Descarte têxtil no Deserto do Atacama atinge escala visível do espaço

Deserto do Atacama -X

Deserto do Atacama -X

O Deserto do Atacama acumula montanhas de roupas descartadas nos arredores da cidade de Alto Hospicio, na Região de Tarapacá, no norte do Chile, em uma extensão que atingiu escala visível em imagens orbitais de satélite. O acúmulo maciço e o descarte irregular de resíduos do setor de moda rápida levaram a Organização das Nações Unidas a classificar o cenário na região chilena como uma emergência ambiental e social.

“Temos a sensação de que nossa terra foi sacrificada. Somos o lixo do mundo”, afirmou o prefeito da comuna de Alto Hospicio, Patrício Ferreira, cargo equivalente ao de chefe do poder executivo municipal no Chile, ao descrever o impacto dos lixões têxteis clandestinos que avançam sobre o solo desértico.

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Deserto do Atacama recebe excedente têxtil da Zona Franca de Iquique

A concentração de tecidos e calçados ocorre a poucos quilômetros de Iquique, município portuário que abriga a Zona Franca de Iquique, entreposto comercial conhecido como Zofri. A estrutura atua como porta de entrada para onde convergem cargas de peças de segunda mão e estoques não comercializados, movimentados por empresas isentas de impostos. O Chile consolidou-se como o maior importador de vestuário usado da América Latina e o quarto no mundo, recebendo entre 120 mil e 140 mil toneladas anuais desse tipo de material pelo terminal aduaneiro.

Do total descarregado nos armazéns portuários, uma fatia expressiva segue para comerciantes e intermediários que redistribuem fardos para outros mercados da América do Sul, incluindo o Brasil, a Bolívia, o Peru e a Argentina. Os lotes que sobram sem demanda comercial, danificados ou considerados sem valor de revenda acabam descarregados ilegalmente nos platôs desérticos vizinhos, onde formam pilhas a céu aberto que se acumulam continuamente.

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Imagens registradas com resolução óptica de 50 centímetros obtidas por satélite comercial e divulgadas pela plataforma SkyFi documentaram as proporções da concentração no relevo árido. O registro orbital foi capturado originalmente em 7 de janeiro de 2022. Em comunicado oficial sobre a análise dos dados espaciais, a empresa declarou, em tradução livre: “O tamanho da pilha e a poluição que ela está causando são visíveis do espaço, deixando claro que há uma necessidade de mudança na indústria da moda.”

Origem internacional e números do descarte no Deserto do Atacama

O fluxo de descarte que atinge a Região de Tarapacá reflete a dinâmica de consumo impulsionada pelo modelo de fast fashion, caracterizado pela produção acelerada de vestuário de baixo custo. Desde os anos 2000, o ritmo global de confecção têxtil dobrou, enquanto o tempo médio de utilização de cada item caiu pela metade antes do descarte. Estimativas ambientais apontam que a cadeia industrial têxtil e de confecção responde por uma fatia de 8% a 10% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa no planeta.

As estatísticas internacionais demonstram a concentração geográfica das exportações de resíduos de vestuário que alimentam rotas marítimas em direção a entrepostos na América do Sul, na África e no Sul da Ásia:

  • 30% do total global de exportações de roupas descartadas partem de países da Europa
  • 16% do volume exportado no planeta têm como ponto de origem o Reino Unido
  • 15% do descarte têxtil remetido ao mercado externo provêm dos Estados Unidos
  • 8% a 10% representam a fatia estimada das emissões mundiais de gases estufa geradas pela indústria têxtil
  • 50 cm é a resolução óptica do sensor de satélite que registrou a mancha têxtil no deserto chileno

Marcas globais e riscos químicos no solo de Alto Hospicio

Vistorias de campo e inspeções conduzidas por organizações não governamentais nos arredores de Alto Hospicio identificaram peças pertencentes a redes internacionais de varejo, como Zara, H&M, Adidas, Nike, Levi’s, Tommy Hilfiger e Hugo Boss. Uma parcela considerável dos itens encontrados nos depósitos ainda preserva as etiquetas de fábrica, indicando que milhares de unidades foram despachadas diretamente de inventários excedentes não vendidos nas lojas, sem nunca terem sido utilizadas pelos consumidores finais.

O passivo ecológico agrava-se pela composição dos materiais. A maior parte das peças de vestuário moderno é fabricada com poliéster, fibra sintética derivada do petróleo cuja decomposição natural pode demorar cerca de 200 anos. Sob a ação da radiação solar e dos ventos do Atacama, as fibras sintéticas desgastam-se e liberam partículas de microplásticos e componentes químicos no ar e no solo. O problema é intensificado por queimadas clandestinas recorrentes acendidas para reduzir o volume físico das pilhas, o que gera fumaça tóxica nas proximidades de áreas habitadas por populações vulneráveis.

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Diante da ausência de processamento em escala industrial para toda a carga, surgiram iniciativas locais para mitigar os danos, como a atuação da EcoFibra, empresa fundada pelo chileno Franklin Zepeda que desenvolve painéis de isolamento térmico a partir da reciclagem de sobras têxteis. No entanto, o volume de reaproveitamento permanece insuficiente para absorver a quantidade de resíduos descarregada continuamente na região.

Divergências na medição e indefinição de responsabilidade jurídica

A dimensão territorial exata do lixão têxtil apresenta divergências entre levantamentos técnicos. Declarações de autoridades locais da comuna de Alto Hospicio e estimativas divulgadas regionalmente calculam que o volume acumulado chegue a 60 mil toneladas de roupas espalhadas pela área desértica. Em contrapartida, estudos formais conduzidos por comissões econômicas da Organização das Nações Unidas mapearam aproximadamente 30 mil toneladas de resíduos distribuídas em núcleos principais que somam cerca de 30 hectares.

Até o momento, não existe responsabilização jurídica individualizada contra as grandes redes multinacionais de varejo cujas marcas aparecem nas etiquetas recolhidas no deserto. O transporte final e o despejo irregular no solo do Atacama são executados por redes locais de intermediários após a triagem alfandegária na zona franca, o que impede a punição direta das matrizes industriais estrangeiras pela legislação ambiental do Chile em 11 de outubro de 2026.