O Produto Interno Bruto (PIB) do Chile registrou queda de 0,3% no terceiro trimestre de 2026, enquanto a taxa de desemprego subiu 1 ponto percentual no acumulado de 12 meses e atingiu 9,6%, o maior índice em mais de cinco anos. Os indicadores divulgados até esta sexta-feira, 23 de outubro de 2026, marcam os primeiros sete meses do mandato do presidente chileno José Antonio Kast e levaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) a reduzir a projeção de crescimento do país neste ano de 1,8% para 0,6%.
A revisão feita pelo FMI em outubro coloca o desempenho chileno como o segundo pior previsto para a América do Sul em 2026, à frente apenas da Bolívia, onde o fundo projeta uma recessão de 3%. Para tentar reverter a desaceleração e gerar postos de trabalho após o PIB já ter recuado 0,2% no segundo trimestre, Kast anunciou no final de setembro um programa de investimentos públicos de 1,3 bilhão de pesos chilenos voltado para obras de infraestrutura, subsídios a novos empregos e apoio ao financiamento de empresas.
Plano de austeridade no Chile corta mais de US$ 1,4 bilhão
Empossado em março de 2026 com a promessa de reduzir o tamanho do Estado e diminuir tributos corporativos, José Antonio Kast, admirador da ditadura chilena de Augusto Pinochet (1973-1990), implementou um plano de ajuste fiscal com meta de corte bruto de 3% nas despesas públicas, em linha com medidas adotadas por Donald Trump nos Estados Unidos e por Javier Milei na Argentina. Os dois primeiros informes da administração indicaram uma contenção de gastos próxima de 2 trilhões de pesos chilenos, valor equivalente a cerca de 0,6% do PIB do país, enquanto um levantamento em decretos de 17 dos 25 ministérios apontou que os cortes superaram US$ 1,4 bilhão.
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A pasta da Saúde sofreu a maior redução orçamentária, perdendo 413 bilhões de pesos chilenos. Outros quatro setores concentraram as principais perdas financeiras dentro da administração pública chilena: Habitação, com corte de 200 bilhões de pesos chilenos; Educação, que perdeu 197 bilhões; Trabalho, com redução de 141 bilhões; e Previdência, que teve diminuição de 706 milhões.
Para Fernando Henrique Lemos Rodrigues, doutor em teoria econômica, especialista em Chile e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), a contenção de despesas públicas combinada à redução de impostos para empresas reduz a arrecadação estatal sem garantir novos investimentos privados.
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“Ele está freando a expansão dos gastos. Só isso já dá um impacto brutal sobre a economia chilena, porque ela está diante de uma conjuntura bastante precária no seu principal setor, que é do cobre”, disse Rodrigues. Sobre o comportamento do empresariado diante da desoneração tributária, o professor afirmou: “O rico faz o que nesse momento de extrema incerteza que é a crise? Ele pega esse dinheiro da redução dos impostos e retira do circuito econômico, normalmente direcionando a aplicações financeiras. É isso que ele faz”.
Produção de cobre no Chile recua 8% e combustíveis pressionam inflação
A retração econômica no primeiro semestre de 2026 foi a maior registrada no país desde a pandemia de covid-19, acumulando queda anual de 0,5% no primeiro trimestre e de 0,2% no segundo, com estagnação nos investimentos produtivos puxada pela baixa na construção civil. Esse quadro levou o Banco Central do Chile a ajustar sua estimativa de alta do PIB em 2026 para a faixa de 0,25% a 0,75%, ao mesmo tempo em que a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,1% em julho, pressionada pelo repasse integral da alta internacional do petróleo aos preços internos da gasolina e do diesel. Como o país importa a quase totalidade do petróleo que consome e o governo optou por não subsidiar os valores para evitar custos fiscais diante das guerras no Oriente Médio, o reajuste, chamado localmente de “bencinazo”, encareceu toda a cadeia econômica.
Outro fator de pressão é o desempenho da mineração de cobre, atividade que responde por 30% a 40% das exportações chilenas. Dados da Câmara Mineira do Chile mostram que a produção do metal entre janeiro e agosto de 2026 ficou 8% abaixo do volume registrado nos mesmos meses de 2025.
“O esgotamento de algumas minas e os problemas de tecnologia para extração do minério, somados a eventos climáticos extremos que impediram o escoamento da produção e a movimentos operários por aumentos salariais, têm criado entraves à economia do cobre”, declarou Fernando Henrique Lemos Rodrigues.
Diante da sequência de resultados negativos, o ministro da Fazenda do Chile (cargo equivalente ao de ministro da Fazenda no Brasil), Jaime Quiroz, pediu cautela ao setor privado durante um encontro com empresários cristãos em Santiago no início de outubro de 2026. “Não percam a calma, nem se desesperem”, afirmou Quiroz.
Orçamento de 2027 no Chile afeta 48 programas sociais
A proposta orçamentária do governo chileno para 2027 prevê uma expansão de despesas de 1,5% do PIB, ritmo inferior ao projetado anteriormente. Um estudo da Fundação Horizonte Cidadão, organização fundada pela ex-presidente Michelle Bachelet, apontou que o desenho fiscal para o próximo ano retirará 325 bilhões de pesos chilenos de 48 programas sociais voltados à população de baixa renda.
Ao analisar os dados orçamentários, o Centro de Investigação Jornalística (CIPER) do Chile registrou: “Estes resultados contrastam com a promessa de campanha do presidente José Antonio Kast de que reduziria os gastos fiscais sem cortar benefícios sociais”.
Os cortes anunciados na área de educação desencadearam protestos estudantis no país, que terminaram com repressão policial. Após sete meses de gestão em Santiago, as pesquisas de opinião indicam que José Antonio Kast acumula índices de desaprovação superiores a 60%.
