Falece em Nova York a pioneira do feminismo Gloria Steinem aos 92 anos

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Gloria Steinem - Instagram Foto: Gloria Steinem - Instagram

A cidade de Nova York se despediu de uma das figuras mais emblemáticas da luta por igualdade de gênero na história contemporânea dos Estados Unidos. Gloria Steinem, jornalista e ativista que moldou o movimento de libertação das mulheres, morreu pacificamente em sua residência no dia 24 de junho de 2024. Aos 92 anos, a escritora estava acompanhada por familiares e amigos próximos em seus momentos finais, encerrando uma trajetória de décadas dedicadas à transformação social.

A confirmação oficial do falecimento ocorreu por meio de um comunicado emitido por sua própria fundação. Utilizando uma publicação na rede social Instagram, a organização detalhou que a partida aconteceu de forma serena, no conforto de seu lar. A notícia gerou imediata comoção internacional, mobilizando homenagens de líderes políticos, organizações de direitos humanos e admiradores que acompanharam sua longa jornada pública.

Reconhecida globalmente como um ícone da chamada segunda onda do feminismo, ela não limitou sua atuação aos discursos em palanques. A ativista foi cofundadora da Women’s Action Alliance, uma organização pioneira estabelecida há mais de cinquenta anos com o objetivo central de combater o sexismo sistêmico e fornecer apoio prático para mulheres em situação de vulnerabilidade. Essa iniciativa ajudou a estruturar uma rede nacional de abrigos e centros de aconselhamento que mudou a realidade de milhares de americanas.

O impacto revolucionário no jornalismo e a criação da Ms. Magazine

A entrada de Gloria Steinem na vida pública começou através das máquinas de escrever, quando ela se estabeleceu como jornalista na efervescente Nova York da década de 1970. Antes de se tornar uma líder de massas, ela precisou enfrentar o machismo das redações, onde repórteres mulheres eram frequentemente relegadas às seções de culinária, moda ou comportamento. Sua determinação em cobrir política e questões sociais abriu portas para toda uma nova geração de profissionais da imprensa.

O grande divisor de águas em sua carreira investigativa ocorreu no início dos anos 1960, quando ela atuava como escritora freelance. Infiltrada, ela trabalhou disfarçada para expor as condições degradantes e a exploração laboral enfrentadas pelas “Playboy Bunnies” nos famosos clubes masculinos da época. A reportagem resultante, que detalhava os baixos salários e o assédio constante, chocou a sociedade americana e consolidou seu nome no jornalismo investigativo de alto impacto.

Com o prestígio alcançado, ela se tornou colunista da conceituada New York Magazine, espaço que utilizou para amplificar debates políticos urgentes. Esse acúmulo de experiência culminou na fundação da Ms. magazine em 1972, um marco editorial sem precedentes. O próprio nome da revista foi um ato político, popularizando o uso do pronome “Ms.” em inglês, que não define a mulher pelo seu estado civil, ao contrário de “Miss” ou “Mrs.”.

A publicação rompeu com os padrões da indústria ao ignorar pautas sobre afazeres domésticos e padrões de beleza inatingíveis. Em vez disso, as páginas da Ms. magazine traziam reportagens profundas sobre violência doméstica, discriminação no mercado de trabalho e representatividade política, provando que existia um vasto público leitor ávido por conteúdo que tratasse as mulheres como cidadãs plenas.

Lutas por direitos reprodutivos e o cenário político americano

A defesa intransigente da autonomia corporal foi um dos pilares da vida pública da escritora, uma convicção forjada em uma experiência profundamente pessoal e traumática. Aos 22 anos, durante uma estadia em Londres, ela precisou buscar um procedimento de aborto clandestino, enfrentando os riscos físicos e legais de uma época em que a prática era amplamente criminalizada. Esse episódio moldou sua compreensão sobre como o controle do Estado sobre os corpos femininos perpetuava a desigualdade.

Durante a década de 1970, ela assumiu a linha de frente das campanhas pelos direitos reprodutivos nos Estados Unidos. O ativismo incansável de sua geração encontrou uma vitória histórica em 1973, quando a Suprema Corte americana emitiu a decisão do caso Roe v. Wade, garantindo a proteção constitucional ao aborto em âmbito federal. A ativista celebrou o veredito como um passo fundamental para a emancipação econômica e social das cidadãs.

