Fones com cancelamento de ruído diminuem em 32% a ocorrência de náuseas e vômitos após cirurgias

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Fone de ouvido Sonos - Instagram Foto: Fone de ouvido Sonos - Instagram

Pacientes submetidas a cirurgias ginecológicas que utilizaram fones de ouvido com cancelamento de ruído durante a anestesia geral apresentaram redução de 32% no risco relativo de sofrer náuseas e vômitos pós-operatórios. Os dados fazem parte de um ensaio clínico randomizado conduzido no Primeiro Hospital Afiliado da Universidade de Soochow, em Suzhou, na China, e foram divulgados no sábado (17) durante o congresso anual da Sociedade Americana de Anestesiologistas (ASA), em San Diego, nos Estados Unidos.

A pesquisa acompanhou 192 mulheres adultas e demonstrou que a proteção acústica durante a operação evitou cerca de 17 casos de mal-estar a cada 100 procedimentos realizados, sem a necessidade de alterar os fármacos administrados. “Nossos resultados sugerem que simplesmente reduzir o ruído intraoperatório pode fornecer aos anestesiologistas mais uma ferramenta para ajudar a prevenir náuseas e vômitos pós-operatórios após a cirurgia, sem a necessidade de adicionar outro medicamento”, afirmou, em tradução livre, Huayue Liu, médico anestesiologista no Primeiro Hospital Afiliado da Universidade de Soochow e autor principal do estudo.

Redução de 32% nas náuseas com fones de cancelamento de ruído

Fone de ouvido
Foto: Fone de ouvido – New Africa/ Shutterstock.com

Para medir o impacto do isolamento sonoro na recuperação das pacientes, a equipe médica selecionou 192 voluntárias com idades entre 18 e 65 anos que passaram por cirurgias ginecológicas minimamente invasivas — chamadas de laparoscópicas, feitas por pequenas incisões com o auxílio de uma câmera — sob anestesia geral. Metade do grupo foi sorteada para utilizar fones de ouvido comerciais do tipo circum-aural, que cobrem toda a orelha, com o sistema de cancelamento de ruído ligado continuamente desde a aplicação da anestesia até o fim da operação, mas sem tocar música, enquanto a outra metade passou pelo procedimento sem o acessório.

O protocolo hospitalar garantiu que todas as participantes recebessem exatamente a mesma combinação de anestesia geral e a medicação preventiva padrão contra enjoos. Nas primeiras 24 horas após deixarem o centro cirúrgico, as mulheres que usaram o equipamento registraram episódios de náusea e vômito de menor gravidade do que aquelas operadas sem proteção auditiva. A equipe médica também confirmou que o uso dos fones não provocou nenhum efeito colateral adverso nas pacientes monitoradas.

A diferença mais acentuada apareceu no balanço das primeiras 48 horas de recuperação hospitalar. Enquanto 52,1% das mulheres operadas sem o dispositivo tiveram crises de náusea ou vômito nesse intervalo, a proporção caiu para 35,4% entre as pacientes que utilizaram os fones com cancelamento de ruído. Em termos absolutos, essa diferença estatística representa uma queda estimada de 17 casos de complicações gástricas para cada grupo de 100 pessoas operadas sob as mesmas condições.

Dados do ensaio sobre fones com cancelamento de ruído na cirurgia

  • Local de realização da pesquisa: Primeiro Hospital Afiliado da Universidade de Soochow, em Suzhou, na China.
  • Apresentação científica: Congresso anual ANESTHESIOLOGY 2026, organizado pela Sociedade Americana de Anestesiologistas (ASA) entre 16 e 20 de outubro de 2026, em San Diego, Califórnia (EUA).
  • Público avaliado: 192 pacientes adultas, na faixa etária de 18 a 65 anos, submetidas a cirurgias ginecológicas laparoscópicas sob anestesia geral.
  • Incidência de náuseas e vômitos em 48 horas: 35,4% no grupo que usou fones com cancelamento de ruído, contra 52,1% no grupo sem o equipamento (redução relativa de 32% no risco).
  • Nível médio de barulho nas salas cirúrgicas: aproximadamente 66 decibéis durante os procedimentos.

