Colaboração humano-IA supera desempenho isolado e exige atualização constante, revela pesquisadorPor Luís Pereira
4 min de leitura
![]() |
A interação entre seres humanos e sistemas de inteligência artificial (IA) alcança resultados superiores quando atua em um modelo híbrido, superando a performance de cada um de forma isolada. Essa foi a principal conclusão de uma palestra proferida pelo Professor Doutor André Fonseca, da COPPEAD/UFRJ, realizada no Observatório Nacional (ON/MCTI) em 13 de agosto de 2026. O evento marcou a abertura de uma nova série de capacitações destinadas a modernizar a instituição e preparar seus colaboradores para os avanços tecnológicos.
A iniciativa, que integra a Estratégia ON+10, visa equipar o órgão para os desafios futuros da tecnologia. O Dr. Fonseca destacou que a inteligência artificial está evoluindo rapidamente, deixando de ser meramente uma ferramenta para se consolidar como uma extensão do discernimento humano, um cenário que redefine a dinâmica de trabalho e pesquisa.

A fronteira irregular da eficácia da inteligência artificial
Durante sua apresentação no Auditório Yeda Ferraz, o Dr. André Fonseca introduziu o conceito de “fronteira serrilhada” (jagged frontier) para descrever a natureza da eficácia da IA. Ele explicou que a produtividade da inteligência artificial não é uniforme; ela se mostra extremamente eficiente em algumas atividades, mas surpreendentemente ineficaz em outras que, à primeira vista, podem parecer semelhantes. Essa variabilidade exige uma compreensão matizada de suas aplicações.
O pesquisador enfatizou a importância da colaboração entre humanos e máquinas. Segundo dados apresentados, o modelo de trabalho híbrido demonstra resultados notavelmente superiores, superando tanto o desempenho exclusivo de um ser humano quanto o da própria inteligência artificial operando autonomamente. “Felizmente, e aqui cabe um ‘ufa’, nós ainda mantemos um papel fundamental e essencial nesse processo”, afirmou Fonseca, reforçando a relevância contínua da participação humana.
A dinâmica da evolução tecnológica e cultural
A velocidade das transformações tecnológicas impõe a necessidade de constante reavaliação sobre a percepção da IA. O Dr. André alertou que qualquer afirmação sobre as capacidades dessas ferramentas deve ser datada para manter sua precisão. Ele sugeriu uma prática simples: “Toda vez que realizarmos uma afirmação sobre as capacidades da Inteligência Artificial, é muito útil colocar uma vírgula ao final e acrescentar a palavra ‘hoje’. Afinal, estamos tratando de um alvo em constante movimento, de uma evolução que é contínua e acelerada.”
Essa evolução é palpável na qualidade dos conteúdos gerados por IA. Desde 2023, a distinção entre textos produzidos por humanos e por inteligências artificiais tornou-se progressivamente mais difícil. O professor também abordou a resistência cultural que acompanha a adoção de novas tecnologias, traçando um paralelo com a transição das réguas de cálculo para as calculadoras eletrônicas, que, com o tempo, foram plenamente aceitas pela comunidade científica. Ele ilustrou a justificativa para o uso intensivo de tecnologia com um exemplo prático:
- Em um diagnóstico médico durante um plantão de madrugada, especialmente por um profissional menos experiente, a disponibilidade de todos os recursos tecnológicos é crucial.
- O julgamento sobre o valor da ação tecnológica se altera drasticamente dependendo da complexidade e das condições da tarefa.
- A tecnologia deve ser vista como um suporte essencial para otimizar a tomada de decisões em situações críticas.
Preparando o futuro e mitigando riscos institucionais
A modernização institucional é um pilar da estratégia do Observatório Nacional. O Dr. Diogo Pereira, Coordenador de Administração do ON, ressaltou a vitalidade de iniciativas como esta para o “ON do Futuro”. O objetivo é fomentar uma cultura de inovação, onde novas ideias e boas práticas sejam integradas ao dia a dia da instituição. Isso potencializa o desenvolvimento de competências necessárias para enfrentar temas emergentes no cenário tecnológico.
No entanto, a palestra também trouxe à tona os riscos inerentes à adoção da IA. Foram discutidos perigos como as “alucinações de dados” — onde a IA gera informações incorretas ou inventadas — e o viés algorítmico, que pode perpetuar ou amplificar preconceitos presentes nos dados de treinamento. O evento culminou em uma reflexão provocativa para o público sobre quais aspectos do trabalho devem permanecer intrinsecamente humanos em um ambiente cada vez mais permeado pela colaboração híbrida entre pessoas e inteligência artificial.







