Eclipse solar vira laboratório para estudos sobre fauna, flora e o Sol
Ocorrências de eclipses solares totais são momentos historicamente valiosos para a comunidade científica, proporcionando chances únicas de progresso em múltiplas áreas de pesquisa. Um exemplo marcante disso foi a observação feita pelo astrônomo britânico Arthur Eddington em 1919, que utilizou o fenômeno na costa da África Ocidental para validar a teoria da relatividade de Albert Einstein.
Essa dinâmica se repetiu hoje, quando o evento astronômico singular cobriu regiões do Hemisfério Norte, abrangendo desde o norte da Rússia até a Espanha e Portugal. Por meses, especialistas de campos como a biologia e a astrofísica dedicaram-se a preparativos intensivos, buscando coletar informações cruciais durante os breves instantes de escuridão.
Na Espanha, enquanto muitos observadores dirigiam sua atenção para o firmamento, uma equipe de cientistas focava em outra direção. O objetivo era investigar a maneira como a flora e a fauna local reagem à passagem do eclipse.
Essa área de estudo permanece com poucas investigações, havendo um conhecimento limitado sobre os efeitos de uma escuridão abrupta e momentânea nesses organismos. As raras pesquisas anteriores sugerem que plantas e animais respondem aos estímulos presentes durante o fenômeno.
Airam Rodríguez, pesquisador do Museu Nacional de Ciências Naturais da Espanha, detalha que “os impactos em cada espécie variam conforme o nível cognitivo do indivíduo”. Ele cita reações que vão desde o susto e a busca por refúgio até comportamentos como o de chimpanzés, que podem apontar para o pôr do sol, ou a movimentação para áreas de descanso.
Rodríguez é um dos fundadores do EcoEclipse, uma iniciativa inovadora na Europa voltada para esse campo de pesquisa. O trabalho de sua equipe inclui a gravação de sons do ambiente dois dias antes, durante o eclipse e nos dois dias posteriores, permitindo comparações sobre o comportamento das espécies em diferentes períodos.
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Ele acrescenta que “os dados sobre as reações serão disponibilizados em formato bruto”, com o intuito de permitir que outros cientistas, futuramente, analisem as alterações no ruído ambiental, e não apenas os sons originados por animais.
Embora diversas espécies tenham suas reações registradas, o projeto prioriza atualmente as aves, que possuem ciclos diários e sazonais fortemente influenciados pela transição entre luz e sombra, e os morcegos. “Nosso conhecimento sobre morcegos é ainda mais escasso, e a vantagem deste eclipse é que, por ocorrer ao entardecer, seus efeitos podem ser amplificados nesses animais”, explicou o especialista.
Em 2024, durante um eclipse solar total nos Estados Unidos, cientistas já haviam monitorado o canto de pássaros. Naquela ocasião, foi lançado um aplicativo móvel que incentivou a participação popular na coleta de dados.
Esse esforço revelou 52 espécies de aves, das quais 29 exibiram alterações notáveis em sua vocalização. Essas mudanças variaram desde o silêncio completo ou o início do canto, até um “falso coro do amanhecer” no momento em que a luz solar retornou.
Uma das análises mais abrangentes já divulgadas foi conduzida em um zoológico dos Estados Unidos em 2017, durante outro eclipse. Nos dois minutos e meio de escuridão completa, foram observadas as respostas de diversos animais, incluindo primatas, elefantes, ursos-pardos, focas, flamingos, papagaios, cacatuas e tartarugas.
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O resultado surpreendeu os pesquisadores: 76% das 17 espécies analisadas apresentaram algum tipo de reação. Alguns animais iniciaram atividades características da noite, outros manifestaram ansiedade, e alguns exibiram comportamentos inéditos.
Por outro lado, as reações das plantas são amplamente desconhecidas, mesmo com algumas investigações prévias que tentaram registrar os efeitos dos eclipses sobre elas.