Como o cérebro reage aos 66 decibéis sob anestesia geral?

Durante o acompanhamento das cirurgias no hospital chinês, os pesquisadores mediram o volume do ambiente e registraram uma média de aproximadamente 66 decibéis nas salas de operação. Esse patamar sonoro equivale a um volume intermediário entre o de uma conversa normal e o de um aspirador de pó ligado próximo ao ouvido. Embora o paciente anestesiado permaneça inconsciente durante toda a intervenção cirúrgica, o sistema nervoso continua exposto às ondas sonoras produzidas por monitores, aparelhos médicos e conversas da equipe.

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A hipótese dos cientistas é que a atividade auditiva residual durante o sono induzido influencie as respostas fisiológicas do organismo no despertar. “Pacientes sob anestesia geral não têm consciência do que acontece ao seu redor, mas isso não significa que o cérebro pare completamente de processar o som”, declarou Huayue Liu. Avaliando os dados apresentados na Califórnia, Vigi Katlowitz, pesquisador e especialista do Baylor College of Medicine, em Houston, nos Estados Unidos, observou a coerência do achado clínico. “Esses dados são realmente encorajadores e estão de fato alinhados com décadas de pesquisas mostrando que a anestesia não é simplesmente um interruptor de desligar”, disse Katlowitz, em tradução livre.

Risco elevado de enjoos em cirurgias ginecológicas e limites do estudo de 2026

As náuseas e vômitos pós-operatórios — conhecidos na medicina pelas siglas NVPO, em português, ou PONV, em inglês — figuram entre os efeitos colaterais mais frequentes da combinação entre cirurgia, anestésicos e analgésicos. O quadro clínico pode provocar desidratação, retardar a recuperação física, exigir a aplicação de medicamentos extras e prolongar o tempo de permanência do paciente na sala de recuperação hospitalar. Nas cirurgias ginecológicas minimamente invasivas feitas sob anestesia geral, o risco basal para esse tipo de complicação já é considerado elevado pela literatura médica, mesmo quando os hospitais aplicam preventivamente os medicamentos antieméticos tradicionais.

No ensaio apresentado em outubro de 2026, os fones de ouvido com cancelamento de ruído entraram apenas como um recurso complementar ao cuidado médico padrão, sem substituir nenhuma dose dos remédios preventivos prescritos pelos médicos. Os responsáveis pela investigação ressaltam que os resultados divulgados são preliminares e oriundos de apresentação em conferência médica. Como os testes ocorreram em um único centro hospitalar na China e avaliaram exclusivamente um tipo específico de cirurgia ginecológica, as conclusões precisam ser confirmadas em ensaios clínicos maiores e mais abrangentes antes de qualquer adoção como diretriz clínica.

A equipe de pesquisa não divulgou a marca nem o modelo exato dos fones de ouvido comerciais utilizados nas salas cirúrgicas de Suzhou. Também permanece sem explicação definitiva pela ciência o mecanismo biológico exato pelo qual o bloqueio do barulho durante a anestesia reduz a ocorrência de enjoos horas depois da operação.

O congresso anual ANESTHESIOLOGY 2026, que abriu espaço para a apresentação dos dados em San Diego na sexta-feira, 16 de outubro de 2026, encerra sua programação científica nesta terça-feira (20). Para as próximas etapas da investigação, a equipe da Universidade de Soochow aponta a necessidade de novos protocolos experimentais. “Estudos futuros devem medir a quantidade de ruído à qual os pacientes são expostos durante a cirurgia e como seus cérebros e corpos reagem, para compreender melhor se e como o som pode afetar as náuseas e vômitos pós-operatórios”, afirmou Huayue Liu, em tradução livre.

Maria Clara é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Atriz.

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