Oscilações hormonais na perimenopausa aumentam risco cardíaco em mulheres

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Dor no peito, infarto, doença cardiaca - PeopleImages / shutterstock.com Foto: Dor no peito, infarto, doença cardiaca - PeopleImages / shutterstock.com

Médicos da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia alertam que as oscilações hormonais da perimenopausa elevam o risco cardiovascular em mulheres antes mesmo da chegada da menopausa definitiva. Dados do Ministério da Saúde apontam que as doenças cardiovasculares são a principal causa de mortalidade da população feminina no Brasil, superando a soma de todos os tipos de câncer.

O alerta ganhou reforço durante as atividades do Dia Mundial do Coração, celebrado na terça-feira, 29 de setembro de 2026. Um posicionamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia publicado em 2025 registrou que as enfermidades cardiometabólicas nas mulheres continuam subdiagnosticadas e subtratadas em todo o território nacional, o que retarda a busca por assistência médica preventiva.

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Perimenopausa: alterações hormonais e impacto no sistema circulatório

Mulher fechando os olhos com dor, aura por enxaqueca
Foto: Mulher fechando os olhos com dor, aura por enxaqueca – Sergey Mironov/shutterstock.com

As modificações biológicas que predispõem o organismo feminino aos problemas no coração começam na perimenopausa, fase de transição caracterizada pela diminuição irregular da produção ovariana que antecede a última menstruação. A diminuição e a oscilação nos níveis de estrogênio desregulam processos vitais de proteção vascular. O presidente do Departamento da Mulher da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Carlos Japhet, explica a relação direta dos hormônios com o organismo: “O estrogênio, por exemplo, participa da regulação dos vasos, da distribuição de gordura e do metabolismo do colesterol nas mulheres”.

A perda gradativa dessa regulação hormonal modifica a composição corporal e o perfil lipídico feminino. O organismo passa a acumular tecido adiposo preferencialmente na região do abdômen, além de registrar aumento gradual da pressão arterial sistêmica e piora nas taxas de colesterol circulante. A ginecologista Lucia Helena Paiva, presidente da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, adverte que o efeito acumulativo dessas transformações danifica o sistema circulatório silenciosamente: “A alteração no colesterol vai formando placas nas paredes dos vasos, com consequências que podem aparecer anos depois”.

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Nessa fase de transição, o ganho de peso corporal costuma variar entre 500 gramas e 600 gramas por ano. Embora essa alteração pareça pequena em um primeiro momento, o acúmulo contínuo na circunferência abdominal funciona como sinalizador precoce de risco metabólico. Os especialistas explicam que esses sinais não configuram uma doença imediata, mas exigem intervenção clínica para impedir a evolução do quadro para quadros crônicos de obesidade, hipertensão e diabetes.

Dados da transição hormonal e dos riscos cardiovasculares femininos

  • Início das alterações da perimenopausa: entre 40 e 45 anos de idade
  • Idade média da menopausa definitiva no Brasil: 50 anos
  • Critério clínico para menopausa: 12 meses contínuos sem fluxo menstrual
  • Intervalo entre ciclos na fase avançada: 60 dias ou mais
  • Ganho médio de peso na transição: 500 gramas a 600 gramas por ano
  • Faixa etária com maior mortalidade pós-infarto em relação a homens: 45 a 55 anos
  • Aumento do risco de disfunção da tireoide a partir dos 40 anos: 20%

Estudo da PUC do Paraná revela gravidade do infarto entre mulheres de 45 a 55 anos

As manifestações de problemas arteriais graves costumam ser desvalorizadas devido à falta de conhecimento sobre como o infarto atinge o público feminino. Um estudo conduzido pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e publicado em 2025 revelou que mulheres na faixa etária de 45 a 55 anos apresentam maior risco de morte após sofrerem infarto agudo do miocárdio em comparação com homens pertencentes ao mesmo grupo de idade.

Parte dessa taxa elevada de mortalidade decorre do atraso no reconhecimento dos sintomas nas unidades de pronto atendimento. Enquanto o quadro clássico masculino costuma envolver dor aguda no peito irradiada para o braço esquerdo, as mulheres relatam com frequência sintomas atípicos, como desconforto epigástrico no estômago, náuseas, fadiga extrema e crises de suores frios. Esses indícios clínicos são comumente confundidos com problemas digestivos ou manifestações psicossomáticas de crises de ansiedade, o que atrasa a realização do diagnóstico eletrocardiográfico e o tratamento desobstrutivo emergencial.

A sobreposição entre as queixas decorrentes da oscilação hormonal e os sinais de sofrimento cardíaco cria barreiras diagnósticas adicionais. Durante a perimenopausa, a ocorrência de palpitações, ondas repentinas de calor e distúrbios de sono gera dúvidas no atendimento. Por causa dessa semelhança clínica, Carlos Japhet recomenda prudência aos profissionais e pacientes: “Um sintoma novo, intenso ou persistente deve ser avaliado, e não atribuído automaticamente aos hormônios”.

Critérios da terapia hormonal e acompanhamento clínico preventivo

A identificação do climatério demanda atenção à cronologia menstrual. As irregularidades menstruais começam geralmente entre os 40 e 45 anos, momento em que os ciclos encurtam ou se prolongam, podendo atingir intervalos de 60 dias ou mais sem menstruação. A transição costuma vir acompanhada de suores noturnos, oscilações no humor, esquecimento de palavras e redução de libido. Lucia Helena Paiva relata que a indefinição do quadro gera desorientação nas pacientes, sintetizada na queixa recorrente: “Não estou me sentindo eu mesma”.

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A investigação médica preventiva a partir dos 40 anos deve incluir a medição da pressão arterial, avaliação da glicemia de jejum, painel lipídico com frações de colesterol, mamografia anual e testes da tireoide, já que a incidência de distúrbios tireoidianos se eleva em 20% nessa etapa de vida. Exames mais complexos de cardiologia, a exemplo do teste ergométrico e do ecocardiograma, não são aplicados compulsoriamente a todas as mulheres, sendo solicitados com base na estratificação individual de risco, que investiga hábitos, tabagismo e histórico de pré-eclâmpsia ou diabetes gestacional.

Em relação às condutas terapêuticas, as diretrizes médicas determinam que a terapia de reposição hormonal não deve ser prescrita como método de prevenção primária isolada contra eventos de infarto ou acidente vascular cerebral. No entanto, o tratamento para alívio de sintomas vasomotores severos pode ser iniciado antes dos 12 meses de amenorreia que definem a menopausa, desde que existam indicação clínica expressa, exames atualizados e ausência de contraindicações formais. Conforme conclui a médica Lucia Helena Paiva: “A saúde cardiovascular é construída ao longo da vida”.

Até o momento, não constam anúncios de novos protocolos de rastreamento obrigatório criados pelo Ministério da Saúde em 2026 para a rede pública especificamente voltados à perimenopausa. Diante de sintomas súbitos de pressão ou dor no tórax, falta de ar, náuseas ou dor com irradiação para pescoço e mandíbula, a recomendação médica é procurar assistência hospitalar imediata.

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