Em 2022, uma observação durante um eclipse parcial no norte da Itália indicou que as árvores podiam antecipar o fenômeno. Elas teriam sincronizado, com horas de antecedência, seu comportamento bioelétrico, que são sinais internos que controlam funções vitais como a fotossíntese e os mecanismos de defesa.
Entretanto, estudos subsequentes apontaram que não se conseguiu comprovar uma conexão direta entre os eclipses e os sinais bioelétricos emitidos pelas plantas.
A bióloga e escritora Aina S. Erice comenta que “talvez existam plantas que reajam claramente aos eclipses, mas ainda não as estudamos”. Ela reforça que, com mais de 300 mil espécies vegetais catalogadas, essa possibilidade não pode ser descartada.
Simultaneamente, na Itália, cientistas dedicaram semanas a um laboratório para aprimorar um novo equipamento. Este instrumento tem o potencial de revolucionar a análise da coroa solar, a região mais externa da atmosfera do Sol.
Durante o eclipse, o Espectrômetro de Fenda Circular (CISS) foi submetido a um teste crucial no Observatório Astrofísico de Javalambre, na Espanha. Os desenvolvedores visam demonstrar que o aparelho consegue fragmentar a luz solar em seus componentes de onda de maneira significativamente mais ágil do que as tecnologias atuais.
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O fenômeno do eclipse propicia condições ideais para que a coroa solar se torne mais perceptível. Isso facilita estudos sobre essa área próxima ao Sol, cujo comportamento pode ter grandes implicações para as redes de comunicação e os sistemas de energia elétrica na Terra.
Federico Landini, pesquisador principal do Observatório Astrofísico de Turim, explicou que, diferentemente dos espectrômetros lineares tradicionais, o novo protótipo “conta com uma fenda circular, possibilitando o registro do espectro de toda a coroa a uma distância específica do centro do Sol em apenas uma imagem”.

O último espectrômetro ultravioleta de grande porte, o UVCS, foi utilizado na sonda SOHO, uma colaboração entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a Nasa, entre os anos de 1996 e 2013. Contudo, ele demandava muitas horas para conseguir mapear completamente a coroa solar.
Caso os cientistas demonstrem a eficácia desse novo princípio óptico, o passo seguinte será sua possível incorporação em uma futura missão espacial. Essa missão terá como foco a observação detalhada da atmosfera externa do Sol.
Paralelamente, pesquisadores da Comissão Francesa de Energia Atômica (CEA) aproveitaram o eclipse como uma chance para investigar o campo magnético do Sol, sua atmosfera e os eventos intensos que ocasionalmente resultam em interrupções na Terra.
O Sol emite continuamente matéria e partículas carregadas, por vezes gerando severas tempestades solares que projetam grandes explosões de plasma e outros elementos para o espaço.
Quando esse material alcança a magnetosfera terrestre, pode causar falhas em satélites, expor astronautas a perigos e criar auroras boreais e austrais brilhantes em regiões de altas latitudes.
Allan Sacha Brun, astrofísico da CEA, explicou que “nosso esforço visa a compreensão dos mecanismos físicos por trás da atividade solar”. Ele adiciona que isso implica “situar o Sol em seu devido contexto na linha do tempo de sua evolução, desde seu surgimento até seu fim”.
Enquanto isso, cientistas da Agência Espacial Europeia (ESA) examinaram o eclipse com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre os ventos solares. Carole Mundell, diretora de ciência da agência, levantou questões como: “Por que as tempestades solares se dispersam de uma determinada maneira? Qual é a sua configuração? E é viável criar modelos que permitam sua previsão?”.
A sonda Solar Orbiter, da ESA, em órbita desde 2020, tem coletado dados importantes sobre a atmosfera e os ventos solares. Miho Janvier, coinvestigadora principal da missão, comentou que os eclipses servem como uma chance para “avaliar a precisão de nossos modelos, sejam eles bons ou não”.
Outra iniciativa da ESA, a missão Proba-3, emprega atualmente três espaçonaves que voam em formação precisa, com o propósito de gerar seus próprios eclipses solares artificiais em menor escala.

















