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O Ministério da Saúde mantém desatualizado o protocolo clínico para anemia por deficiência de ferro no Brasil, operando com uma diretriz publicada em novembro de 2014, apesar de o Sistema Único de Saúde ter incorporado três novos medicamentos intravenosos entre 2023 e 2024.

A organização Colabore com o Futuro identificou essa disparidade técnica na administração pública federal. A ausência de parâmetros revisados afeta diretamente os pacientes que apresentam intolerância digestiva grave ou falha terapêutica no uso de comprimidos orais.

O SUS exige intervenção rápida.

O histórico das incorporações e a demora na revisão das diretrizes

O governo federal ampliou os recursos terapêuticos disponíveis no sistema público nos últimos anos. Em 2023, o Ministério da Saúde incorporou a ferripolimaltose e a carboximaltose férrica ao catálogo do SUS. No ano seguinte, em 2024, a gestão federal aprovou a entrada da derisomaltose férrica para atender casos específicos de carência nutricional severa.

A fundadora da Colabore com o Futuro, Carolina Cohen, avaliou o cenário assistencial: “Houve mobilização, escuta da sociedade, avaliação das tecnologias e avanço na atualização das diretrizes. O próximo passo é acompanhar como esse processo se traduz na prática. Para o paciente, o resultado de uma política pública precisa aparecer no cuidado que ele recebe.”

A primeira revisão do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas passou por consulta pública em 2023. Depois da chegada da derisomaltose férrica, o governo abriu uma segunda rodada de escuta da sociedade, realizada entre 19 de dezembro de 2024 e 7 de janeiro de 2025.

A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde, a Conitec, emitiu parecer com recomendação favorável ao novo texto em fevereiro de 2025.

anemia - New Africa/Shutterstock.com
anemia – New Africa/Shutterstock.com

Os gargalos que bloqueiam a aplicação do ferro intravenoso na rede

A falha na transmissão das diretrizes gera bloqueios burocráticos nos serviços municipais e estaduais de saúde em todo o Brasil. Essa desarticulação institucional impede que as unidades básicas e os centros de média complexidade apliquem os remédios injetáveis em tempo hábil.

Quando a administração convencional de sulfato ferroso por via oral falha, causa reações adversas intoleráveis ou esbarra em contraindicações médicas no trato digestivo dos pacientes, a aplicação venosa torna-se a única intervenção clínica capaz de restabelecer rapidamente os estoques orgânicos de ferritina e normalizar as taxas de hemoglobina no sangue.

A entidade Colabore com o Futuro apontou que a saúde pública depende da participação coletiva para transformar relatórios técnicos em atendimento real. Carolina Cohen declarou que a população precisa acompanhar a consolidação dos serviços: “A saúde é de todos e as decisões também precisam ser.” Ela acrescentou: “Isso significa ampliar a participação da sociedade e garantir que ela tenha condições de acompanhar os resultados das políticas que ajudou a construir.”

O impacto da deficiência nutricional em gestantes e crianças

A carência de ferro constitui a deficiência nutricional mais frequente em nível global, de acordo com registros epidemiológicos da Organização Mundial da Saúde. Os levantamentos da OMS indicam que o problema atinge 42% das crianças, 40% das grávidas e 33% das mulheres não gestantes no mundo.

A anemia ferropriva desencadeia fadiga contínua, fraqueza muscular, palidez na pele, tontura frequente e falta de ar, limitando o rendimento diário dos pacientes no Brasil.

A médica ginecologista e obstetra Gisele Maciel informou que o período gestacional eleva de modo expressivo a demanda corporal pelo mineral. A médica relatou que muitas mulheres ingressam no ciclo gravídico já com estoques escassos de ferro. Gisele Maciel detalhou: “Isso pode acontecer por diferentes motivos, como baixa ingestão ou absorção do nutriente, intervalos curtos entre as gestações, perdas menstruais importantes antes da gravidez ou condições que interferem na absorção ou no metabolismo do ferro.”

A obstetra alertou que a falta de tratamento adequado fragiliza a tolerância da mulher à perda sanguínea no parto, aumentando a necessidade de transfusões e o perigo de hemorragia grave. Para o bebê, a condição materna descompensada eleva as chances de nascimento prematuro, restrição de peso ao nascer e redução das reservas celulares infantis.

Gisele Maciel reforçou que o acompanhamento médico oportuno permite reverter o quadro clínico: “Esses riscos não significam que necessariamente haverá alguma complicação, mas reforçam a importância do diagnóstico e do cuidado oportunos.”

O roteiro de diagnóstico e pedido do tratamento venoso no SUS

A rede básica de saúde brasileira possui rotinas laboratoriais padronizadas para investigar a carência de ferro durante as consultas médicas e o pré-natal. Os médicos solicitam o hemograma completo para verificar a hemoglobina e o teste de ferritina para checar os estoques reais do mineral no organismo.

O paciente que não tolera as doses orais pode solicitar a via injetável seguindo etapas formais no serviço público:

  • Identificação da falha: o paciente relata intolerância digestiva ao sulfato ferroso oral ou os exames laboratoriais comprovam ausência de resposta terapêutica.
  • Emissão do laudo médico: o médico da Unidade Básica de Saúde documenta a refratariedade e indica formalmente a necessidade de ferro intravenoso.
  • Prescrição específica: a receita médica deve indicar uma das opções incorporadas, como ferripolimaltose, carboximaltose férrica ou derisomaltose férrica, com dosagem adequada.
  • Encaminhamento administrativo: o usuário protocola a documentação clínica na farmácia do SUS ou na secretaria de saúde do município para abertura do processo de fornecimento.
  • Aplicação hospitalar ou ambulatorial: com o medicamento autorizado, a infusão ocorre em ambiente com suporte técnico para monitoramento do paciente.

A gestão de saúde nos municípios utiliza o laudo médico circunstanciado para fundamentar os pedidos especiais de compra enquanto o protocolo nacional segue pendente. O médico assistente precisa descrever com precisão o histórico de reações adversas aos comprimidos convencionais. Essa documentação individualizada viabiliza o fornecimento dos medicamentos pelas instâncias locais do SUS.

O silêncio do Ministério da Saúde sobre a vigência da nova diretriz

A consulta à página institucional do Ministério da Saúde revelou que o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas disponível para acesso público ainda traz a data de novembro de 2014. O órgão federal mantém também arquivado um documento preliminar da Conitec emitido em agosto de 2023.

A assessoria do ministério não respondeu quais diretrizes técnicas os profissionais devem adotar formalmente no atendimento diário nem estipulou data para a publicação definitiva da versão aprovada em fevereiro de 2025.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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