Socorro em parada cardíaca deve priorizar massagem torácica e desfibrilador

Parada cardíaca, infarto - PeopleImages / shutterstock.comParada cardíaca, infarto - PeopleImages / shutterstock.com

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A parada cardíaca exige atendimento imediato focado exclusivamente em compressões contínuas no tórax e no uso rápido do desfibrilador externo automático por pessoas sem formação médica. As diretrizes clínicas de atendimento pré-hospitalar descartam a prática de respiração boca a boca para socorristas leigos em eventos ocorridos fora do ambiente de saúde, orientando a manutenção ininterrupta das manobras manuais até a chegada do socorro especializado.

As recomendações foram detalhadas no sábado, 26 de setembro de 2026, pelo médico cardiologista Roberto Kalil Filho, professor titular da Faculdade de Medicina da USP, durante edição do programa CNN Sinais Vitais – Dr. Kalil Entrevista, gravada em São Paulo. Ao lado de especialistas em emergência, o médico enfatizou que a simplificação do protocolo tem como finalidade reduzir a hesitação de testemunhas e assegurar que o paciente mantenha fluxo sanguíneo para órgãos vitais.

Massagem cardíaca contínua substitui respiração boca a boca

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A exclusão da respiração boca a boca nas orientações voltadas à população comum fundamenta-se na necessidade de não interromper as compressões torácicas. O cardiologista Sérgio Timerman, diretor do Centro de Parada Cardíaca, do Time de Resposta Rápida e de Ciência da Ressuscitação do Instituto do Coração (InCor do HC-FMUSP), afirmou que as manobras manuais puras são a intervenção mais decisiva que uma testemunha leiga pode executar diante de um colapso súbito. “O mais importante em ressuscitação é mantermos as coisas simples”, declarou Timerman.

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O direcionamento técnico estabelece que o socorrista posicione as duas mãos sobre o centro do peito da vítima e execute entre 100 e 120 compressões por minuto, permitindo o retorno completo do tórax após cada movimento. A ventilação artificial, antes recomendada em ciclos alternados de sopros e compressões, ficou restrita às equipes de resgate equipadas com dispositivos adequados. “Só massagem cardíaca. A gente sabe que as mãos é o que salvam vidas”, afirmou o cardiologista do InCor.

A simplificação do método combate o receio de contaminação e o desconforto que frequentemente impediam leigos de iniciar manobras de ressuscitação. Quando as interrupções nas compressões são eliminadas, a pressão arterial mínima necessária para a irrigação cerebral e coronariana se sustenta de maneira contínua, retardando danos biológicos irreversíveis até a chegada de equipes providas de suporte avançado de vida.

Seis etapas da corrente da sobrevida organizam o socorro na parada cardíaca

O atendimento a uma vítima de parada cardiorrespiratória em via pública ou ambiente residencial obedece a uma sequência padronizada de intervenções chamada de corrente da sobrevida. Cada elo do processo precisa operar de maneira coordenada para que o indivíduo tenha chances reais de recuperação neurológica e funcional após a emergência.

  • Reconhecimento rápido do colapso e verificação de ausência de resposta e de respiração normal da vítima;
  • Acionamento imediato do serviço móvel de urgência por meio do SAMU no telefone 192 ou do Corpo de Bombeiros no telefone 193;
  • Início imediato de compressões torácicas contínuas de alta qualidade no ritmo de 100 a 120 toques por minuto;
  • Desfibrilação precoce com a aplicação do primeiro choque em menos de 3 minutos pelo desfibrilador externo automático;
  • Chegada e atuação de suporte avançado de vida com equipes pré-hospitalares capacitadas para intubação e fármacos;
  • Cuidados pós-ressuscitação integrados e reabilitação contínua dentro do ambiente hospitalar especializado.

A estrutura demonstra que a atuação da pessoa sem preparo na área da saúde concentra-se nos três primeiros elos e na operação primária do equipamento de choque. Sem essa resposta imediata de quem presencia o desmaio, a atuação das equipes que chegam em ambulâncias perde grande parte do impacto terapêutico.

Desfibrilador em menos de 3 minutos amplia sobrevida

A aplicação do choque elétrico por meio de um desfibrilador externo automático (DEA) na janela temporal inferior a 3 minutos após o colapso constitui o fator de maior impacto para reverter ritmos cardíacos caóticos. O aparelho é totalmente programado para avaliar o ritmo elétrico do coração da vítima, fornecendo instruções sonoras e visuais sobre a aplicação ou não do choque.

A médica emergencista Camila Lunardi, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE), explicou que a população não deve temer manusear esses equipamentos, que já contam com sistemas de autoproteção para disparar descargas elétricas unicamente nos casos em que a arritmia letal é detectada. “O leigo, sabendo usar o desfibrilador, sabendo colocar o desfibrilador no paciente e instalar, ele ajuda muito”, declarou Lunardi durante o programa.

No Brasil, a taxa de sobrevida de paradas cardíacas ocorridas fora de hospitais situa-se em torno de 15%. Esse índice, entretanto, alcança índices entre 37% e 40% em locais estruturados com o protocolo de emergência denominado Código R e dotados de desfibriladores automáticos, como as estações do Metrô de São Paulo. O sistema metroviário paulista adota esse modelo de atendimento há 20 anos, mantendo funcionários treinados e equipamentos distribuídos por plataformas e áreas de circulação.

A legislação brasileira já prevê a obrigatoriedade da disponibilidade de desfibriladores automáticos externos e de funcionários capacitados em locais de grande circulação pública e terminais de transporte coletivo. A medida assegura a base legal necessária para encurtar o tempo de acesso ao aparelho antes da chegada do resgate móvel.

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Massagem cardíaca por leigo traz risco menor do que a omissão de socorro

Especialistas reforçam que a intervenção leiga por meio de compressões torácicas nunca piora a condição clínica de uma pessoa em colapso. O atraso na intervenção ou a simples omissão de socorro representam o desfecho fatal para quem sofre parada cardiorrespiratória em locais públicos ou em domicílio.

Camila Lunardi destacou que a ausência de batimentos cardíacos eficazes já coloca o paciente em falência orgânica instantânea. “Quando a gente tá falando que o paciente já está em parada cardíaca, ele já tá na pior situação que ele pode estar. Literalmente, ele está morto”, afirmou a presidente da ABRAMEDE ao explicar que qualquer tentativa de massagem torácica oferece oportunidade de sobrevida que não existiria na inação.

O treinamento de socorristas leigos e a expansão de programas com aparelhos automáticos em ambientes comunitários seguem como foco central de associações médicas no país para reduzir a mortalidade por paradas cardiorrespiratórias.