Brasil

Médium Máira Rocha é acusada por famílias de fraudar psicografias

Máira - Reprodução/TV Globo
Foto: Máira - Reprodução/TV Globo
Compartilhar
Siga no Google

Famílias em luto denunciaram a médium Máira Rocha por suspeita de fraude na elaboração de cartas psicografadas em Brasília em 6 de setembro de 2026. Os parentes relatam que mensagens atribuídas a pessoas mortas reproduziam informações publicadas previamente em redes sociais e arquivos abertos da internet. A mulher atua como servidora no Ministério da Saúde e coordena a Casa da Caridade Inácio Daniel.

A instituição religiosa acolhe cerca de 5 mil indivíduos a cada mês com distribuição de roupas e refeições aos necessitados. No entanto, frequentadores afirmam que o atendimento espiritual servia de instrumento para arrecadar valores de quem buscava contato com parentes falecidos.

A empresária Marina Escames buscou consolo após perder o marido Thiago para a leucemia, deixando o filho Matteo desamparado aos 3 anos. Na mensagem entregue no centro, o texto continha termos idênticos aos usados em publicações de aniversário da família e mencionava o consumo de chá de camomila durante a internação hospitalar. O filho mais velho, Nicolas, acessou o perfil do falecido pai e descobriu que cada detalhe citado constava em postagens e vídeos antigos. A mãe comprovou que a referência a um sofrimento do filho caçula na escola tinha sido relatada pelo próprio menino em um bilhete entregue à médium.

Inconsistências revelaram uso de publicações antigas da internet

Marcela Magalhães constatou erros graves nas mensagens após perder o filho Henrique aos 18 anos em decorrência de um acidente de carro. Em uma transmissão virtual na qual dizia se comunicar com o jovem, a líder religiosa afirmou perante o público que o rapaz havia atuado profissionalmente nos gramados esportivos como jogador de futebol e declarou incorretamente que outros dois amigos falecidos em períodos diferentes haviam sido vítimas do mesmo desastre automobilístico.

A mãe descobriu que a descrição reproduzia uma reportagem imprecisa de jornal aliada a uma fotografia comemorativa de três óbitos ocorridos em datas distintas. Henrique faleceu em fevereiro de 2020, enquanto o jovem João morreu vítima de acidente vascular cerebral em abril de 2020 e Letícia perdeu a vida em virtude de mal súbito em 2005. O pesquisador de conteúdo digital Guga Guimarães declarou que o cruzamento de matérias na rede e perfis de parentes constitui método padrão para simular revelações.

Outra vítima, Diva Mascarenhas Borges, identificou incongruências históricas na carta atribuída ao pai.

O documento afirmava que o aniversário do falecido ocorria em 5 de maio, repetindo o erro presente em uma página da internet de Jequié sobre o nascimento registrado oficialmente em 16 de maio de 1918. A mensagem também citava parentes pelos nomes primitivos Edvano e Edvani, alterados legalmente na adoção para Sheila e André Luiz. A sequência exata dos nomes batia com o registro público de um processo de inventário.

Exigência de dados pessoais e rituais prévios facilitavam apuração

Para obter as cartas na Casa da Caridade Inácio Daniel, os interessados enfrentavam exigências burocráticas rigorosas impostas com meses de antecedência aos atendimentos. O pesquisador espírita Pedro Camilo explicou que a solicitação de dados completos e prazos elásticos viabiliza a montagem prévia de relatórios sobre os mortos.

Os frequentadores precisavam cumprir regras detalhadas antes de qualquer contato com as mensagens. As famílias deviam repassar documentos cadastrais de identificação à coordenação com até sessenta dias de espera. Antes da reunião espiritual, a dirigente promovia uma atividade denominada fila do abraço. O momento servia para interrogar os enlutados discretamente sobre causas de mortes e apelidos.

  • Envio obrigatório de nome completo e número de CPF do visitante e de acompanhantes
  • Apresentação de comprovantes de reserva em hotéis ou passagens de transporte aéreo
  • Entrega de fotografias e relatos orais durante a recepção física no local

Jorge Godinho, presidente da Federação Espírita Brasileira, apontou que médiuns tradicionais como Chico Xavier jamais exigiram formulários ou identificações civis dos participantes. O dirigente afirmou que as manifestações espirituais ocorrem de forma espontânea, sem triagens cartorárias.

Práticas de arrecadação financeira contrariam entidades espíritas

A administração do centro espírita promovia leilões de vestimentas e objetos supostamente energizados utilizados nas sessões para levantar fundos dos frequentadores. A aposentada Arlete Pereira confirmou que arrematou peças por acreditar na ligação mística com familiares desencarnados. Um amuleto de olho grego figurou entre os itens mais disputados no recinto sob a alegação de afastar vibrações negativas.

A Federação Espírita Brasileira rejeita leilões comerciais.

O ex-voluntário Antônio Carlos Felizola declarou que o marido da advogada a acusava abertamente de farsa durante discussões conjugais domésticas. Na cidade de Jati, no Ceará, a prima Márcia Rocha desmentiu a versão de dons de infância no município de 8 mil moradores e esclareceu que o apelido de Máira deriva de Alexandrina.

Casos policiais acumulados somam boletins em cinco estados

As contestações judiciais se multiplicaram após o sofrimento gerado entre os parentes que identificaram manipulações nas cartas. Abalado pela descoberta de que o próprio desabafo infantil fora aproveitado no texto, o filho de Marina Escames enfrentou quadro depressivo. Sete líderes religiosos firmaram notícia-crime contra a acusada por estelionato, charlatanismo e infração ao artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente. O advogado criminalista Luiz Henrique Machado classificou a conduta como estelionato espiritual por instrumentalizar a fé alheia com dados da internet.

O aposentado Silvano protocolou registros na Polícia Civil do Distrito Federal após notar ausências de netos e a inclusão indevida de uma sobrinha de sua cunhada no texto atribuído à sua mãe falecida. O morador formalizou duas ocorrências adicionais contra a mulher pelos crimes de charlatanismo e ameaça.

A Polícia Civil possui apurações abertas contra Máira Rocha em pelo menos cinco estados por estelionato, calúnia, difamação e coação de testemunhas. O Ministério Público analisa representações por desvio financeiro, apropriação indébita e uso de influência funcional com agentes públicos. A Promotoria mantém a apuração sobre as movimentações da entidade.

Compartilhar

Mais notícias em Brasil

Veja mais