Passageiros e médicos do Reino Unido e dos Estados Unidos relatam que viagens em carros elétricos podem desencadear quadros mais severos de cinetose, o enjoo provocado pelo movimento. Os casos divulgados em 12 de outubro de 2026 apontam que o silêncio do motor, a aceleração rápida e a frenagem regenerativa estão entre os possíveis gatilhos para náuseas e vômitos em trajetos de 30 a 40 minutos.
Na clínica Northwestern Medicine, em Chicago, nos Estados Unidos, o médico neurologista especialista em tontura e vertigem Nicholas Hac atende uma média de dois pacientes por mês com queixas específicas sobre esse tipo de veículo. “Eles simplesmente percebem que são muito mais propensos a enjoar em veículos elétricos”, afirmou o médico, acrescentando que os relatos se tornaram recorrentes nos consultórios. “Já ouvi falar disso muitas, muitas, muitas vezes”, declarou.
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Náuseas em carros elétricos surgem após 30 minutos na Inglaterra
Entre os casos registrados no Reino Unido está o da passageira britânica Lola Baird, de 24 anos, moradora do norte de Londres. Sem histórico anterior de cinetose, a jovem passou a sofrer de náuseas intensas há dois anos, quando o namorado adquiriu um veículo movido a bateria. Em uma das viagens, ela precisou pedir que ele encostasse o automóvel após cerca de 40 minutos de trajeto e vomitou. O desconforto levou a passageira a solicitar que o parceiro trocasse de modelo, mas o sintoma se repetiu em corridas de táxis elétricos. “Comecei a juntar as peças”, disse Lola.
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Situação semelhante ocorreu com a família do motorista Mark Quigg, de 45 anos, residente em Lincolnshire, na Inglaterra. Ele relatou que o enjoo de sua filha de 9 anos se intensificou após a compra de um modelo eletrificado no ano anterior. Antes da troca, a criança apresentava mal-estar apenas em deslocamentos longos até a França, mas passou a ter náuseas e vômitos em percursos locais de 30 minutos. Mulheres e crianças figuram entre os grupos com maior predisposição genética e fisiológica à condição.
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Conflito sensorial e frenagem regenerativa nos carros elétricos
A professora sênior de anatomia e biomecânica do King’s College London, Irene Di Giulio, afirma que as pesquisas disponíveis até o momento indicam maior severidade da cinetose em veículos elétricos na comparação com modelos a combustão. A explicação central reside na teoria do conflito sensorial, formulada na década de 1970 pelo psicólogo britânico James Reason. O fenômeno ocorre quando a visão, o sistema vestibular (localizado no ouvido interno e responsável pelo equilíbrio) e os receptores corporais enviam sinais divergentes ao cérebro durante o deslocamento.
Segundo estudos anteriores do pesquisador William Emond, da Université de Technologie de Belfort-Montbéliard, na França, o automóvel elétrico cria um ambiente no qual o cérebro perde precisão ao calcular as forças de movimento por se basear na memória sensorial dos carros tradicionais. Nos modelos a combustão, o ruído do motor, as vibrações mecânicas e os intervalos das trocas de marcha funcionam como avisos prévios de que o veículo vai acelerar ou desacelerar. Sem esses sinais sonoros e físicos, o corpo do passageiro tem mais dificuldade para antecipar a trajetória, especialmente quando há entrega de torque instantâneo (aceleração imediata) e uso da frenagem regenerativa, tecnologia que reduz a velocidade automaticamente assim que o condutor alivia o pé do acelerador para recarregar a bateria.
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Posição da XPeng e divergências sobre os carros elétricos
Na indústria automotiva, a fabricante chinesa de veículos elétricos XPeng reconheceu publicamente as reclamações de consumidores. A montadora informou aos clientes que o mal-estar não é fruto da imaginação, mas um possível efeito colateral derivado da própria engenharia dos automóveis a bateria.
As queixas, porém, não são unânimes entre usuários e entidades do setor, que apontam a ausência de comprovação científica definitiva em larga escala. O pesquisador de enjoo de movimento da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, Bill Yates, ressalta que a investigação acadêmica sobre o tema ainda é preliminar e carece de levantamentos amplos. “Existem algumas informações anedóticas, mas ainda não foram realizados muitos estudos sérios e abrangentes”, afirmou Yates. Na mesma linha, a diretora-executiva (CEO) da associação de condutores de veículos elétricos da Inglaterra (EVA England), Vicky Edmonds, declarou que a cinetose não faz parte das reclamações recebidas pela entidade. “Isso nunca surgiu como um problema”, disse.
Ajustes técnicos e cuidados para passageiros em carros elétricos
Para reduzir o impacto sobre os ocupantes sem depender apenas da adaptação biológica, médicos e especialistas em engenharia automotiva listam medidas práticas de prevenção durante as viagens e soluções tecnológicas que podem ser aplicadas pelas montadoras:
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- Assento e visão: ocupar o banco dianteiro ou um local com visão desobstruída da via, mantendo o olhar fixo no horizonte para alinhar a percepção visual ao movimento real.
- Hábitos a bordo: evitar a leitura ou o uso de aparelhos celulares, manter a cabeça estável e apoiada no encosto e abrir a janela para circulação de ar.
- Condução e configuração: realizar acelerações e frenagens graduais, além de ajustar ou desativar a frenagem regenerativa nos modelos que permitem essa configuração no painel.
- Soluções de engenharia: segundo Cyriel Diels, professor de design de mobilidade do Royal College of Art, as fabricantes podem adotar softwares que suavizam a curva de aceleração, sistemas de som internos, vibrações sutis nos assentos e frenagem regenerativa adaptativa.
