Ibovespa alcança 209 mil pontos e dólar recua a R$ 4,95
O mercado financeiro brasileiro iniciou os negócios com forte valorização dos ativos e disparada nos índices de ações nesta segunda-feira (5), reagindo diretamente ao resultado da apuração do primeiro turno da eleição presidencial. O principal índice da B3, o Ibovespa, subiu 9,1% logo após a abertura do pregão em São Paulo e alcançou a marca histórica de 209.606 pontos.
No mercado cambial, a cotação do dólar comercial desabou 5% na mínima da manhã, negociada a R$ 4,95, após fechar a sessão de sexta-feira cotada a R$ 5,21. A forte entrada de capital estrangeiro e o alívio nas taxas de juros futuros foram desencadeados pela votação de Flávio Bolsonaro, candidato pelo Partido Liberal (PL), que encerrou a apuração de domingo (4) na liderança com 47,03% dos votos válidos, somando 56.104.503 votos, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição pelo Partido dos Trabalhadores (PT), obteve 45,16%, o equivalente a 53.879.538 votos.
Flávio Bolsonaro e Lula disputam segundo turno com foco fiscal
Investidores institucionais interpretaram a vantagem numérica de Flávio Bolsonaro como um indicativo de maior probabilidade de implementação de reformas voltadas ao equilíbrio das contas públicas a partir do próximo mandato. A percepção média dos analistas é de que o senador pelo Rio de Janeiro apresenta maior inclinação a cortes de despesas primárias, embora o histórico da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro tenha deixado episódios de ampliação de gastos em anos eleitorais e medidas sobre precatórios.
Por outro lado, agentes financeiros mantinham postura de desconfiança em relação à gestão de Lula, apontando que medidas recentes como o reajuste do Bolsa Família e a trajetória de endividamento público elevaram incertezas orçamentárias. A dívida bruta do governo geral atingiu 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), o patamar mais alto da série histórica, acumulando alta de cerca de dez pontos percentuais ao longo dos últimos quatro anos de mandato petista.
Em contrapartida às leituras do setor privado sobre as contas públicas, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu o planejamento do atual governo para o equilíbrio financeiro da União. “O gasto obrigatório vai crescer menos no Orçamento de 2027. Isso é resposta efetiva”, declarou o ministro ao apresentar as diretrizes orçamentárias elaboradas pela equipe econômica.
Juros futuros despencam e paralisam Tesouro Direto
A expressiva desvalorização do dólar e a redução dos prêmios de risco provocaram um recuo acelerado nas taxas dos contratos de juros futuros negociados na B3. As operações atreladas a prazos mais curtos passaram a precificar a taxa básica de juros, a Selic, no patamar de 13% para o encerramento de dezembro de 2026, abaixo dos 13,75% ao ano fixados atualmente pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.
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Essa oscilação rápida nas taxas dos títulos soberanos causou distorções momentâneas nas curvas de rendimento e obrigou a plataforma do Tesouro Direto a suspender temporariamente as negociações de compra e venda de papéis públicos ao longo da manhã. O mecanismo de parada técnica é rotineiro no sistema do Tesouro Nacional para proteger aplicadores contra oscilações extremas de preços em momentos de forte volatilidade.
A perspectiva de juros menores no médio prazo destravou compras generalizadas em setores da Bolsa altamente dependentes de crédito e atividade econômica interna. Companhias ligadas ao varejo e ao consumo registraram valorizações acentuadas desde o início do dia:
- Ações do Magazine Luiza subiram 25% com a melhora nas projeções de consumo interno;
- Papéis da rede de vestuário C&A avançaram 18,6% diante do alívio projetado nos custos financeiros;
- Contratos de juros futuros passaram a precificar a Selic a 13% ao ano para dezembro;
- Taxa básica de juros Selic oficial em vigor na economia permanece fixada em 13,75% ao ano.
Mercados internacionais e gestores avaliam os números da eleição
Antes mesmo do início das negociações regulares na praça paulista, os ativos brasileiros registraram forte procura nas praças financeiras do exterior. Durante a madrugada asiática, o fundo de índice negociado no Japão com ações brasileiras disparou 14%, enquanto em Nova York as cotas do iShares MSCI Brazil registraram valorização entre 12% e 15% nas negociações prévias à abertura oficial das bolsas norte-americanas.
A composição do Congresso Nacional e a vitória de candidaturas de centro-direita e conservadoras em governos estaduais reforçaram a leitura otimista de bancos e gestoras de patrimônio. Cathy Hepworth, chefe da equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, destacou a rápida precificação dos ativos: “Como o segundo turno parece estar nas mãos de Flávio, os ativos brasileiros devem subir”. Paulo Abreu, sócio e gestor de portfólio da Mantaro Capital, também apontou a intensidade da virada: “A segunda-feira será um dia muito melhor do que até os investidores mais otimistas esperavam”.
Para Antonina Tarassiouk, diretora de análise econômica internacional da Reams Asset Management, a definição de um cenário mais claro reduziu a aversão ao risco das carteiras globais. “Havia uma assimetria no resultado: ou a manutenção do status quo com Lula ou um desfecho favorável ao mercado com Bolsonaro, focado em consolidação fiscal. Isso dá aos investidores sinal verde para ampliar posições compradas”, afirmou a diretora.
Alejandro Cuadrado, chefe de estratégia global de câmbio e América Latina do BBVA, afirmou que o resultado legislativo consolidou uma mudança profunda na percepção sobre o país. Segundo Cuadrado, as vitórias de governadores de direita e os números do Congresso melhoraram substancialmente a avaliação externa sobre a governabilidade e abriram espaço para uma reprecificação sustentada dos ativos locais.
Mudança de padrão em relação ao pleito anterior
O desempenho registrado nas urnas em 4 de outubro representou uma reversão na comparação direta com o primeiro turno presidencial disputado em 2022. Naquela ocasião, Jair Bolsonaro havia recebido 43,20% dos votos válidos, totalizando 51.072.345 sufrágios, e terminado atrás de Lula, que liderara a apuração com 48,43%, correspondendo a 57.259.504 votos. Na eleição de 2026, Flávio Bolsonaro superou o resultado obtido pelo pai quatro anos antes em mais de 5 milhões de votos.
A liderança do parlamentar surpreendeu as principais sondagens de intenção de voto divulgadas na véspera do pleito, que indicavam liderança numérica de Lula ou empate técnico no limite máximo da margem de erro estimada pelos institutos. Logo após o anúncio da apuração pelo Tribunal Superior Eleitoral, o candidato do PL discursou a correligionários: “Está decretado o fim da era do PT. A mudança no nosso país”.
Daniella Marques, coordenadora da agenda econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, afirmou que o foco das propostas da candidatura está no diálogo entre os Poderes para garantir autocontenção de despesas orçamentárias. A definição da disputa presidencial para o mandato de 2027 a 2030 ocorrerá no segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro de 2026.
