Aplicações planejadas para objetivos futuros
Reinaldo Domingos, presidente da Associação Brasileira dos Profissionais de Educação Financeira (Abefin) e da DSOP Educação Financeira, esclarece que, ao contrário da poupança, que é uma modalidade de investimento única e tradicional, as caixinhas atuam como uma ferramenta versátil capaz de abrigar diferentes tipos de aplicações.
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Ele detalha que “os cofrinhos são ferramentas que ajudam as pessoas a separar recursos para sonhos específicos”. Domingos descreve que eles “funcionam como compartimentos dentro da conta, nos quais o dinheiro pode permanecer apenas reservado ou ser aplicado automaticamente em produtos financeiros, como CDBs, RDBs ou fundos de investimento”.
Para Domingos, o uso ideal dos cofrinhos é para a acumulação de recursos destinados a metas de médio e longo prazo.
Entre os exemplos citados estão “a viagem da família, a faculdade dos filhos, a compra de um imóvel, uma reforma ou outro sonho que seja relevante”.
Ele, no entanto, adverte que a maior rentabilidade nem sempre deve ser o único critério de escolha. “Uma família precisa de um investimento com liquidez diária porque o dinheiro faz parte de uma reserva para situações inesperadas. Em outros casos, um prazo maior pode fazer sentido porque o sonho será realizado daqui a anos. A escolha deve considerar a realidade de cada família e não apenas o rendimento anunciado.”
Dividir o dinheiro em várias caixinhas vale a pena?
Uma questão recorrente é a eficácia de fragmentar o dinheiro em diversas caixinhas, cada uma para um objetivo distinto. Gleiner Vinicius Costa, professor da PUC-Rio e especialista em educação financeira, explica que essa prática tem fundamentos no estudo do comportamento humano. Ele menciona o conceito de contabilidade mental do economista Richard Thaler, ganhador do Prêmio Nobel, que demonstra como o cérebro tende a não tratar todo o dinheiro de forma igualitária. Um valor identificado como “viagem de dezembro”, por exemplo, é mais difícil de ser gasto impulsivamente do que um montante sem propósito definido na conta. A atribuição de um rótulo cria uma barreira que salvaguarda a meta.
Contudo, o professor faz uma importante ressalva: ter múltiplas caixinhas dentro de um mesmo banco não equivale a diversificação.
Gleiner compara a situação a “guardar dinheiro em dez envelopes dentro da mesma gaveta: está organizado, mas continua tudo na mesma gaveta. Dez caixinhas no mesmo aplicativo são dez etiquetas coladas em um único investimento, do mesmo banco”.
Na prática, o professor sugere que um total de três a cinco caixinhas é suficiente: uma para emergências, outra para um objetivo de curto prazo e uma terceira para médio prazo. Exceder esse número pode resultar em valores muito pequenos, comprometendo a força do rendimento.

Aspectos cruciais no prazo de resgate
Existem particularidades que podem transformar a rentabilidade esperada em perda financeira. Um desses pontos é o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que incide sobre resgates realizados antes de 30 dias da aplicação inicial. Quanto mais cedo o saque, maior a alíquota. Segundo Gleiner Vinicius Costa, esse imposto pode consumir 96% do rendimento se o resgate ocorrer no primeiro dia e diminui progressivamente até zerar no trigésimo dia. Caso o saque seja feito no quinto dia, por exemplo, o IOF leva 83% do rendimento.
Gleiner Costa enfatiza: “É o mesmo valor no mesmo lugar. Mudou só o tempo. Por isso, a dica que eu mais repito é: deixe o dinheiro ‘dormir’ um mês”.
Além do IOF, há também a incidência de Imposto de Renda (IR) sobre os rendimentos, que segue a tabela regressiva. Ou seja, quanto mais tempo o dinheiro permanece investido, menor será a alíquota cobrada. A advogada e educadora financeira Aline Soaper elenca os pontos que o cliente deve verificar antes de aplicar seus recursos:
Soaper aconselha que “o cliente precisa observar qual o rendimento oferecido, pois precisa ser acima de 100% do CDI”. Ela também indica que “deve observar ainda se tem regras para saque antes de algum prazo estabelecido. Além disso, deve checar se a oferta tem informações sobre regras para manter o tempo mínimo investido. Algumas opções pagam mais se o dinheiro ficar na caixinha por mais tempo”.
A reserva de emergência pode ser guardada no cofrinho?
Gleiner Vinicius Costa considera que utilizar os cofrinhos como reserva de emergência é uma estratégia válida, mas requer cautela. O primeiro fator a ser observado é a liquidez, ou seja, a rapidez com que o dinheiro retorna para a conta do usuário. É fundamental verificar se o resgate pode ser efetuado no mesmo dia e a qualquer momento, visto que alguns aplicativos processam as operações apenas em horário comercial. O segundo ponto é evitar concentrar toda a reserva de emergência em um banco de menor porte, mesmo que ele ofereça uma rentabilidade superior.
