Risco de obesidade é quase 3 vezes maior em mulheres com fome no Rio

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Mulheres chefes de família que enfrentam insegurança alimentar no Rio de Janeiro têm um risco quase três vezes maior de desenvolver obesidade na comparação com aquelas que vivem em domicílios com alimentação garantida. O dado integra um levantamento conduzido por pesquisadoras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou que o mesmo impacto no peso corporal não ocorre entre os homens sob as mesmas condições de privação alimentar.

O levantamento aponta que a desigualdade de gênero amplia os prejuízos nutricionais nos lares chefiados por mulheres, atingindo tanto a qualidade quanto o volume de refeições ingeridas no cotidiano. “A insegurança alimentar tem se caracterizado como um fator de risco para obesidade entre as mulheres. E curiosamente o mesmo não acontece entre os homens”, afirmaram as autoras do estudo em publicação divulgada na sexta-feira (2).

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Diferenças estatísticas entre homens e mulheres no Rio de Janeiro

Obesidade, Gordura no abdomem, fita métrica - Iren_Geo/Shutterstock.com
Foto: Obesidade, Gordura no abdomem, fita métrica – Iren_Geo/Shutterstock.com

A investigação científica apontou que, entre os homens chefes de família avaliados, a associação entre os diferentes níveis de insegurança alimentar e a presença de sobrepeso ou obesidade não apresentou significância estatística. O resultado confirma uma vulnerabilidade acentuada do público feminino diante da escassez contínua de recursos para manter uma dieta regular e equilibrada no ambiente doméstico.

Nas residências onde a escassez alimentar se manifesta com maior gravidade, os índices de excesso de peso atingem patamares ainda mais elevados. “Pelos resultados, observamos que as prevalências de sobrepeso (38,7%) e obesidade (32,3%) foram significativamente maiores entre mulheres de famílias com formas mais severas da insegurança alimentar”, detalharam as pesquisadoras em artigo publicado formalmente na revista científica Cadernos de Saúde Pública em 6 de julho de 2026.

O cálculo de risco relativo ajustado mostrou que as mulheres expostas à restrição alimentar leve tiveram probabilidade quase três vezes superior (razão de risco relativo de 2,8) de apresentar obesidade frente àquelas em situação de segurança plena. Já entre as mulheres submetidas aos níveis moderado e grave de privação, a frequência de sobrepeso foi 76% superior em comparação com moradoras de lares com oferta regular de alimentos.

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Como os dados sobre insegurança alimentar foram coletados no Rio?

As conclusões foram obtidas por meio de entrevistas domiciliares presenciais com 1.026 pessoas responsáveis pelos domicílios e encarregadas da compra e do preparo das refeições na capital fluminense. O grupo avaliado abrangeu exclusivamente adultos com idades entre 20 e 59 anos, aplicando-se critério de exclusão para mulheres gestantes com o objetivo de evitar distorções nos cálculos de índice de massa corporal decorrentes da gravidez.

A classificação do nível de segurança alimentar dos participantes foi estruturada a partir da aplicação da Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA). O instrumento técnico reúne 14 perguntas dicotômicas de resposta sim ou não, sendo oficialmente validado no Brasil desde 2004 para diagnosticar graus de restrição nutricional e segmentar a população em faixas de segurança alimentar ou insegurança alimentar leve, moderada e grave.

A condução do trabalho acadêmico no Instituto de Nutrição Josué de Castro (INJC/UFRJ) reuniu a professora associada Aline Alves Ferreira, a doutoranda em Saúde Coletiva Luana Teixeira Ghiggino, integrante do Grupo Interdisciplinar de Estudos em Segurança Alimentar e Nutricional (GISAN), a professora titular Rosana Salles da Costa e a pesquisadora Talita Barbosa Domingos. O financiamento da investigação foi concedido pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

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Dados do levantamento sobre nutrição e vulnerabilidade na capital

  • População avaliada: 1.026 chefes de família adultos entre 20 e 59 anos no município do Rio de Janeiro
  • Risco de obesidade feminina: probabilidade ajustada quase 3 vezes maior (razão de 2,8) sob insegurança alimentar
  • Sobrepeso em privação severa: prevalência de 38,7% entre mulheres sob insegurança moderada a grave
  • Obesidade em privação severa: prevalência de 32,3% entre mulheres em lares com restrição moderada ou grave
  • Aumento do risco de sobrepeso: 76% maior entre mulheres em lares com privação severa frente a lares seguros
  • Período de coleta de campo: novembro de 2023 a janeiro de 2024
  • Instituição executora: Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro
  • Órgãos financiadores: Faperj e Câmara Municipal do Rio de Janeiro

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Cenário da fome no Brasil e indicadores nutricionais em capitais

A relação entre carência de refeições adequadas e alterações de peso se desenvolve em um contexto de expressiva vulnerabilidade social em nível nacional. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) referentes ao ano de 2023 indicaram que 21,6 milhões de brasileiros enfrentavam algum grau de insegurança alimentar no país, contingente que incluía 3,2 milhões de cidadãos submetidos à insegurança alimentar grave, caracterizada pela fome extrema.

Paralelamente, a incidência do excesso de peso segue em trajetória de expansão nos centros urbanos do país. O levantamento Vigitel 2024 demonstrou que a taxa de obesidade no conjunto das capitais brasileiras alcançou o percentual de 25,7% dos adultos, sendo de 26,7% entre mulheres e 24,4% entre os homens, o que representa um avanço expressivo frente ao patamar de 11,8% registrado no ano de 2006. Em casos de diagnóstico de sobrepeso ou obesidade associados à vulnerabilidade social, os cidadãos podem buscar avaliação clínica e acompanhamento na rede de Unidades Básicas de Saúde (UBS) do Sistema Único de Saúde (SUS).

As informações apuradas pelo inquérito municipal alimentam o debate sobre formulação de ações assistenciais territorializadas. As autoras do levantamento apontam a necessidade de formulação de estratégias de longo prazo voltadas a conter a persistência do sobrepeso entre a população feminina de menor renda, acompanhando a evolução dos indicadores de alimentação nos bairros do Rio de Janeiro nos próximos anos.

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