ONU aprova resolução para adotar mapa-múndi de áreas equivalentes

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ONU - kckate16/Shutterstock.com Foto: ONU - kckate16/Shutterstock.com

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas aprovou uma resolução recomendando a substituição da tradicional projeção de Mercator e incentivando o uso de mapas de áreas equivalentes, especialmente o modelo Equal Earth, para representar com fidelidade o tamanho real das massas continentais. O documento aprovado em plenário obteve 164 votos favoráveis, um voto contrário e seis abstenções, consolidando uma demanda histórica para que as representações escolares e institucionais deixem de encolher visualmente o continente africano.

A iniciativa internacional foi encabeçada pelo Togo em nome do Grupo de Estados Africanos e da União Africana, como parte da articulação diplomática batizada de Correct the Map. O texto final ressalta que o desenho cartográfico influencia a percepção pública sobre relevância geopolítica, como destacou a comissária de Saúde, Assuntos Humanitários e Desenvolvimento Social da União Africana, Amma Twum-Amoah: “A África, antes diminuída nos mapas, agora insiste em ser vista em sua verdadeira dimensão – geográfica, histórica, moral, cultural, econômica, diplomática e globalmente”.

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Detalhes da votação da resolução A/80/L.104 em Nova York

O plenário da 80ª sessão da Assembleia Geral analisou o projeto intitulado “Corrija o mapa: reequilibrando a representação cartográfica global e promovendo a representação equitativa das regiões do mundo, particularmente a África”. A matéria tramitou sem caráter juridicamente vinculante, o que significa que nenhum país sofre sanções pelo uso continuado de outros modelos cartográficos, funcionando como uma diretriz oficial para governos, materiais didáticos, veículos de imprensa e empresas do setor de tecnologia.

  • Órgão deliberativo: Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, reunida em Nova York, nos Estados Unidos.
  • Data da deliberação plenária: 4 de setembro de 2026, durante a 80ª sessão geral.
  • Placar da votação: 164 votos a favor, 1 voto contrário dos Estados Unidos e 6 abstenções (Estônia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia).
  • Proponente oficial: República Togolesa, em representação do Grupo de Estados Africanos e da União Africana.
Mapa aprovado pela ONU - Reproduçãio/equal-earth.com
Foto: Mapa aprovado pela ONU – Reproduçãio/equal-earth.com

A única manifestação contrária partiu da delegação dos Estados Unidos. Os representantes norte-americanos sustentaram em plenário que o debate cartográfico afasta o foco do organismo internacional de temas prioritários voltados à segurança e à manutenção da paz mundial. Já as abstenções partiram de seis nações europeias e do Cáucaso, enquanto a esmagadora maioria dos Estados-membros avalizou a recomendação de modernização visual.

Distorções históricas entre a projeção de Mercator e a África

Concebida no século XVI pelo geógrafo e cartógrafo Gerardus Mercator, a projeção cilíndrica mais famosa da história foi desenvolvida com foco estrito na navegação marítima europeia. Como sua principal virtude técnica era permitir que navegadores traçassem linhas de rumo retas utilizando coordenadas fixas de bússola sem a necessidade de recalcular trajetórias constantemente em alto-mar, o traçado gerou um efeito colateral geométrico expressivo, ampliando progressivamente as porções terrestres situadas em latitudes elevadas próximas aos polos.

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Essa distorção técnica fez com que a Europa e a América do Norte parecessem desproporcionalmente maiores do que o continente africano e a América do Sul nos materiais didáticos ao longo dos séculos. Na projeção de Mercator, a ilha da Groenlândia aparenta possuir a mesma área territorial que a África, embora o continente africano seja cerca de 14 vezes maior em extensão geográfica real. O modelo tradicional ajudou a moldar visões de mundo eurocêntricas adotadas amplamente durante os períodos colonial e neocolonial.

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O chanceler do Togo, Robert Dussey, que liderou a articulação diplomática no plenário, questionou o impacto dessa distorção na educação das novas gerações durante a defesa do texto: “Hoje, a questão da cartografia como ferramenta cognitiva merece a nossa atenção coletiva. Como representamos o mundo? Como nós o ensinamos? Como as gerações aprendem a ver o nosso planeta?”.

Marcos da evolução dos mapas globais até a deliberação na ONU

A transição entre os modelos de visualização geográfica percorreu séculos de desenvolvimento técnico e debates políticos sobre colonialismo, culminando na recente formalização nas Nações Unidas.

  • 1569 — O cartógrafo Gerardus Mercator publica sua projeção cilíndrica voltada à navegação marítima com linhas retas de bússola.
  • 2018 — Os cartógrafos Bojan Šavrič, Tom Patterson e Bernhard Jenny criam a projeção Equal Earth para oferecer um mapa-múndi de áreas equivalentes visualmente equilibrado.
  • Março de 2026 — A União Africana aprova formalmente a adoção da projeção Equal Earth em suas representações oficiais e lança a campanha Correct the Map.
  • 4 de setembro de 2026 — A Assembleia Geral da ONU aprova a resolução A/80/L.104 recomendando a adoção global de projeções de áreas equivalentes.
  • 29 de setembro de 2026 — Análise técnica publicada pela Universidade de São Paulo examina os impactos cognitivos e pedagógicos da decisão das Nações Unidas.

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Funcionamento do modelo Equal Earth e aplicação nas plataformas digitais

Diferentemente da fórmula desenvolvida em 1569, a projeção Equal Earth foi construída para preservar a proporcionalidade física exata de cada território. Conforme explica Fernanda Padovesi Fonseca, professora de Cartografia do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, o modelo garante que “se uma área na superfície terrestre é quatro vezes maior do que outra área, no mapa, ela vai ser quatro vezes maior, mantendo os traçados dos continentes”.

A professora da USP observa que a projeção de Mercator ganhou dimensões geopolíticas claras no século XX, lembrando que a antiga União Soviética privilegiava o traçado em seus mapas oficiais devido à enorme expansão visual conferida às terras setentrionais de alta latitude. Embora a Equal Earth corrija a relação de tamanho, Padovesi ressalta que opções de centragem e orientação continuam existindo em qualquer mapa plano, mantendo o desafio de visualização para pequenos territórios insulares.

A resolução aprovada na ONU não estipula proibição ao modelo Mercator, que segue plenamente recomendado para navegação aérea e marítima por razões operacionais de rota. Contudo, ainda não há prazos ou datas confirmadas para que gigantes de tecnologia e provedores de mapas digitais comerciais, a exemplo de Google Maps e Apple Maps, incorporem a projeção Equal Earth como padrão definitivo em seus serviços na internet.

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