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O professor explica que “o FGC funciona, mas leva um tempo para devolver o dinheiro. E emergência, por definição, não espera”.
Detalhes das ofertas de cofrinhos em alguns bancos
As informações fornecidas por seis instituições financeiras confirmam a diversidade de produtos por trás dos cofrinhos e caixinhas digitais.
Diferenças do Cofrinho BB do Banco do Brasil
O Cofrinho BB, do Banco do Brasil, distingue-se por não ser um CDB. Os recursos são investidos em um fundo de renda fixa simples, que visa acompanhar a taxa Selic e oferece liquidez diária. Por se tratar de um fundo, não há cobertura do FGC, e a tributação obedece às regras dos fundos de renda fixa de curto prazo. A aplicação inicial pode ser de apenas R$ 0,01 (um centavo), sem exigências de adesão a programas ou de movimentação mínima mensal. Aportes e resgates podem ser realizados a qualquer dia e horário pelo aplicativo. O produto permite a criação de metas, a programação de aportes e até o recebimento de contribuições de outras pessoas e de qualquer banco, através da função Chega Junto, que utiliza uma chave Pix interna e exclusiva para cada solicitação.
Características dos cofrinhos do Itaú
Os cofrinhos do Itaú são estruturados como um CDB DI emitido pelo próprio banco, proporcionando rendimento em todos os dias úteis e 100% do CDI para todos os clientes. O aporte mínimo é de R$ 1, e há a garantia do FGC de até R$ 250 mil por CPF. Incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF nos primeiros 30 dias. O resgate é creditado na conta de forma imediata, com uma única exceção: valores recém-guardados. Se o depósito foi feito até as 20h de um dia útil, o valor fica disponível para resgate a partir do dia útil seguinte; se o depósito ocorreu após as 20h, em um fim de semana ou feriado, o prazo para liberação pode se estender por até dois dias úteis.
Opções de caixinhas digitais do Nubank
As caixinhas do Nubank são compostas por RDBs emitidos pela própria instituição. Na modalidade com liquidez imediata, o rendimento é de 100% do CDI, com crédito instantâneo na conta no momento do resgate. A Caixinha Turbo oferece até 115% do CDI para clientes Roxinho que movimentarem ao menos R$ 900 na conta a cada ciclo de 31 dias, e pode chegar a 120% para clientes NuCel, Nubank Croma e Nubank Ultravioleta. Existem ainda os RDBs planejados, com prazos de três meses a dois anos e rendimento de até 104% do CDI. Não há valor mínimo para iniciar nem taxas de administração ou manutenção. Todas as opções possuem a cobertura do FGC de até R$ 250 mil por CPF, e incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF em resgates feitos em até 30 dias.
Investimentos por Objetivo do C6 Bank
O C6 Bank oferece o Investimento por Objetivo, disponível na C6 Yellow, uma conta desenvolvida para crianças e adolescentes de até 18 anos e que é vinculada à conta dos pais. Essa ferramenta permite a criação de até três metas e aplica o dinheiro em um CDB de liquidez diária, que rende 102% do CDI, com aporte inicial a partir de R$ 10. Os responsáveis são notificados sobre os aportes e resgates. Para adultos, existem outras opções com características similares, mas com denominações diferentes. Há cobertura do FGC de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, e incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF antes de 30 dias. O banco informa que as taxas podem sofrer variações ao longo da semana e que clientes com assessoria de investimentos podem ter uma rentabilidade superior.
Detalhes do cofrinho do PagBank
No cofrinho do PagBank, os valores são automaticamente aplicados em um CDB de renda fixa com liquidez diária. O Cofrinho Turbinado pode oferecer um rendimento de até 130% do CDI, mas essa taxa é válida apenas para saldos de até R$ 10 mil e está condicionada ao cumprimento de um prazo mínimo de permanência. Valores que ultrapassam esse limite rendem 100% do CDI, também com exigência de prazo mínimo. O valor inicial para aplicação é de R$ 1, e o dinheiro investido também pode ser utilizado como limite do cartão de crédito. Há cobertura do FGC e não são cobradas taxas de administração ou manutenção, mas incidem Imposto de Renda sobre os rendimentos e IOF em resgates realizados em menos de 30 dias. Os pedidos de resgate podem ser feitos entre 9h e 21h; fora desse horário, o agendamento é para o próximo dia útil.
O Porquinho do Inter e suas condições
O Porquinho do Inter também é um CDB, com a segurança da cobertura do FGC. Nas versões destinadas a objetivos específicos, tanto para pessoas físicas quanto jurídicas, o rendimento é de 100% do CDI. O valor mínimo para investimento é de R$ 1, e incidem Imposto de Renda pela tabela regressiva e IOF em resgates efetuados antes de 30 dias. O resgate é creditado na conta imediatamente, porém, fica indisponível no período das 21h55 à 1h.
















