Cão sem pelos do Peru de 1.200 anos é achado em tumba Wari

Cabeça de cachorro mumificado descoberto no Peru - Divulgação/Weronika Tomczyk

Cabeça de cachorro mumificado descoberto no Peru - Divulgação/Weronika Tomczyk

Uma equipe de arqueólogos liderada por Weronika Tomczyk, pesquisadora associada no Departamento de Antropologia e pós-doutoranda no Programa de Ecologia, Evolução, Meio Ambiente e Sociedade da Faculdade de Dartmouth, descobriu um exemplar mumificado de cão sem pelos do Peru no complexo de Castelo de Huarmey, na província de Huarmey, região de Ancash. Os exames de datação por radiocarbono determinaram que o animal macho tem pelo menos 1.200 anos de idade, o que faz dele o espécime datado por esse método mais antigo já recuperado nesse sítio arqueológico da costa norte peruana.

O achado representa a primeira evidência física da raça também conhecida pelo nome em inglês Peruvian Inca Orchid (Orquídea Inca Peruano, na tradução para o português) dentro da área de domínio do Império Wari, civilização considerada o primeiro império verdadeiro da cordilheira dos Andes. A investigação resultou no artigo científico “As muitas vidas de espécies companheiras: uma pesquisa zooarqueológica e isotópica sobre restos de cães Wari do Castelo de Huarmey, Peru”, em tradução livre, publicado no periódico Journal of Anthropological Archaeology. O trabalho conjunto também é assinado por Miłosz Giersz, arqueólogo da Universidade de Varsóvia que lidera as escavações no local desde 2010, por Claire E. Ebert, pesquisadora da Universidade de Pittsburgh, e pelos pesquisadores Wiesław Więckowski e Roberto Pimentel Nita.

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Identificação genética e os três cães sem pelos de Castelo de Huarmey

Ao todo, três conjuntos de restos mortais foram classificados pela equipe como pertencentes à raça sem pelos. O grupo inclui o esqueleto mumificado do cão macho enterrado em uma cova rasa, um crânio maior e um segundo crânio naturalmente mumificado que ainda preservava pele sem pelos visível e as orelhas presas à cabeça. Este último exemplar estava pintado com cinábrio, um pigmento mineral de cor vermelha aplicado em rituais funerários no antigo Peru. O cão sem pelos do Peru é retratado com frequência na cerâmica antiga da costa andina e foi declarado oficialmente parte do patrimônio cultural peruano no ano 2000.

A confirmação biológica de que os animais pertenciam à linhagem sem pelos ocorreu por meio da análise da arcada dentária dos esqueletos recuperados no deserto peruano. Os cientistas identificaram a ausência congênita de dentes específicos, principalmente os primeiros pré-molares e, em alguns casos, os últimos molares, estruturas que nunca chegaram a nascer na mandíbula desses indivíduos. Na biologia canina, essa falha no desenvolvimento dentário está diretamente associada ao mesmo gene responsável por impedir o crescimento de pelagem, o que permitiu cravar a identificação da raça mesmo nos restos em que a pele não estava totalmente preservada.

Quando encontraram os primeiros vestígios mumificados no terreno, os arqueólogos levantaram a hipótese inicial de que os animais pudessem ser cães modernos enterrados por saqueadores de tumbas na década de 1980, há cerca de 50 anos. Foi a combinação da análise dentária com o teste de radiocarbono que descartou a interferência recente e comprovou a idade mínima de 1.200 anos dos exemplares.

Arqueólogos – Microgen/ shutterstock.com

Sepultamentos com a elite Wari e a relação contraditória com humanos

O levantamento químico e de isótopos (átomos de um mesmo elemento químico que funcionam como marcadores da alimentação ao longo da vida) feito nos dentes e nos ossos mostrou que os cães exerciam funções distintas na sociedade Wari. Enquanto uma parcela dos animais recebia sepultamento deliberado ao lado de integrantes da elite e consumia uma dieta semelhante à das crianças Wari, outros indivíduos operavam como animais de trabalho ou sobreviviam de restos descartados no assentamento. Apenas uma pequena fração dos ossos tinha marcas de corte ou abate, dado que indica que a população local não consumia carne canina com frequência.

