O aquecimento intenso das águas do Pacífico, conhecido como “Super El Niño” de 2026, mobiliza agricultores e gestores urbanos no Brasil, que se preocupam com secas, enchentes e deslizamentos. Contudo, esses eventos são apenas o início de uma extensa lista de preocupações, conforme explica o cientista Lincoln Alves, um dos principais especialistas do país na conexão entre o clima global e fenômenos locais, em entrevista concedida em 28 de agosto de 2026.
De acordo com Alves, que é licenciado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e assumiu a coordenadoria-geral do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente (MMA) no ano anterior, um El Niño de alta intensidade transcende os problemas meteorológicos e agrícolas. Ele pode desencadear uma série de impactos que afetam as esferas social, econômica, ambiental e de saúde.
Como o Super El Niño de 2026 pode alterar os padrões climáticos no Brasil?
De maneira geral, a expectativa é que o El Niño de 2026 siga um padrão similar aos clássicos, mas com uma distinção importante: o comportamento climático não será um mapa fixo. No Brasil, a tendência mais constante aponta para a diminuição das chuvas em certas áreas da Amazônia e do Nordeste, enquanto o Sul deve registrar um aumento. Já no Sudeste e em parte do Centro-Oeste, a relação é menos direta e apresenta grande variação entre diferentes eventos e ao longo das estações, porque o El Niño é uma influência relevante, mas não é a única. O Atlântico Tropical, a posição das frentes frias e a circulação sobre a América do Sul também podem intensificar, atenuar ou deslocar seus efeitos.
Tipos de eventos extremos que podem ser intensificados pelo fenômeno
No Centro do Brasil, nas regiões Norte e em trechos do Nordeste, as principais apreensões são as ondas de calor, longos períodos de baixa umidade, secas, diminuição da vazão dos rios e um aumento nas condições propícias a incêndios florestais. No Sul, o panorama é quase oposto: há riscos de episódios repetidos de chuvas torrenciais, cheias, enxurradas, deslizamentos de terra e tempestades severas. Os efeitos indiretos também abrangem o abastecimento de água, a geração de energia, a navegação, a agricultura e a saúde pública. O especialista reforça a necessidade de sempre utilizar a expressão “aumenta a probabilidade”, pois o El Niño não é o único causador de cada tempestade, incêndio ou onda de calor, mas sim um fator que altera o cenário em que esses eventos ocorrem.
Cronograma de intensificação e primeiros sinais do El Niño no país
O El Niño já está em curso e seus sinais iniciais já se manifestam no sistema climático. Em julho, a NOAA (agência climática dos Estados Unidos) reportou um índice semanal de acréscimo de cerca de 1,2°C, indicando que o fenômeno continuaria a se intensificar ao longo de 2026. A projeção atual prevê que o fortalecimento se estenda até a primavera e o início do verão, com o pico esperado entre outubro e dezembro de 2026, e a persistência do fenômeno no começo de 2027.
A intensidade do El Niño de 2026 e por que ele é considerado ‘muito forte’
A terminologia “Super El Niño” não é uma classificação oficial do fenômeno, que é tecnicamente categorizado como fraco, moderado, forte ou muito forte. O que mudou em julho foi um aumento significativo na possibilidade de um evento excepcional. A previsão oficial divulgada pela NOAA indicou 81% de probabilidade de o El Niño alcançar a categoria “muito forte” entre outubro e dezembro, o que o posicionaria entre os eventos de maior magnitude registrados na história.
## A relação entre o El Niño e o cenário de aquecimento global
É crucial diferenciar a classificação da intensidade do El Niño, que se baseia primariamente no comportamento do Pacífico tropical, dos seus impactos. A mudança climática não entra na definição de um El Niño “forte” ou “muito forte”, mas se torna essencial ao analisar as consequências. O El Niño de 2026 acontece em um planeta consideravelmente mais quente do que em eventos anteriores, de décadas passadas. Isso significa que as ondas de calor partem de temperaturas-base mais elevadas, a evaporação pode ser mais intensa e a vegetação pode secar com maior rapidez. Simultaneamente, uma atmosfera mais quente consegue reter mais vapor de água, o que pode propiciar chuvas mais intensas quando as condições meteorológicas são favoráveis.
