Cientistas descobrem 57 novas espécies marinhas na Argentina

peixe - Al Carrera/Shutterstock.com

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Cientistas de uma força-tarefa internacional identificaram 57 novas espécies marinhas e cinco novos gêneros taxonômicos após analisarem amostras biológicas retiradas das profundezas do Cânion de Mar del Plata, na Argentina. O anúncio oficial dos achados ocorreu em 1 de outubro de 2026, consolidando dados coletados nas águas profundas do oceano Atlântico Sul.

O trabalho intensivo de análise taxonômica reuniu 20 pesquisadores da América Latina e da Europa na Universidade Maimónides, em Buenos Aires. A iniciativa foi organizada pelo Ocean Census em parceria com o Schmidt Ocean Institute, o Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET) e o Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia. A chefe de ciência do Ocean Census, Michelle Taylor, destacou a agilidade do processo conjunto: “Descobrir 57 novas espécies e cinco novos gêneros em apenas duas semanas demonstra a velocidade e a força da taxonomia colaborativa”, afirmou, em tradução livre.

Espécies marinhas do Cânion de Mar del Plata incluem criatura apelidada de Loki

O levantamento taxonômico catalogou organismos que vivem em condições extremas de pressão e ausência de luz solar no assoalho oceânico argentino. O grupo com maior número de novidades foi o dos equinodermos, que somou 22 novas espécies, entre crinoides e pepinos-do-mar. Em seguida, os cientistas registraram 20 novas espécies de copépodes, que são crustáceos diminutos, 14 espécies inéditas de cnidários, categoria que engloba octocorais, penas-do-mar e corais-pétreos, além de uma nova espécie de molusco escafópode.

Foto: peixes – yeshaya dinerstein/Shutterstock,com

Entre os animais catalogados, destacou-se um pepino-do-mar pertencente ao gênero Peniagone, apelidado pela equipe de Loki devido à presença de apêndices frontais que lembram os chifres do capacete atribuído ao deus da mitologia nórdica. O animal foi localizado e recolhido a 2.577 metros de profundidade por meio de braços mecânicos. A identificação do exemplar envolveu o taxonomista Mariano Martínez, do CONICET, e o especialista em equinodermos Francisco Alonso Solís-Marín.

No caso dos pequenos crustáceos, a proporção de espécimes desconhecidos surpreendeu a equipe técnica durante os exames laboratoriais. Os pesquisadores analisaram apenas cerca de 10% do volume total de amostras de copépodes recolhidas na campanha marinha e constataram que a totalidade dos indivíduos examinados pertencia a espécies nunca descritas pela literatura zoológica, o que indica uma diversidade ainda não dimensionada nos sedimentos abissais da costa argentina.

Como os cientistas exploraram as profundezas do Cânion de Mar del Plata?

Todo o material examinado na capital argentina teve origem na expedição oceanográfica Talud Continental IV, realizada a bordo do navio de pesquisas R/V Falkor (too). A campanha utilizou o veículo submarino operado remotamente ROV SuBastian, um equipamento robótico dotado de câmeras de alta definição e braços hidráulicos articulados capazes de coletar espécimes delicados sem danificar suas estruturas corporais. Durante as operações, o robô submergiu pelo relevo submarino acidentado e alcançou profundidades operacionais de até aproximadamente 3.900 metros.

Antes da introdução do robô subaquático, os dados oceanográficos sobre os ecossistemas profundos do cânion dependiam de coletas feitas com redes de arrasto executadas nas campanhas Talud Continental I, II e III, transcorridas entre 2012 e 2013. O uso da tecnologia de vídeo e manipulação direta em 2025 transformou a precisão do trabalho de campo e também aproximou o público das ciências marinhas. As transmissões em tempo real das descidas do veículo subaquático atraíram mais de 4 milhões de espectadores pela internet, impulsionadas pelo registro de uma estrela-do-mar laranja cuja aparência gerou comparações com o personagem Patrick Estrela, da animação infantil Bob Esponja.

O cientista-chefe da expedição e pesquisador principal do CONICET e do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, Daniel Lauretta, apontou a relevância de integrar centros científicos de diferentes nações para viabilizar as catalogações. “A cooperação internacional na taxonomia é crítica, especialmente em grupos com poucos especialistas em atividade. O workshop de descoberta de espécies acelerou a identificação de espécies, o reconhecimento de espécies novas para a ciência e aumentou a capacitação para taxonomistas locais em início de carreira que trabalham com fauna de mar profundo”, declarou Lauretta, em tradução livre.

Datas da campanha oceanográfica e das etapas de identificação biológica

As atividades de exploração, coleta de dados biológicos e confirmação em laboratório seguiram etapas rigorosas divididas entre o trabalho em alto-mar e as análises em terra firme:

  • 28 de julho de 2025: Início das operações de campo da expedição Talud Continental IV no cânion submarino.
  • 18 de agosto de 2025: Conclusão da campanha marinha de 21 dias a bordo do navio oceanográfico R/V Falkor (too).
  • 13 de julho de 2026: Abertura do workshop internacional de taxonomia sediado na Universidade Maimónides.
  • 24 de julho de 2026: Encerramento das duas semanas de trabalho prático com a classificação dos organismos.
  • 1 de outubro de 2026: Publicação oficial dos registros confirmando a descoberta das 57 espécies e dos cinco gêneros.
  • 1 de fevereiro de 2027: Período previsto para o início da expedição científica Talud Continental V.

Confluência Brasil-Malvinas e os próximos passos no oceano argentino

A riqueza biológica detectada pelos cientistas tem relação direta com a geografia marinha da região. O Cânion de Mar del Plata situa-se na Confluência Brasil-Malvinas, uma zona oceânica marcada pelo choque de correntes subtropicais quentes com massas de água subantárticas frias. Esse encontro contínuo transporta grandes volumes de nutrientes, equilibra a troca térmica entre os trópicos e os polos e transforma o local em um dos pontos de maior produtividade ecológica e concentração de organismos de todo o oceano Atlântico Sul.

A coordenação local das análises taxonômicas na Universidade Maimónides coube aos pesquisadores Martín Brogger e Valeria Teso, ambos vinculados ao CONICET. As descobertas foram integradas ao Ocean Census NOVA, um repositório digital de acesso aberto desenvolvido para acelerar o compartilhamento de registros de biodiversidade marinha. Os exemplares físicos catalogados ficarão depositados permanentemente em coleções científicas do Museu Argentino de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia e de outras instituições nacionais.

A descrição formal e a atribuição de nomes científicos binomiais definitivos em artigos acadêmicos revisados por pares ainda não foram concluídas para a maior parte das 57 espécies encontradas, embora a validade taxonômica esteja chancelada na base internacional. As instituições agora preparam a expedição Talud Continental V, planejada pela diretora-executiva do Schmidt Ocean Institute, Jyotika Virmani, e pelas equipes do CONICET para o período de fevereiro a março de 2027, com o objetivo de explorar os cânions submarinos Ameghino e Almirante Brown, localizados a 600 quilômetros da costa da província de Chubut.