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Entre os sepultamentos especiais documentados na área está o de um filhote, enterrado ao lado de um artesão de elite apelidado pelos arqueólogos de “Mestre Cesteiro”. A equipe também localizou os ossos de um cão adulto sepultado dentro do palácio do complexo e parte do esqueleto de um segundo filhote depositado junto a um homem identificado pelo código “XY”, animal que provavelmente foi sacrificado para cumprir a função de guardião de tumba.

Para a autora principal, os dados ajudam a entender a dinâmica social da época, apesar das barreiras técnicas da arqueologia. Em comunicado oficial, Weronika Tomczyk, pesquisadora associada do Departamento de Antropologia da Faculdade de Dartmouth, afirmou que os resultados indicam a coexistência entre humanos e cães no sítio Wari, mas ponderou que reconstruir esse vínculo é desafiador porque as emoções do passado são difíceis de capturar por meio de métodos arqueológicos. A cientista acrescentou que o estudo teve como objetivo tanto apresentar dados sobre os enterros de cães no Castelo de Huarmey quanto enfatizar que as pessoas no passado mantinham relações frequentemente contraditórias com os animais, assim como ocorre na atualidade: “Um animal de estimação para um grupo de pessoas podia, ao mesmo tempo, ser considerado uma praga pelos seus vizinhos mais próximos”.

Números da escavação e dimensões do Castelo de Huarmey

O material analisado pelos pesquisadores das universidades dos Estados Unidos e da Polônia reúne dezenas de indivíduos em um único ponto da costa pacífica. Os dados quantitativos do estudo e da geografia do sítio arqueológico compreendem as seguintes marcas:

  • 341 espécimes de ossos caninos recuperados durante as escavações no complexo;
  • 19 cães é o número mínimo de indivíduos aos quais pertenceram os 341 ossos, somados ao macho completamente mumificado, totalizando ao menos 20 animais;
  • 6 a 8 semanas era a idade estimada do filhote sepultado ao lado do artesão “Mestre Cesteiro”;
  • 44,5 hectares (equivalente a 110 acres) formam a área total do complexo de Castelo de Huarmey;
  • 305 quilômetros (cerca de 190 milhas) é a distância aproximada do sítio ao norte de Lima, capital do Peru.

Preservação no deserto e histórico de descobertas no complexo Wari

O Castelo de Huarmey é o único complexo do Império Wari conhecido até o momento na costa norte peruana e funcionou como um centro administrativo e funerário cerca de 400 anos antes da ascensão dos Incas ao poder. A estrutura está inserida em um dos desertos hiperáridos mais secos da costa do oceano Pacífico, uma condição climática extrema que impediu a decomposição rápida e garantiu a conservação natural de materiais orgânicos, incluindo ossos, pele, pelos e orelhas.

A cronologia de ocupação antiga, das descobertas arqueológicas anteriores na mesma área e da divulgação do estudo atual registra os seguintes marcos:

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  • 600 a 1050 d.C.: período histórico de ocupação do centro administrativo e funerário Wari em Castelo de Huarmey;
  • 2010: início das escavações sistemáticas no sítio sob a liderança do arqueólogo Miłosz Giersz;
  • 2012: descoberta do primeiro mausoléu real intacto no local, contendo os restos mortais de 58 mulheres da nobreza Wari, seis sacrifícios humanos e 1.300 artefatos;
  • 2022: localização de tumbas de artesãos de elite acompanhadas de ferramentas confeccionadas em ouro, prata e bronze;
  • 31 de março de 2026: publicação online do estudo sobre os cães no Volume 82 (artigo 101767) do periódico Journal of Anthropological Archaeology;
  • 20 de maio de 2026: divulgação do comunicado oficial de imprensa pela Faculdade de Dartmouth;
  • Domingo (18): republicação do resumo da pesquisa no exterior e repercussão dos resultados na imprensa brasileira.
Beatriz: Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.