## Ações urgentes de preparação governamental para os efeitos do El Niño
É preciso distinguir a preparação operacional de grandes projetos de infraestrutura. Não é realista esperar que cidades construam novos sistemas de macrodrenagem ou resolvam suas áreas de risco até outubro. Contudo, uma vasta gama de ações pode ser implementada para mitigar significativamente os impactos. Este é o momento de revisar planos de contingência, verificar sistemas de drenagem e bombeamento, inspecionar encostas, limpar canais, atualizar rotas de evacuação e abrigos, além de avaliar reservatórios. Ainda há tempo para fortalecer equipes de Defesa Civil e saúde, organizar brigadas de incêndio e garantir a comunicação rápida com a população. Estados e a União devem colaborar com os municípios, já que muitos não possuem estrutura técnica e financeira suficientes para lidar com a situação sozinhos.
## Outras áreas de atenção além da agricultura e riscos urbanos
Diversas outras preocupações surgem, com a segurança hídrica e os incêndios florestais em destaque. Uma estiagem prolongada pode afetar rios, reservatórios, comunidades ribeirinhas, o abastecimento urbano, a navegação e a geração de energia. A saúde também é um ponto frequentemente subestimado; as ondas de calor aumentam a vulnerabilidade de idosos, crianças e trabalhadores ao ar livre. Incêndios geram fumaça e deterioram a qualidade do ar, mesmo a centenas de quilômetros das áreas atingidas. Além disso, a infraestrutura de energia, telecomunicações, estradas e pontes também está sob risco. Um El Niño muito forte não se limita a um problema meteorológico ou agrícola, mas sim a uma cadeia de impactos sociais, econômicos, ambientais e de saúde.
## Conexão do El Niño com eventos climáticos específicos, como o vendaval no Rio
É necessário cautela ao estabelecer uma ligação direta entre o El Niño e eventos pontuais, como o forte vendaval que atingiu o Rio de Janeiro em julho. A causa imediata daquela ventania foi um sistema meteorológico associado à passagem de uma frente fria e à circulação atmosférica em escala regional, e não a atuação direta do El Niño sobre Rio e São Paulo. O El Niño pode, sim, modificar o ambiente de grande escala e alterar a frequência ou a trajetória de determinados sistemas meteorológicos. Entretanto, para afirmar que um evento específico “foi causado pelo El Niño”, seria preciso uma análise detalhada da circulação naquele episódio e, se for o caso, um estudo de atribuição das mudanças climáticas.
## Desafios na previsão dos impactos do El Niño na região Sudeste do Brasil
De fato, o Sudeste é a região do Brasil onde a previsão dos impactos do El Niño apresenta maior complexidade. A área se localiza praticamente em uma zona de transição entre sinais climáticos mais definidos: a tendência de aumento das chuvas ao sul e a de redução mais ao norte. Além disso, o clima do Sudeste depende fortemente do Atlântico, da chegada de frentes frias e das condições de umidade do continente. Em certas épocas do ano, esses fatores podem ter uma importância igual ou até maior que o El Niño. Por isso, é arriscado simplificar que “El Niño significa mais chuva no Sudeste”, já que São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro podem apresentar respostas climáticas bastante distintas entre si.
## O papel do Plano Clima Adaptação na mitigação dos riscos do El Niño
O Plano Clima Adaptação desempenha um papel fundamental ao transformar a resposta pontual a um El Niño em uma política contínua de gestão de risco climático. Essa abordagem é vital, pois, mesmo com o término do El Niño, muitos dos riscos persistem e tendem a se intensificar com as mudanças climáticas. Uma cidade não deveria preparar seu sistema de drenagem apenas quando surge a previsão de um El Niño. Da mesma forma, setores como agricultura, saúde e recursos hídricos precisam incorporar o risco climático de forma permanente em seu planejamento. Um evento forte em 2026 pode servir como um teste de estresse para a adaptação brasileira, revelando onde o país tem boa capacidade de antecipação e onde ainda existem lacunas.
