O governo dos Estados Unidos iniciou na quarta-feira (14) o envio de centenas de soldados da 10ª Divisão de Montanha do Exército para treinamentos e exercícios conjuntos na América Latina, além de reposicionar drones MQ-9 Reaper vindos da África. A ofensiva militar abrange ações no Panamá, na Colômbia, em Honduras e no Equador, com foco declarado no combate ao narcotráfico e na disputa de influência geopolítica na região.
As tropas mobilizadas saem da base de Fort Drum, no estado americano de Nova York, para atuar em parceria com forças de segurança locais. Enquanto autoridades militares americanas ouvidas sob anonimato apontam a movimentação de um batalhão de cerca de 600 soldados, a Embaixada dos Estados Unidos no Panamá contestou esse número em comunicado oficial e informou que 120 militares participam de um curso de selva no país.
Deslocamento da 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos e divergência no Panamá
O planejamento militar prevê que os primeiros integrantes do contingente passem por uma instalação de treinamento de selva no Panamá antes de seguirem para exercícios na Colômbia e em Honduras. Além das atividades de instrução, parte dos soldados americanos poderá reforçar a segurança de helicópteros dos Estados Unidos na região e dar suporte a equipes das Forças de Operações Especiais americanas, unidades de elite que assessoram exércitos locais em incursões contra suspeitos de tráfico de drogas, inclusive em situações de emergência. A dimensão do envio gerou versões diferentes entre fontes militares de Washington e a representação diplomática no Panamá.
Em comunicado oficial sobre o efetivo em território panamenho, a Embaixada dos Estados Unidos no Panamá declarou, em tradução livre: “A publicação que alega o envio de 600 soldados americanos ao Panamá é categoricamente falsa.” A representação diplomática afirmou que apenas 120 integrantes da 10ª Divisão de Montanha realizam o treinamento de duas semanas a convite do governo panamenho. Há divergência também sobre o destino seguinte das tropas ainda em outubro de 2026: fontes militares americanas situam a realização do exercício conjunto Southern Vanguard na Colômbia, enquanto o comunicado da embaixada no Panamá menciona que a operação ocorrerá no Peru.
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Transferência de drones MQ-9 Reaper e mudanças no Pentágono
Uma semana antes do deslocamento da infantaria, em 6 de outubro de 2026, o Pentágono — sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos — transferiu drones MQ-9 Reaper que operavam na África para o Equador e a Colômbia. Conhecidas como caçadores-assassinos (tradução do termo em inglês hunter-killers), essas aeronaves remotamente pilotadas foram destacadas para missões de vigilância, inteligência e combate ao narcotráfico nos dois países sul-americanos, que enfrentam facções criminosas classificadas como organizações terroristas pelo governo americano.
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A movimentação em campo acompanha alterações na estrutura de comando militar do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, chefe civil do Pentágono, criou um escritório específico dentro do órgão para supervisionar atividades militares contra cartéis de drogas latino-americanos. Paralelamente, outras centenas de soldados da mesma 10ª Divisão de Montanha foram escaladas para integrar um novo comando de operações voltado para o Hemisfério Ocidental, com sede na cidade de Miami, na Flórida.
Atuação das tropas dos Estados Unidos e disputa com a China
Para o cientista político Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, o efetivo enviado à região trabalhará sobretudo na assessoria a Forças Armadas e polícias de países que integram o Escudo das Américas, aliança criada por Donald Trump contra o crime organizado da qual o Brasil não faz parte. “Os militares dos Estados Unidos não estarão diretamente na linha de frente. Quem estará ali arrombando a porta de um laboratório ou prendendo uma quadrilha vão ser os militares ou os policiais desses países”, disse Santoro. Ele acrescentou: “Os americanos simplesmente estarão trabalhando em um cenário de apoio.”
Na avaliação do pesquisador, um contingente de 600 soldados representa um deslocamento pequeno diante das metas anunciadas por Washington, mas sinaliza uma mudança na política externa americana impulsionada pela presença chinesa no continente. “A própria decisão americana de ter esse tipo de engajamento mais intenso com a região passa por uma leitura geopolítica”, afirmou o cientista político. “A América Latina hoje é mais importante para os Estados Unidos ou virou uma ameaça para os Estados Unidos por causa da maior influência da China na região.”
Histórico de operações e estrutura militar dos Estados Unidos na região
O diretor de Supervisão de Defesa no Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA, organização de pesquisa e direitos humanos sediada na capital americana), Adam Isacson, declarou que não se recorda de um envio de tropas americanas para a região que se aproximasse de 600 militares, exceto em episódios de invasões ou desastres naturais. O avanço recente soma-se a uma infraestrutura já instalada e a uma série de ações diretas realizadas desde 2024:
- Março de 2024: dados do Congresso dos Estados Unidos registravam cerca de 1.650 militares americanos ativos na América Latina.
- Janeiro de 2026: forças americanas atacaram a Venezuela e capturaram o então ditador Nicolás Maduro.
- Março de 2026: os Estados Unidos iniciaram operações conjuntas contra cartéis no Equador e Donald Trump assinou, em seu clube de golfe em Doral, em Miami, a criação da aliança Escudo das Américas.
- Setembro de 2026: o Brasil recebeu tropas americanas e de outras nações para um treinamento militar no estado de Goiás, sob coordenação das Forças Armadas brasileiras.
- Estrutura fixa em 2026: os Estados Unidos mantêm 5 bases militares na América Latina e no Caribe, além de 3 Locais de Segurança Cooperativa (CSLs, instalações que permitem acesso e apoio logístico em países parceiros sem abrigar tropas permanentes).
- Alcance em 2026: militares americanos realizaram exercícios e treinamentos em pelo menos 21 países da América Latina e do Caribe ao longo do ano, incluindo a base de Guantánamo, em Cuba, além de manterem ataques contra embarcações acusadas de tráfico no Caribe e no Oceano Pacífico.
Riscos para civis e dados ainda não confirmados pelo Comando Sul
A expansão das atividades militares e a pressão de Washington por operações conjuntas despertam alertas entre organizações de direitos humanos e analistas de defesa. Especialistas questionam a eficácia de operações letais para reduzir o fluxo internacional de drogas e apontam o risco de vítimas civis caso os ataques passem a atingir alvos em terra. O avanço também reacende discussões sobre a soberania nacional nos países parceiros, diante de questionamentos dentro do próprio governo americano sobre a falta de objetivos definidos e da possibilidade de que rotações temporárias de soldados se tornem permanentes.
Até o momento, não há confirmação oficial sobre a quantidade exata de drones MQ-9 Reaper transferidos da África para a Colômbia e o Equador, nem sobre o número total atualizado de militares americanos em atividade em toda a América Latina, dado que não foi respondido pelo Comando Sul dos Estados Unidos. No Panamá, o cronograma oficial da Embaixada dos Estados Unidos estabelece que o curso de selva de duas semanas será concluído no domingo (25), data em que os 120 soldados da 10ª Divisão de Montanha têm retorno previsto para a base de Fort Drum, em Nova York.
