Fundações perfuradas diretamente na rocha basáltica garantem que a passarela das Cataratas do Iguaçu, em Foz do Iguaçu (PR), suporte a força das grandes cheias do Rio Iguaçu sem ser arrastada pela correnteza. O sistema estrutural foi submetido a um novo teste na quarta-feira (14), quando a vazão atingiu 15,8 milhões de litros por segundo às 11h — volume mais de dez vezes superior à média histórica de 1,5 milhão de litros por segundo — e a água encobriu a estrutura.
Na quinta-feira (15), o fluxo de água recuou para a faixa entre 13 milhões e 13,6 milhões de litros por segundo, mas o acesso principal segue interditado preventivamente desde o domingo (11). A resistência da obra, segundo engenheiros que atuaram no projeto e a concessionária Urbia+Cataratas, deve-se ao uso de estacas-raiz que ancoram os pilares no fundo do rio.
Estacas-raiz nas Cataratas do Iguaçu prendem pilares na rocha
Diferentemente de estruturas apoiadas apenas sobre a superfície do leito, a passarela das Cataratas do Iguaçu utiliza o sistema de estaca-raiz, uma técnica de fundação profunda em que perfurações atravessam o solo e penetram diretamente no maciço rochoso do Rio Iguaçu, recebendo armaduras de aço preenchidas com injeção de cimento ou argamassa sob pressão para consolidar a base. Esse método cria uma ancoragem sólida entre a rocha e os blocos de coroamento que sustentam os pilares e as vigas de concreto da passarela.
De acordo com Vinicius Lorenzi, diretor de engenharia da Fungeo, empresa responsável pela execução das fundações da passarela, o dimensionamento foi calculado para suportar o peso próprio do concreto, a carga dos visitantes e, sobretudo, o empuxo lateral da água durante as enchentes, que supera o impacto isolado de troncos e galhos. “A estaca-raiz é uma estaca que faz embutimento na rocha e isso faz com que ela absorva grandes esforços. É um tipo de fundação que nós utilizamos em várias outras obras em Foz do Iguaçu“, afirmou Lorenzi.
Cronologia e protocolo de segurança nas Cataratas do Iguaçu
Para reduzir a pressão da correnteza sobre os pilares quando o nível do rio sobe, a Urbia+Cataratas adota um protocolo operacional que inclui o fechamento de acessos e a remoção das grades metálicas laterais da passarela. Sem os guarda-corpos, a água passa com menor resistência e evita-se que detritos, galhos e troncos fiquem retidos como em uma peneira. “Os procedimentos são realizados pelas equipes de segurança e operação do parque, com atuação principalmente dos bombeiros civis”, informou a Urbia+Cataratas.
- Domingo, 11 de outubro de 2026 (8h): interdição preventiva da passarela principal após a vazão superar a faixa de segurança entre 8 milhões e 8,5 milhões de litros por segundo com tendência de alta.
- Segunda-feira, 12 de outubro de 2026: vazão chega a 11,8 milhões de litros por segundo e provoca o fechamento preventivo do Circuito São João e do Espaço Usina.
- Terça-feira, 13 de outubro de 2026: bombeiros civis e equipes técnicas retiram as grades metálicas da passarela pela primeira vez desde 2023, acionando o protocolo previsto para fluxos em elevação entre 9 milhões e 12 milhões de litros por segundo.
- Quarta-feira, 14 de outubro de 2026 (11h): pico da cheia alcança 15,8 milhões de litros por segundo, aproximando-se de 16 milhões de litros por segundo ao longo do dia, com a lâmina de água passando sobre a passarela.
- Quinta-feira, 15 de outubro de 2026: volume recua para 13,6 milhões de litros por segundo, mantendo a restrição de acesso aos turistas.
Obra nas Cataratas do Iguaçu exigiu desvio do rio em 1992
A passarela atual das Cataratas do Iguaçu
foi construída entre 1992 e 1993 para substituir a primeira estrutura, inaugurada em 1970 e destruída por uma grande enchente na década de 1980. Para perfurar a rocha com o leito seco, uma equipe de 20 a 30 trabalhadores precisou desviar temporariamente o curso do Rio Iguaçu. A primeira barreira de contenção, erguida perto das quedas, rompeu durante uma cheia e exigiu um segundo desvio construído a alguns quilômetros do local.Leia também: Turista holandês morre após barco virar em passeio nas Cataratas do Iguaçu
“Durante a execução da obra, foram pelo menos duas enchentes similares a essa. Em uma delas, a gente perdeu equipamentos, obviamente nunca mais encontramos. Mas a parte de concreto ficou absolutamente intacta”, disse Márcio Marcon, engenheiro que trabalhou na execução do projeto na década de 1990. Desde a inauguração, a estrutura já resistiu à cheia histórica de 2014, quando a vazão atingiu a marca de 46 milhões de litros por segundo, e a um fechamento mais recente por quatro dias, entre 11 e 15 de setembro de 2026, quando o fluxo bateu 10,1 milhões de litros por segundo sem necessidade de remoção das grades.
Monitoramento milimétrico e visitação no Parque Nacional do Iguaçu
A estabilidade dos pilares é verificada periodicamente por meio de prismas ópticos fixados na passarela das Cataratas do Iguaçu, que são lidos por uma estação de medição topográfica capaz de apontar variações de poucos milímetros na estrutura em comparação com os registros históricos. “Desde que a gente assumiu, que a gente começou a fazer esse monitoramento, nunca teve nenhuma alteração, nem que seja milimetricamente”, declarou André Franzini, gerente de sustentabilidade da concessionária Urbia+Cataratas.
Mesmo com o bloqueio da passarela principal, do Circuito São João, do Espaço Usina, do trecho inferior do Espaço Naipi e das trilhas do Poço Preto e das Bananeiras, o Parque Nacional do Iguaçu segue aberto ao público nesta sexta-feira (16), com visitação normal pela Trilha das Cataratas e pelos mirantes elevados. Ainda não há data definida para a reabertura da passarela sobre o rio: o retorno dos turistas depende do recuo da vazão para níveis seguros, do acompanhamento dos reservatórios das hidrelétricas da bacia do Rio Iguaçu, da emissão de laudo técnico após vistoria de um engenheiro estrutural e da recolocação gradual das grades metálicas.