## Culturas agrícolas que exigem atenção redobrada durante o fenômeno
Para os próximos meses, é necessário dedicar atenção especial às pastagens, culturas perenes e à agricultura familiar na região Norte, onde a combinação de chuvas abaixo da média e calor pode reduzir a umidade do solo. No Nordeste, a preocupação se volta para os cultivos em desenvolvimento e a disponibilidade de água para a pecuária. No Centro-Oeste, temperaturas elevadas e o déficit hídrico no final da estação seca demandam cuidado com as pastagens. No Sudeste, o café merece um acompanhamento específico. Já no Sul, as culturas de inverno podem inicialmente se beneficiar da chuva, mas o excesso de umidade aumenta o risco de doenças fúngicas e pode dificultar as operações no campo. Com a aproximação da safra de verão, será crucial monitorar continuamente o cultivo de soja, milho e arroz, especialmente se as chuvas se tornarem muito persistentes.
## Identificação das zonas urbanas mais vulneráveis aos efeitos do El Niño
Mais do que listar cidades específicas, é crucial focar em tipos de territórios prioritários. As ocupações em encostas suscetíveis a deslizamentos, as áreas baixas e planícies de inundação, as margens de rios, córregos e canais, além dos bairros com drenagem insuficiente e os trechos urbanos com alta impermeabilização, são consideradas as zonas de maior risco. No Sul, onde a expectativa de chuva acima da média é mais constante, o acompanhamento deve ser particularmente minucioso. No entanto, o Sudeste também não pode negligenciar a vigilância. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, juntamente com suas áreas litorâneas, possuem uma grande concentração populacional e infraestrutura exposta a enxurradas, alagamentos e movimentos de massa sempre que ocorrem episódios de chuva intensa.
Existe um segundo mapa de risco que não pode ser esquecido: o do calor. Bairros altamente impermeabilizados, com pouca arborização e população socialmente vulnerável tendem a sofrer mais durante ondas de calor, mesmo que não estejam localizados em áreas tradicionalmente sujeitas a inundações ou deslizamentos.
## Novas abordagens do IPCC sobre a interação entre El Niño e mudanças climáticas
Ainda é prematuro determinar o consenso do próximo relatório do IPCC, o painel de cientistas do clima da ONU, já que a análise da literatura disponível começou recentemente. Contudo, alguns temas provavelmente terão destaque. Um deles é aprofundar a compreensão de como os impactos do El Niño se alteram em um planeta mais quente, indo além da simples variação da temperatura do Pacífico durante o fenômeno. Para a América do Sul, a expectativa é de uma análise mais aprofundada sobre eventos compostos, como o El Niño combinado com ondas de calor, seca e incêndios na Amazônia, ou o El Niño associado a uma atmosfera mais quente e episódios de chuva extrema no sudeste do continente. Será importante também compreender melhor a interação entre o Pacífico e o Atlântico, um fator crucial para explicar a grande variação dos impactos dentro do continente.
## Impacto das mudanças climáticas na frequência dos eventos de El Niño
Há uma resposta a essa questão, mas que exige cautela. Ainda não é possível afirmar que as mudanças climáticas simplesmente aumentarão a frequência geral dos El Niños. O sistema climático possui uma variabilidade natural muito significativa, e o registro instrumental é relativamente curto para separar com precisão essa variabilidade do efeito do aquecimento causado pelas atividades humanas. O último relatório de avaliação do IPCC concluiu que não há consenso entre os modelos sobre uma mudança sistemática na amplitude da temperatura do Pacífico ligada ao El Niño e à La Niña. Também não foram encontradas, nas observações, uma tendência de longo prazo suficientemente clara para afirmar que todos os tipos de El Niño estão se tornando mais frequentes.
A evidência se torna mais robusta quando se trata de eventos extremos e seus impactos. Estudos indicam um aumento na frequência dos El Niños extremos em um clima mais quente, embora ainda existam incertezas. A conclusão mais firme é que, mesmo que a frequência total dos El Niños não varie muito, a variabilidade das chuvas a eles associadas tende a ser maior. Assim, a pergunta mais relevante para a sociedade pode não ser apenas “teremos mais El Niños?”, mas sim “quando um El Niño ocorrer, seus impactos extremos poderão ser maiores?”. Para essa segunda pergunta, a ciência já oferece razões muito mais fortes para preocupação.
