Os neandertais utilizavam madeira de maneira sistemática e diversificada para confeccionar armas de caça, ferramentas de uso doméstico e componentes de abrigo. A comprovação faz parte de um estudo publicado na quarta-feira, 7 de outubro de 2026, na revista científica Science Advances, a partir da análise de materiais escavados no sítio arqueológico de Abric Romaní, situado no município de Capellades, na comunidade autônoma da Catalunha, na Espanha.
A investigação analisou 597 vestígios e impressões de madeira resgatados ao longo de quatro décadas de escavações no local. O trabalho foi coordenado por Palmira Saladié, pesquisadora do Instituto Catalão de Paleoecologia Humana e Evolução Social (IPHES-CERCA) e professora associada da Universidade Rovira i Virgili (URV), em conjunto com os pesquisadores M. Gema Chacón e Josep Vallverdú, ambos ligados ao mesmo instituto.
Os 13 artefatos de madeira identificados em Abric Romaní
Do total de restos vegetais examinados no sítio catalão, 13 foram classificados formalmente como itens modificados ou manipulados pela ação direta dos neandertais. Os artefatos recuperados estavam distribuídos em 16 níveis arqueológicos distintos, que documentam ocupações humanas ocorridas entre 62 mil e 40 mil anos atrás. O conjunto reúne lanças de arremesso ou perfuração, bastões pontiagudos voltados para atividades de escavação, recipientes fabricados com cascas de árvores e peças estruturais de sustentação.
A identificação dessas peças altera a compreensão tradicional sobre a cultura material do Paleolítico Médio europeu, período em que predominam achados feitos de pedra e osso. O dossiê de escavação reúne mensurações exatas das peças encontradas ao longo de 40 anos de pesquisas de campo:
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- Extensão das lanças de madeira identificadas: até 2,45 metros de comprimento.
- Comprimento do maior elemento estrutural catalogado: 5,10 metros, utilizado para sustentação ou delimitação de espaço.
- Comprimento do cabo do objeto em forma de clava: 16 centímetros, com cabeça angulada em quase 90 graus.
- Níveis estratigráficos com restos de madeira preservados: 16 camadas geológicas analisadas.
- Intervalo cronológico das ocupações humanas no sítio: entre 62 mil e 40 mil anos antes do presente.
- Total de amostras e impressões de madeira catalogadas: 597 unidades registradas pela equipe.
- Total de ferramentas e armas reconhecidas no conjunto: 13 artefatos trabalhados com marcas de intervenção humana.
Entre os objetos que chamaram a atenção da equipe científica estão quatro peças compostas por casca vegetal com sinais de carbonização. As evidências sugerem que esses itens funcionavam como bandejas ou recipientes leves para o transporte de alimentos recolhidos ou para o manejo de cinzas produzidas nas fogueiras acesas dentro do abrigo rochoso.
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Como o travertino preservou os vestígios de madeira dos neandertais?
A sobrevivência de artefatos feitos de fibras vegetais é um fenômeno incomum na arqueologia pré-histórica mundial, pois a matéria orgânica se decompõe com rapidez quando exposta ao ar, à umidade e à ação de microrganismos do solo. Em Abric Romaní, a preservação ocorreu graças à rápida deposição de carbonato de cálcio, mineral que forma a rocha conhecida como travertino. O mineral cobriu os galhos, troncos e peças trabalhadas antes que a estrutura biológica se perdesse inteiramente.
Com a posterior degradação da matéria lenhosa original, os depósitos minerais endurecidos funcionaram como moldes negativos de alta fidelidade morfológica. Esse processo geológico singular manteve contornos anatômicos nítidos das ferramentas e permitiu aos especialistas verificar feições anatômicas microscópicas da madeira fóssil até o nível celular, viabilizando a identificação segura dos cortes, raspagens e ajustes promovidos intencionalmente pelas mãos dos grupos pré-históricos que habitaram a serra catalã.
A ausência generalizada de madeira em outros sítios pré-históricos decorre principalmente dessa barreira química e climática de preservação diferencial, e não da incapacidade dos hominídeos antigos de trabalhar recursos vegetais. Antes das descobertas detalhadas de Abric Romaní, itens de madeira do Paleolítico Médio no continente europeu haviam sido documentados de forma bastante esparsa, com registros isolados em localidades da Itália, da Grécia e da Alemanha, como nos sítios alemães de Schöningen e Lehringen. A maioria desses locais prévios, contudo, limitava-se a achados pontuais de lanças e hastes de caça, sem a variedade funcional documentada na Catalunha.
A versatilidade técnica documentada no sítio de Abric Romaní
Durante décadas, parte expressiva da literatura arqueológica sustentou que os neandertais possuíam um repertório técnico inflexível quando comparados ao Homo sapiens, recorrendo quase com exclusividade a ferramentas líticas talhadas e usando madeira unicamente como suporte linear para hastes. As conclusões apresentadas no periódico Science Advances contrariam esse modelo ao demonstrar que os grupos neandertais dominavam técnicas sofisticadas de marcenaria pré-histórica, selecionando espécies adequadas e aplicando acabamentos para diferentes necessidades do cotidiano.
Os autores do estudo apontaram a complexidade técnica no artigo científico ao afirmar que, “embora relativamente pequena, esta coleção de artefatos é notável pela morfologia e funcionalidade variadas dos itens que a compõem, demonstrando uma notável versatilidade tecnológica e a exploração diversificada da madeira como matéria-prima”, em tradução livre.
A coordenadora principal do trabalho, Palmira Saladié, também ressaltou o papel central do recurso vegetal para a sobrevivência das populações locais durante o Paleolítico Médio. “Abric Romaní nos dá razões para pensar que a tecnologia da madeira era importante, diversificada e flexível, adaptada às necessidades que as pessoas tinham, desde a caça até o preparo de comida”, afirmou a pesquisadora do IPHES-CERCA, em tradução livre.
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O artefato de madeira curvada e as questões em aberto
Uma das descobertas mais singulares do sítio de Capellades é o artefato com formato de clava, cuja morfologia não possui nenhum registro comparável conhecido na pré-história do Velho Mundo. O objeto apresenta um cabo cilíndrico trabalhado de 16 centímetros e uma extremidade distal alargada, orientada em um ângulo de quase 90 graus em relação à haste de empunhadura.
Apesar da caracterização formal do artefato, os pesquisadores ressaltam que a função exata e o contexto de aplicação dessa peça permanecem indefinidos. A equipe de arqueólogos não determinou se o instrumento operava como arma pesada de impacto contra presas ou adversários, se atuava como ferramenta percussora para o trabalho diário de outros materiais, ou se exercia outra função prática na rotina doméstica do grupo neandertal.
Novos exames microscópicos e estudos de microdesgaste sobre os moldes de travertino continuam em andamento no IPHES-CERCA para tentar rastrear marcas de impacto e resíduos que auxiliem na identificação precisa da função da peça curvada.
