Entidades médicas pedem à Anvisa veto total aos implantes hormonais
Doze entidades médicas e científicas nacionais e internacionais divulgaram a Carta do Rio de Janeiro para cobrar da Agência Nacional de Vigilância Sanitária a proibição total da manipulação, estoque, comércio, propaganda e uso de implantes hormonais manipulados no Brasil. O manifesto conjunto foi apresentado na cidade do Rio de Janeiro durante o 20º Congresso Mundial de Menopausa, apontando ausência de comprovação científica de segurança e eficácia nesses dispositivos subcutâneos, conhecidos popularmente como chips da beleza.
Os médicos signatários alertam que as formulações implantáveis não contam com ensaios clínicos rigorosos que comprovem seus supostos benefícios estéticos ou terapêuticos. A entidade reforça a gravidade da aplicação direta sob a pele. Segundo o documento, “para essas finalidades, não existem ensaios clínicos de qualidade que sustentem os benefícios anunciados ou dados de segurança que respaldem sua utilização”.
Quais são os principais riscos dos implantes manipulados?
As entidades médicas relatam que a via subcutânea de inserção mantém uma liberação contínua de hormônios pelo corpo durante meses inteiros, o que impede a redução rápida da dosagem ou a interrupção imediata do tratamento caso a paciente sofra reações adversas graves. Essa barreira terapêutica se agrava com o uso de pellets bioabsorvíveis, que dificultam procedimentos cirúrgicos para remoção completa do material. Entre os problemas relatados pelos especialistas estão arritmias, hipertensão arterial, alterações metabólicas de lipídios, danos hepáticos severos, risco aumentado de tromboembolismo, acidente vascular cerebral e possíveis efeitos sobre a incidência de câncer.
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A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia reuniu registros na plataforma Vigicom Hormônios que evidenciam o impacto clínico negativo desses dispositivos na saúde pública. O banco de notificações computou 257 relatos de complicações médicas decorrentes do uso de implantes hormonais manipulados no país, incluindo duas mortes registradas oficialmente. O levantamento indica ainda que mulheres representam 63% dos casos notificados e que 45,9% dos procedimentos foram realizados com motivação exclusivamente estética.
A endocrinologista Mariana Guerra, delegada da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica no Espírito Santo, destacou a vulnerabilidade das pessoas diante de substâncias inadequadas. De acordo com a médica, “muitos implantes têm como foco hormônios masculinos e substâncias que podem ser potencialmente prejudiciais à saúde”. A especialista aponta que a publicidade enganosa amplifica a adesão a tratamentos sem respaldo sanitário.
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A endocrinologista Maria Amélia Julião, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Seccional Espírito Santo, também reforçou a necessidade de combater o comércio irregular desses produtos. “Nas redes sociais, os dispositivos são vendidos com muitas promessas milagrosas, enquanto se omitem a falta de segurança e os riscos severos à saúde”, afirmou Maria Amélia Julião.
Detalhamento do documento apresentado no Rio de Janeiro
- Ato oficial: divulgação da Carta do Rio de Janeiro – Posicionamento das Sociedades Médicas sobre Implantes Hormonais Manipulados
- Evento e data: 20º Congresso Mundial de Menopausa, em 1 de outubro de 2026, às 17h45
- Local do anúncio: Rio de Janeiro, capital fluminense
- Órgãos demandados: Anvisa, Ministério da Saúde, conselhos profissionais de Medicina e Farmácia, Ministério Público, Defensoria Pública e Congresso Nacional
Diferença entre manipulação magistral e reposição hormonal
O manifesto esclarece que as entidades médicas não se opõem à terapia de reposição hormonal na menopausa, contanto que o tratamento seja realizado com medicamentos industrializados devidamente aprovados por órgãos reguladores, com doses monitoráveis e ajustáveis. O repúdio do grupo se concentra nas formulações manipuladas em escala e no uso indiscriminado do termo “bioidêntico”, classificado pelos médicos como artifício mercadológico sem garantia de eficácia, pureza farmacêutica ou isenção de riscos aos pacientes.
Os médicos condenam a padronização comercial e a criação de estoques de implantes com testosterona, gestrinona, estradiol, metformina, ocitocina, tadalafila, oxandrolona e NAD sem respaldo técnico. Conforme destaca a carta, “a manipulação deve atender a uma necessidade individual não contemplada por medicamento disponível; não pode servir à criação de linhas comerciais, à indução de demanda ou à publicidade desses implantes”. O documento lembra que a testosterona feminina possui respaldo internacional apenas para o transtorno do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa, sempre mantendo os níveis fisiológicos.
O documento assinado pelas entidades também reitera que o uso de gestrinona não tem indicação científica estabelecida para a transição climatérica, antienvelhecimento ou controle metabólico. O uso da substância desencadeia acne, queda de cabelo, engrossamento irreversível da voz, aumento do clitóris e hirsutismo, que é o crescimento anormal de pelos corporais. O objetivo dos especialistas é fazer com que as prescrições médicas retornem aos padrões científicos com comprovação formal.
Histórico de medidas regulatórias sobre terapias hormonais no Brasil
- 1 de abril de 2023: o Conselho Federal de Medicina publicou resolução que proibiu a prescrição médica de terapias com esteroides androgênicos e anabolizantes para fins estéticos, ganho de massa muscular e rendimento esportivo.
- 1 de outubro de 2024: a Anvisa determinou a suspensão temporária da manipulação, comercialização, propaganda e uso de implantes hormonais após representações de sociedades científicas sobre riscos à saúde.
- Novembro de 2024: a agência reguladora flexibilizou parte das restrições e publicou normas específicas, mantendo vedada apenas a aplicação com esteroides anabolizantes voltada à estética e ao ganho muscular.
- 1 de outubro de 2026: doze entidades médicas divulgaram manifesto pedindo o banimento integral de qualquer implante hormonal manipulado no território nacional.
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O posicionamento contou com a participação do ginecologista Marcelo Luis Steiner, diretor da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, do médico Leonardo Seligra, supervisor da Disciplina de Medicina Sexual da Sociedade Brasileira de Urologia, e do médico João Marcello de Araújo Neto, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia. As lideranças médicas argumentam que brechas regulatórias continuam sendo exploradas por farmácias e profissionais de saúde para manter a comercialização contínua.
A Anvisa ainda não emitiu uma resolução definitiva em resposta imediata à solicitação apresentada na Carta do Rio de Janeiro.
