O cometa interestelar 3I/ATLAS expele gás a uma velocidade equivalente a apenas metade daquela registrada em corpos celestes comuns do Sistema Solar. A constatação integra uma série de análises conduzidas por astrônomos no estado norte-americano do Texas, que também revelaram assinaturas incomuns de metais pesados na pluma observada ao redor da estrutura congelada.
Os pesquisadores detectaram fortes linhas de emissão de ferro neutro e níquel neutro na nuvem gasosa do cometa, elementos metálicos que não deveriam se vaporizar com facilidade nas distâncias frias em que o corpo se encontrava. De acordo com Anita Cochran, pesquisadora sênior e diretora-assistente do McDonald Observatory na Universidade do Texas em Austin e autora principal da pesquisa, a análise direta do material traz informações inéditas sobre ambientes cósmicos remotos: “Ao estudar o 3I/ATLAS, esperamos aprender sobre as condições no sistema planetário natal desse alvo e sua longa jornada interestelar”, afirmou a astrônoma, em tradução livre.
Telescópio Hobby-Eberly mapeia a nuvem do cometa 3I/ATLAS
Os dados foram obtidos com o auxílio do espectrógrafo VIRUS, montado no telescópio Hobby-Eberly, instalado no McDonald Observatory, em Fort Davis, no Texas. As medições captaram a dispersão dos compostos voláteis a distâncias superiores a 85 mil quilômetros a partir do núcleo sólido na direção voltada para o Sol. Além dos metais, o equipamento registrou a presença de moléculas tradicionais já documentadas na astronomia cometária, como cianogênio, tricarbo, metilideano e dicarbo.
O comportamento dinâmico desse invólucro gasoso, contudo, divergiu dos modelos aplicados a objetos que orbitam rotineiramente a estrela do Sistema Solar. Enquanto a taxa de expansão em cometas nativos segue um ritmo previsível de acordo com a radiação solar absorvida, o fluxo no 3I/ATLAS desacelerou até atingir cerca de 50% da média padrão observada na mesma posição heliocêntrica, desafiando as equações convencionais de distribuição química.
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O estudo com as conclusões foi aceito e publicado no periódico científico The Planetary Science Journal, em cooperação técnica envolvendo cientistas da Universidade do Texas em Austin, da Universidade de Liège e da Universidade Kyoto Sangyo. O grupo de autores inclui o professor Hideyo Kawakita, vice-diretor do Instituto de Ciência Espacial Koyama da Universidade Kyoto Sangyo, e Gregory Zeimann, astrônomo do telescópio Hobby-Eberly.
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Parâmetros e medições registradas para o cometa 3I/ATLAS
- Identificação oficial: cometa interestelar 3I/ATLAS, formalmente C/2025 N1 (ATLAS)
- Data da descoberta: 1 de julho de 2025, pelo observatório da rede ATLAS em Río Hurtado, no Chile
- Posição na classe de visitantes: 3º objeto interestelar identificado atravessando o Sistema Solar
- Data das observações com o instrumento VIRUS: 9 de dezembro de 2025
- Distância do cometa ao Sol durante as medições: 2,03 unidades astronômicas
- Distância do cometa à Terra durante a coleta: 1,83 unidade astronômica
- Alcance do mapeamento gasoso: mais de 85.000 quilômetros além do núcleo
- Velocidade relativa do gás expelido: 50% do valor comum em cometas solares equivalentes
Presença de ferro e níquel em regiões frias do 3I/ATLAS
A aparição de ferro e níquel em estado gasoso é considerada um ponto de extrema relevância pela equipe internacional de astrofísicos. Em circunstâncias normais, átomos metálicos permanecem aprisionados em grãos sólidos ou em matrizes minerais estáveis, necessitando de temperaturas próximas de fornalhas estelares para que passem à fase de vapor. Como o cometa navegava a mais de duas unidades astronômicas do Sol — o dobro da distância orbital entre a Terra e o astro central —, a energia térmica ambiente era insuficiente para provocar a evaporação convencional desses minérios.
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Esse cenário sugere que o corpo interestelar carrega substâncias voláteis particulares herdadas diretamente da nebulosa planetária em que foi condensado. A hipótese de trabalho avalia que os átomos de ferro e níquel possam ter sido liberados a partir da quebra de complexos moleculares contendo carbonila ou outros compostos orgânicos metálicos sob ação da radiação solar, em vez de dependerem da sublimação térmica direta de rochas espaciais.
Terceiro visitante externo registrado desde 2017
O cometa 3I/ATLAS representa o terceiro exemplar de corpos celestes procedentes de fora do Sistema Solar confirmados pelos astrônomos. O primeiro deles foi o asteroide 1I/’Oumuamua, detectado em 2017 com geometria alongada e ausência de cauda de poeira típica. Dois anos depois, em 2019, o cometa 2I/Borisov cruzou as órbitas interiores exibindo características físicas e composições químicas muito semelhantes às dos cometas nativos do Sistema Solar.
A entrada do 3I/ATLAS no catálogo astronômico comprova que os restos da formação de planetas viajam continuamente pelas fronteiras da Via Láctea. O objeto foi descoberto em 1 de julho de 2025 pelo programa ATLAS no Chile e atingiu sua maior aproximação do Sol no final de outubro de 2025. Ao contrário dos corpos que orbitam o centro solar por gravidade contínua, esses viajantes passam milênios na escuridão do meio interestelar, alternando breves períodos de aquecimento ao interceptar estrelas dispersas ao longo de suas trajetórias hiperbólicas.
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Hipótese sobre dióxido de carbono e próximos passos
O mecanismo preciso que restringe a velocidade de ejeção dos compostos para a metade do valor comum ainda não foi determinado de forma conclusiva. A principal hipótese levantada pelos pesquisadores aponta para a existência de uma proporção muito elevada de dióxido de carbono denso, que estaria pesando o fluxo global e diminuindo a rapidez com que as partículas conseguem se afastar do núcleo rochoso e congelado.
A confirmação sobre o peso molecular dessa atmosfera gasosa depende de novos refinamentos dos dados observacionais obtidos em 2025 e do desenvolvimento de simulações fotoquímicas adicionais, que devem esclarecer as etapas de formação química que originaram o 3I/ATLAS em seu sistema estelar de nascimento.