No entanto, a história americana provou ser cíclica. Quase cinco décadas após aquela vitória, ela viveu o suficiente para testemunhar a reversão de Roe v. Wade pela mesma Suprema Corte, um evento que evidenciou a fragilidade das conquistas civis. Esse retrocesso jurídico reforçou o alerta que a jornalista sempre fez em suas palestras sobre a necessidade de vigilância constante e a complexidade das batalhas que atravessam múltiplas gerações.

O escopo de seu ativismo, contudo, ia muito além da pauta reprodutiva. A fundação destacou que ela manteve seu compromisso com a igualdade até os últimos dias de vida, abraçando uma visão interseccional dos direitos humanos. Entre as principais bandeiras defendidas publicamente por ela, destacam-se:

  • A legalização e o reconhecimento civil do casamento entre pessoas do mesmo sexo.
  • A equiparação salarial e a igualdade de oportunidades de ascensão profissional para as mulheres.
  • A abolição total da pena de morte no sistema de justiça criminal.
  • O combate global contra a prática da mutilação genital feminina em diversas culturas.

Raízes do ativismo e a influência de sua jornada pela Índia

Para compreender a força motriz por trás de sua liderança, é necessário observar suas origens. Nascida em 25 de março de 1934, na cidade industrial de Toledo, Ohio, ela enfrentou uma infância marcada pela instabilidade financeira e pelos problemas de saúde mental de sua mãe. Devido às constantes viagens da família em busca de sustento, a jovem só conseguiu frequentar o ambiente escolar em tempo integral quando completou 12 anos de idade.

Apesar dos obstáculos iniciais, ela conseguiu ingressar na universidade, concluindo seus estudos no final da década de 1950. O passo seguinte mudaria sua visão de mundo para sempre: contemplada com uma bolsa de pesquisa, ela viajou para a Índia, onde permaneceu por dois anos imersa em uma realidade cultural e política completamente distinta da americana. Durante esse período, trabalhou em diversas funções e viajou extensivamente pelo país asiático.

Foi nos vilarejos indianos que ela teve seu primeiro contato prático com a organização de base. Inspirada pelos métodos de resistência pacífica de Mahatma Gandhi, a jovem americana ajudou grupos de mulheres locais a estruturar protestos não-violentos contra políticas governamentais opressivas. Essa experiência internacional ensinou-lhe táticas de mobilização comunitária que ela aplicaria, anos mais tarde, nas ruas de Washington e Nova York.

Legado duradouro e os últimos anos dedicados à comunidade

A fundação responsável por preservar sua memória fez questão de ressaltar as qualidades humanas que a tornaram uma líder tão respeitada. O comunicado oficial descreveu que o maior talento da jornalista não estava apenas na oratória, mas em sua extraordinária capacidade de escuta ativa. Segundo a organização, ela possuía o dom de fazer com que indivíduos marginalizados se sentissem genuinamente vistos e compreendidos em suas dores.

Suas ações cotidianas e seu exemplo de vida funcionavam como uma permissão tácita para que as pessoas abraçassem suas verdadeiras identidades, sem medo do julgamento social. A nota divulgada enfatizou que a escritora viveu de forma fiel ao seu espírito independente, mantendo até o fim uma curiosidade intelectual insaciável e um senso de humor afiado, características que a ajudavam a desarmar adversários políticos em debates acalorados.

Mesmo com a idade avançada, ela recusou a ideia de uma aposentadoria reclusa. Nos últimos anos, transformou sua própria residência em um verdadeiro centro de convergência para movimentos de justiça social. Ela recebia regularmente ativistas, intelectuais e jovens lideranças para as chamadas “Rodas de Conversa”, um formato de diálogo horizontal que a fundação garantiu que continuará a ser realizado como parte de seu legado institucional.

O compromisso inabalável com a comunidade culminou na preparação de sua última obra literária. O livro intitulado “An Unexpected Life”, programado para ser lançado de forma póstuma, promete revelar bastidores inéditos de sua trajetória. A fundação concluiu a homenagem afirmando que tanto a literatura quanto o espaço de acolhimento criado em sua casa figuram entre os grandes presentes deixados pela ativista, com a esperança de que continuem a inspirar e gerar efeitos duradouros para as futuras gerações de defensores dos direitos civis.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2013. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

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