Brasil atinge marca recorde de 6.697 transplantes de rimPor Maria
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O Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde registrou 6.697 transplantes de rim no Brasil em 2025, volume que correspondeu a cerca de 21,6% de todas as cirurgias de órgãos realizadas no território nacional ao longo do período.
Os números consolidados em 16 de setembro de 2026 refletem a dimensão epidemiológica da doença renal crônica no mercado da saúde pública e privada brasileira. Levantamentos da Sociedade Brasileira de Nefrologia indicam que mais de 20 milhões de cidadãos convivem com a enfermidade no país, proporção que atinge cerca de uma em cada dez pessoas. O Censo Brasileiro de Diálise 2024 revela ainda que mais de 170 mil pacientes com perda acentuada da atividade renal realizam terapia renal substitutiva de forma contínua.
A evolução assintomática da perda funcional dos néfrons impede a identificação precoce do problema na maioria dos atendimentos ambulatoriais. Os órgãos continuam depurando impurezas mesmo sob danos teciduais avançados, o que atrasa a procura por assistência médica especializada.
Diagnóstico precoce depende de exames laboratoriais de sangue e urina
A creatinina mede a função renal.
A identificação médica das lesões renais no sistema de saúde ocorre por meio de procedimentos laboratoriais de rotina e baixo custo assistencial. A dosagem de creatinina no sangue serve para estimar a taxa de filtração glomerular e apontar o volume de plasma depurado a cada minuto pelos tecidos internos. Outro método decisivo afere a concentração de albumina na urina, com ênfase na relação albumina por creatinina urinária para captar os primeiros extravasamentos de proteína decorrentes de falhas de permeabilidade. O nefrologista Pedro Mendes Filho, do Hospital Brasília, alerta que aguardar a manifestação de edemas periféricos ou fadiga intensa reduz drasticamente as alternativas terapêuticas conservadoras.
“Muitas vezes, a doença renal crônica é silenciosa, especialmente nas fases iniciais. Por isso, pessoas com fatores de risco, como obesidade, hipertensão e diabetes, precisam manter acompanhamento médico e realizar os exames indicados. Esperar pelos sintomas pode significar perder uma oportunidade importante de diagnóstico precoce”, explica Pedro Mendes Filho. A perda estrutural dos rins não provoca dor física imediata nos estágios primários.

Controle de comorbidades retarda o avanço do comprometimento renal
O manejo rigoroso de distúrbios vasculares e metabólicos previne a degradação acelerada dos capilares glomerulares. O controle estrito da pressão arterial e dos níveis de glicemia em pessoas diabéticas impede a sobrecarga mecânica crônica sobre os filtros naturais do corpo humano. O tratamento precoce reúne intervenções nutricionais personalizadas, ajuste na ingestão diária de sódio e prescrição de fármacos para estabilizar a perda de filtração.
“Falar de transplante também é falar de prevenção. Quanto antes identificamos alterações na função renal e controlamos os fatores de risco, maiores são as chances de preservar a função dos rins e evitar que o paciente chegue a um estágio avançado da doença”, afirma Pedro Mendes Filho. O diagnóstico tempestivo permite estagnar a degeneração celular antes da perda total da depuração biológica.
Terapia de substituição renal e critérios clínicos de indicação
A perda terminal da capacidade depurativa exige suporte técnico externo para impedir o acúmulo letal de toxinas urêmicas e desequilíbrios eletrolíticos. O início da hemodiálise não determina, de forma automática, a entrada imediata do enfermo na lista de espera para enxerto de órgão. As equipes hospitalares realizam checagens cardiológicas detalhadas, exames sorológicos e provas de compatibilidade genética antes de emitir o parecer cirúrgico.
A indicação cirúrgica depende de um processo individualizado que considera o grau de fragilidade física do paciente, a presença de comorbidades clínicas severas, a probabilidade de sobrevida após o implante e os riscos imunológicos de rejeição do tecido enxertado, avaliados detalhadamente pelos médicos assistentes antes da inclusão formal na lista de espera.
“O transplante renal é uma das possibilidades para pacientes com doença renal avançada, mas a indicação precisa ser individualizada. A avaliação considera as condições clínicas, as comorbidades e os riscos e benefícios do procedimento para cada paciente, com o objetivo de identificar aqueles que poderão obter maior benefício com o transplante”, relata a nefrologista Maria Fernanda Camargo, coordenadora do Centro de Transplantes e Nefrologia do Hospital Samaritano Higienópolis, em São Paulo, e diretora da área na Rede Américas. A decisão cirúrgica requer estabilidade metabólica prévia.
A médica pontua que as opções de assistência variam segundo a severidade apurada nos testes complementares. “O tratamento da doença renal crônica é individualizado e depende do estágio da doença e das condições de cada paciente. O objetivo é controlar os fatores que estão causando ou agravando a perda da função renal e, quando possível, retardar sua progressão. A diálise e o transplante são opções para os estágios mais avançados, mas não representam o tratamento para todos os pacientes com doença renal crônica”, complementa Maria Fernanda Camargo. As condutas conservadoras preservam as estruturas celulares remanescentes.
Mitos e verdades sobre o funcionamento e o transplante de rim
As etapas de diagnóstico, substituição renal e doação de órgãos despertam dúvidas frequentes entre pacientes e familiares nos centros de atendimento:
- Ausência de dor significa rins saudáveis: mito. A doença renal crônica evolui de forma silenciosa por anos, e sintomas visíveis surgem quando a capacidade funcional já está comprometida.
- Quem realiza diálise entra obrigatoriamente na fila cirúrgica: mito. A submissão ao procedimento dialítico não exige entrada imediata na lista de transplante, pois a indicação requer análise clínica particular de riscos e benefícios.
- Diálise e cirurgia representam as únicas formas de cuidado: mito. O acompanhamento em fases iniciais recorre a medicamentos, reeducação alimentar e controle de fatores causais para conter o avanço do dano.
- Uma pessoa consegue viver com apenas um rim: verdade. Indivíduos saudáveis mantêm qualidade de vida plena com um único órgão funcionante, viabilizando a realização de doação inter vivos.
- A enfermidade renal crônica pode ser prevenida: verdade. O acompanhamento contínuo de diabetes, peso corporal e pressão arterial atenua o risco de deterioração glomerular e afasta a necessidade de terapia substitutiva.
O cirurgião do aparelho digestivo e transplante Lucas Nacif, do Hospital Nove de Julho, Samaritano Higienópolis e Leforte em São Paulo, detalha as exigências para o transplante entre pessoas vivas. “O fato de ser possível viver com um único rim é uma particularidade que torna o transplante renal diferente de outros transplantes. No caso da doação em vida, assim como a doação de fígado entre vivos. Entretanto, a segurança do doador é uma prioridade absoluta e existe uma avaliação rigorosa antes da autorização do procedimento”, explica Lucas Nacif.
A legislação brasileira estabelece a obrigatoriedade de autorização judicial prévia para a retirada de rim de doadores vivos não aparentados.







