O Sistema Único de Saúde (SUS) realizou, nesta quinta-feira (9/10), o segundo transporte de sangue raro a bordo de uma aeronave comercial, em uma operação conjunta com o Ministério da Saúde e companhias aéreas. A iniciativa permitiu que uma bolsa de sangue, coletada no Ceará, chegasse a Juiz de Fora (MG) nesta sexta-feira (10/10), atendendo a um paciente em estado grave que aguardava uma transfusão urgente.
Essa nova modalidade representa um avanço significativo na logística de saúde brasileira, replicando o modelo já empregado para o deslocamento de órgãos destinados a transplantes. A parceria visa otimizar o tempo de envio e, consequentemente, a agilidade no socorro a indivíduos que dependem de perfis sanguíneos específicos e de difícil acesso, anteriormente transportados como carga, o que implicava em prazos estendidos e maiores restrições.
Agilidade e alcance nacional para casos urgentes
A inclusão do transporte de sangue raro no acordo de cooperação técnica entre o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e as companhias aéreas brasileiras reforça a capacidade de resposta do país em situações críticas. A coordenadora-geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, Luciana Maria de Barros Carlos, enfatizou a importância da colaboração interinstitucional.
“O transporte de sangue raro envolve situações clínicas que exigem articulação e colaboração entre diferentes instituições. A inclusão desse serviço na parceria permitirá agilizar o atendimento a pacientes em qualquer estado do país e viabilizar tratamentos que, de outra forma, poderiam não acontecer. Essa iniciativa fortalece a rede de solidariedade que faz do Brasil e do SUS uma referência para o mundo”, afirmou Luciana Maria de Barros Carlos.
Com a atualização do convênio, o deslocamento de material biológico sensível pode ocorrer com maior rapidez, inclusive durante a noite, nos fins de semana e feriados. Essa flexibilidade é crucial para assegurar que as bolsas cheguem em tempo hábil aos pacientes que precisam de transfusão, independentemente da distância entre doador e receptor.
A busca por um tipo sanguíneo incomum
O paciente em Minas Gerais, que passou por um transplante renal, teve a identificação do anticorpo anti-Jsb durante os testes pré-transfusionais, o que dificultou a localização de um tipo sanguíneo compatível. Diante da complexidade do caso, a rede de hemoterapia acionou o Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR), que conseguiu identificar um doador adequado no Ceará.
O doador compareceu a um hemocentro, onde a coleta e liberação da bolsa de sangue ocorreram no mesmo dia. Dada a gravidade do quadro clínico do receptor, o material foi acondicionado em uma embalagem especial, com controle rigoroso de temperatura, e transportado gratuitamente na cabine da aeronave comercial até Minas Gerais. A mobilização da rede também inclui a convocação de outros doadores para garantir o suprimento necessário ao tratamento do paciente.
Precedente de sucesso e expansão futura
A primeira operação do tipo ocorreu em 12 de setembro de 2026, quando o Ministério da Saúde viabilizou o transporte gratuito de uma bolsa de sangue raro de São Paulo para o Piauí. O material foi destinado a um paciente com doença renal crônica em estado grave, que necessitava de transfusão. Após a identificação de uma combinação sanguínea extremamente rara, o CNSR localizou um doador compatível em São Paulo. A transfusão foi bem-sucedida, e o paciente apresentou melhora significativa após o procedimento, conforme a equipe médica.
Entender o que torna um tipo sanguíneo raro é fundamental para compreender a complexidade dessas operações. Além dos sistemas ABO e Rh, mais conhecidos, existem outros antígenos na superfície das hemácias. Um perfil sanguíneo é classificado como raro quando sua ocorrência é inferior a uma em cada mil pessoas testadas. Nessas situações, a busca por compatibilidade pode exigir a mobilização em diferentes estados do Brasil. Exames como a fenotipagem e a genotipagem são essenciais para identificar características específicas e facilitar a localização de unidades compatíveis.
Fortalecimento da rede e visão de futuro
O sucesso dessas operações depende da atuação integrada de toda a rede de hemoterapia, que é responsável por identificar, localizar doadores, armazenar as bolsas de sangue e organizar o transporte. A ampliação do serviço prevê avanços em diversas frentes, como:
- Aumento da identificação de pessoas com perfis sanguíneos raros.
- Estruturação de laboratórios de referência especializados.
- Implantação da técnica de congelamento de bolsas, permitindo o armazenamento por até dez anos.
Adicionalmente, o Brasil planeja aderir à rede mundial de sangue raro ainda neste mês. Essa medida permitirá ao país solicitar bolsas a outras nações quando necessário e, ao mesmo tempo, contribuir para o atendimento de pacientes no exterior.
Criado em 2013 pelo Ministério da Saúde, o Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR) já conta com 2.032 doadores registrados e contribuiu para o atendimento de mais de 300 pacientes. Quando um hemocentro não encontra compatibilidade em seu estado, aciona o cadastro, coordenado pela Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados. A equipe, então, identifica doadores em outras regiões, articula a convocação para a coleta e apoia a organização do transporte, garantindo que o sangue chegue ao paciente no tempo certo.
O Acordo de Cooperação Técnica já estabelecido entre o Ministério da Saúde e as companhias aéreas já assegura o transporte gratuito de órgãos para transplantes. Em 2025, a Central Nacional de Transplantes intermediou 2.016 transportes, dos quais 1.716 foram realizados em voos comerciais e 300 em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB). Com a inclusão do sangue raro neste acordo, essa infraestrutura robusta agora também pode ser utilizada para levar bolsas compatíveis de um estado para outro com maior celeridade, mesmo quando o doador e o paciente estão separados por milhares de quilômetros, solidificando a rede de saúde nacional.
