ONU prevê El Niño de intensidade “muito forte” até fevereiro de 2027

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El Nino Foto: El Nino - neenawat khenyothaa/ shutterstock.com

O fenômeno climático El Niño deve seguir em processo de intensificação ao longo dos próximos meses, alcançando um nível de força expressivo antes de atingir seu ponto máximo no final de 2026, conforme uma atualização divulgada pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), que atua como o braço meteorológico e climático da Organização das Nações Unidas (ONU).

A alta confiança desta projeção é um ponto de destaque. Os sistemas de modelagem climática analisados pela OMM apontam uma chance de praticamente 100% para a continuidade do El Niño nos períodos de setembro a novembro e, posteriormente, de dezembro a fevereiro de 2027.

De acordo com a OMM, a probabilidade de ocorrência de condições climáticas neutras é quase inexistente durante esse intervalo, sem qualquer indicação de um possível retorno do fenômeno La Niña.

Para melhor compreensão, o El Niño e a La Niña representam as duas etapas principais do ciclo climático conhecido como ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño é definido pelo aquecimento das águas da superfície do Oceano Pacífico equatorial, com elevações de temperatura iguais ou superiores a 0,5°C acima da média.

Esse quadro é impulsionado pelo expressivo aquecimento do Oceano Pacífico e por alterações atmosféricas que corroboram a previsão de um El Niño em progressiva intensificação.

A expectativa é que o evento continue a impactar os padrões de temperatura e precipitação em diversas partes do globo já durante a primavera e o verão no Hemisfério Sul.

Contudo, a Organização Meteorológica Mundial alerta com uma ressalva crucial: a magnitude isolada do El Niño não é suficiente para determinar a extensão exata dos efeitos em uma cidade, nação ou área específica.

Condições de outros oceanos, como o Atlântico e o Índico, são elementos adicionais que podem tanto intensificar quanto mitigar os desdobramentos do fenômeno.

Nos próximos meses, a organização projeta, por exemplo, o surgimento de uma fase positiva do Dipolo do Oceano Índico, juntamente com a persistência de águas mais aquecidas que o habitual no Atlântico Equatorial, cenários que podem alterar a resposta usual atribuída ao El Niño.

Por essa razão, áreas que tradicionalmente registram mais ou menos precipitação em episódios de El Niño intenso podem vivenciar variações significativas entre um evento e outro.

“Já observamos perturbações e danos causados por períodos de seca e inundações, e a expectativa é que esses impactos se ampliem com a intensificação do El Niño”, declarou Celeste Saulo, secretária-geral da OMM.

Aceleração do aquecimento das águas do Oceano Pacífico

Uma das evidências mais claras do fortalecimento é observada na área conhecida como região Niño 3.4, um segmento do Pacífico Equatorial que os pesquisadores utilizam para monitorar o avanço do El Niño.

Em maio, a temperatura da superfície do mar nessa porção estava aproximadamente 0,9°C acima da média histórica. Já em julho, essa diferença alcançou a marca de 2°C.

Posteriormente, dados semanais coletados entre o final de julho e meados de agosto mostraram valores cerca de 2,2°C a 2,6°C acima do padrão normal, sinalizando que o aquecimento prosseguiu em crescimento.

O aquecimento, contudo, não se limita à superfície. A OMM indicou que, em certas áreas do Pacífico, as camadas de água submersas registraram temperaturas superiores a 8°C acima da média entre julho e o começo de agosto.

Esse volume de água extraordinariamente aquecido constitui um elemento adicional que contribui para a continuidade e intensificação do El Niño nos meses vindouros.

As projeções climáticas compiladas pela organização agora sugerem que a anomalia média na região Niño 3.4 pode alcançar cerca de 3,6°C entre setembro e novembro, com o pico de fortalecimento previsto para os meses de novembro e dezembro.

Para o mês de novembro, a estimativa isolada aponta para um aquecimento de até 3,9°C acima da média, embora este seja um valor obtido por modelos e sujeito a margens de incerteza.

É importante compreender que uma anomalia de 3,6°C não implica que todo o Oceano Pacífico experimentará um aumento de 3,6°C, nem que a temperatura do ar elevará na mesma medida. Esse número indica a elevação da temperatura da superfície do mar em uma área específica do Pacífico, em relação à sua média histórica.

Elevação das temperaturas em amplas áreas do planeta

Complementando as informações sobre o El Niño, a OMM também divulgou uma perspectiva climática para o trimestre de setembro a novembro de 2026.

As simulações climáticas apontam para uma alta chance de temperaturas superarem a média em quase todas as principais massas continentais, com indícios especialmente firmes em regiões da África, América do Sul, Austrália e Ásia.

No continente sul-americano, a previsão de calor é mais pronunciada principalmente na faixa entre a linha do Equador e os 30° de latitude sul, que compreende uma porção considerável da região. Mais para o sul, a projeção apresenta menor uniformidade.

A distribuição de chuvas, por sua vez, tende a variar significativamente entre as diferentes regiões.

Na América do Sul, as simulações indicam uma maior probabilidade de volumes de precipitação abaixo da média no noroeste e em certas áreas do norte, enquanto sinalizam uma faixa com maior potencial de chuvas acima do normal no sudeste do continente.

Esse padrão é consistente com uma das características mais reconhecidas do El Niño: o fenômeno provoca alterações na circulação atmosférica, podendo mudar a localização dos corredores de chuva e, assim, tornar uma região mais úmida enquanto outra lida com condições de seca.

Entenda o El Niño e a sua relevância global

O El Niño consiste em um aquecimento atípico das águas do Oceano Pacífico, especificamente na região adjacente à linha do Equador.

Ele integra um ciclo climático natural que se manifesta em fases quentes (El Niño), frias (La Niña) e neutras, gerando consequências em diversas partes do mundo.

Esse aumento de temperatura modifica a circulação da atmosfera, impactando os regimes de chuva e as temperaturas em distintas localidades globais.

No Brasil, os efeitos geralmente são irregulares: o Sul do país tende a registrar maiores volumes de chuva, ao passo que as regiões Norte e partes do Nordeste podem experimentar períodos de estiagem mais prolongados.

O fenômeno também exerce influência sobre a temperatura média global. Em anos de El Niño mais acentuado, o planeta geralmente alcança temperaturas acima da média, o que se soma aos efeitos do aquecimento global.

A intensidade e os impactos do El Niño variam em cada ocorrência. Considerando que o planeta já se encontra em um estado mais aquecido, até mesmo episódios de força moderada podem gerar consequências mais severas do que em épocas anteriores.

El Niño
El Niño – mesh cube/Istock.com

Cenários de impactos para o Brasil

  • aumento das precipitações na Região Sul, elevando o risco de ocorrência de eventos climáticos extremos;
  • diminuição dos volumes de chuva nas Regiões Norte e em partes do Nordeste;
  • maior variabilidade e irregularidade nas chuvas para o Sudeste e Centro-Oeste;
  • elevação da frequência de ondas de calor.

De acordo com os especialistas, um dos efeitos primordiais esperados é a intensificação de períodos estendidos de calor, principalmente durante as estações de primavera e verão.

Mesmo diante da alternância entre La Niña, condições neutras e El Niño, a comunidade científica enfatiza que o aquecimento global permanece como o principal motor das transformações climáticas.

Com os oceanos já apresentando temperaturas superiores à sua média histórica, a projeção é que os próximos meses continuem a registrar elevações térmicas em diversas partes do planeta.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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