Saúde

Testemunhas de Jeová e procedimentos médicos: o que muda com as frações do sangue

Bolsa, doação de sangue - Gorodenkoff/Shutterstock.com
Bolsa, doação de sangue - Gorodenkoff/Shutterstock.com

O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová passou a permitir que os fiéis decidam individualmente, por consciência pessoal, sobre doar ou receber quatro componentes primários do sangue humano. A nova orientação doutrinária, anunciada em Warwick, no estado de Nova York, nos Estados Unidos, na sexta-feira (18), mantém inalterada a proibição de transfusões e da doação de sangue total de terceiros.

Com a atualização das normas, os membros da denominação religiosa ganham autonomia para deliberar sobre a aceitação de tratamentos médicos que envolvam partes fracionadas da corrente sanguínea. “Cada cristão deve tomar sua própria decisão pessoal sobre o uso desses quatro componentes primários em todos os tratamentos médicos e cirúrgicos”, declarou Geoffrey W. Jackson, integrante do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová.

Critérios para doação e tratamento com hemoderivados

A mudança regulamentar foi publicada por meio do Boletim número 6 de 2026 emitido pela cúpula mundial da igreja. De acordo com as diretrizes enviadas às congregações, a doação de sangue por integrantes da denominação agora está autorizada nos casos em que houver a finalidade expressa de destinar o material para o processamento e a separação de substâncias para pacientes que necessitem dessas frações.

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Os procedimentos terapêuticos liberados para a decisão de cada religioso abrangem especificamente os seguintes elementos biológicos:

  • Glóbulos vermelhos (hemácias), responsáveis pelo transporte de oxigênio no organismo.
  • Glóbulos brancos (leucócitos), que atuam na defesa imunológica do corpo contra infecções.
  • Plasma, a porção líquida do sangue que transporta nutrientes, hormônios e proteínas.
  • Plaquetas, fragmentos celulares que atuam no controle de hemorragias e na coagulação.

A liderança reforçou que o veto ao sangue integral permanece por motivos de ordem estritamente religiosa. O porta-voz internacional das Testemunhas de Jeová, Paul Gillies, indicou o posicionamento institucional perante os fiéis. “Para as Testemunhas de Jeová, o sangue continua sendo sagrado, e elas continuam a considerar a vida e o sangue como presentes preciosos de Deus. Reconhecemos que as decisões médicas envolvendo componentes do sangue são uma questão de consciência entre cada Testemunha de Jeová e seu Deus”, disse Gillies.

Doação de sangue - AnnaStills/Shutterstock.com
Doação de sangue – AnnaStills/Shutterstock.com

Autonomia do paciente e conduta das congregações locais

A determinação estabelece que os líderes locais da organização religiosa não devem intervir nas opções terapêuticas individuais nem impor sanções doutrinárias a quem optar por receber ou doar as substâncias listadas. As orientações orientam que os médicos consultem os pacientes individualmente para registrar em prontuário a escolha de cada indivíduo diante das alternativas disponíveis na medicina.

“As congregações não se envolvem em decisões que dependem da consciência de cada pessoa. Continuaremos a respeitar e apoiar as decisões pessoais de nossos irmãos na fé”, afirmou o porta-voz Paul Gillies.

No Brasil, a estimativa da própria denominação aponta para a existência de mais de 930 mil Testemunhas de Jeová ativas. As equipes de saúde hospitalar e os comitês de ligação com hospitais organizados pelos próprios membros costumam dialogar sobre o planejamento de cirurgias sem transfusão com o uso de substâncias que estimulam a produção celular e técnicas para preservação de sangue.

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Evolução doutrinária e decisões anteriores sobre sangue autólogo

Historicamente, os fiéis da religião recusam a transfusão de sangue alogênico, coletado de outra pessoa, com base em interpretações de passagens bíblicas contidas em Gênesis, capítulo 9, versículo 4; Levítico, capítulo 17, versículo 10; e no livro de Atos dos Apóstolos, capítulo 15, versículos 28 e 29, os quais instruem os crentes a se absterem de sangue.

A alteração anunciada em 18 de setembro de 2026 dá continuidade a um processo prévio de revisão teológica. Em 20 de março de 2026, por meio do Boletim número 2 daquele ano, a cúpula da religião já havia autorizado os fiéis a tomarem decisões individuais sobre técnicas médicas que utilizam o sangue autólogo, pertencente ao próprio indivíduo. Entre as técnicas permitidas à consciência do paciente na ocasião estavam a recuperação intraoperatória e o armazenamento do próprio sangue para aplicação imediata durante procedimentos cirúrgicos complexos.

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Diretrizes jurídicas e decisão do Supremo Tribunal Federal

A questão envolvendo as escolhas médicas das Testemunhas de Jeová possui precedentes jurídicos consolidados no cenário nacional. O Supremo Tribunal Federal fixou tese de repercussão geral assegurando que fiéis adultos e plenamente capazes têm o direito de recusar intervenções médicas que envolvam transfusão de sangue em decorrência de convicções religiosas.

A decisão da Suprema Corte estabeleceu também que o Sistema Único de Saúde deve custear tratamentos e métodos alternativos de preservação volêmica ou suporte hemostático quando estes estiverem disponíveis na rede pública e forem indicados tecnicamente pelas equipes médicas assistentes, preservando a autonomia da vontade do paciente sem exigir que profissionais de saúde descumpram os protocolos de consentimento informado.

Com as orientações divulgadas internacionalmente, médicos e hospitais devem passar a consultar formalmente as Testemunhas de Jeová sobre o aceite particular de frações específicas antes de cirurgias programadas e internações de emergência.

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