A costureira industrial Doralice Maria da Silva, moradora de Sumaré (SP), aguarda há 10 anos o restabelecimento de seu benefício por incapacidade no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), autarquia federal responsável pelo pagamento de aposentadorias e auxílios previdenciários. A espera de uma década no interior paulista ocorre enquanto o estado de São Paulo acumula 10.175 reclamações e denúncias contra o órgão na Ouvidoria da Controladoria-Geral da União (CGU) entre 1º de janeiro e 18 de outubro de 2026.
Sem condições físicas de retornar ao trabalho após passar por duas cirurgias na cabeça e acumular diagnósticos psiquiátricos e motores, a segurada recebeu o auxílio previdenciário durante dois anos, mas teve os pagamentos cortados. Desde a interrupção, Doralice Maria da Silva tenta reverter as negativas do instituto e sobrevive com o apoio de familiares. “Nós não estamos passando fome porque a minha sogra, de 84 anos de idade, que mora aqui no fundo da minha casa, nos ajuda com cesta básica”, disse a costureira industrial.
Cirurgias de Doralice Maria da Silva e processo de 4 anos na Justiça contra o INSS
O afastamento de Doralice Maria da Silva das atividades profissionais começou em 2013, quando a moradora de Sumaré desenvolveu um quadro de depressão grave que impediu a continuidade na profissão. Ao longo dos anos seguintes, a trabalhadora recebeu novos diagnósticos médicos, incluindo transtorno bipolar, síndrome do pânico, fobia social, fibromialgia, problemas na coluna e um tumor na cabeça. Ela precisou passar por uma cirurgia craniana para a retirada do tumor e, anos mais tarde, foi submetida a uma segunda operação porque parte do material cirúrgico implantado no primeiro procedimento se movimentou. Além das limitações motoras, ela relata dificuldades de memória, problemas para dormir e dores intensas que persistem mesmo com o uso contínuo de medicamentos.
Para tentar restabelecer o pagamento suspenso após dois anos de concessão, a costureira apresentou exames de imagem, laudos médicos e documentos complementares na perícia médica do INSS. O pedido administrativo, contudo, foi negado sob a justificativa de que não havia comprovação da incapacidade laboral e de que a documentação exigida não teria sido entregue. “Essa perícia negou, mandou um laudo para a minha advogada, negando a incapacidade”, afirmou Doralice. Diante das recusas administrativas, a defesa da trabalhadora acionou o Poder Judiciário para contestar o resultado do laudo pericial, mas o processo aguarda uma decisão judicial há cerca de quatro anos.
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Aposentadoria de Luiz Carlos Benassi no INSS em Campinas
Em Campinas (SP), a retenção na liberação de pagamentos previdenciários também afeta o segurado Luiz Carlos Benassi, que deu entrada no pedido de aposentadoria em fevereiro de 2025 e teve a solicitação inicial negada pelo instituto. Após a recusa, o morador recorreu à 16ª Junta de Recursos do INSS, instância colegiada que julga contestações administrativas dentro da Previdência Social, e obteve decisão favorável por unanimidade em junho de 2026, com o reconhecimento oficial de seu direito ao benefício. Apesar da vitória no recurso, a aposentadoria não foi implantada na folha de pagamentos e, meses depois da decisão unânime, a autarquia voltou a questionar o direito à concessão.
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Sem emprego e sem fonte de renda própria enquanto aguarda a liberação do valor mensal, Benassi procurou a Ouvidoria do INSS para cobrar o cumprimento da decisão colegiada. O canal de atendimento informou ao segurado que poderia cobrar providências internas, mas sem garantir a efetiva implantação do pagamento. “Hoje eu não tenho nenhuma renda, entendeu? Às vezes tem uma renda da minha filha que ajuda a gente, que a gente paga aluguel aqui. Espero uma solução”, declarou o morador de Campinas.
Números da Ouvidoria da CGU e da fila do INSS em São Paulo
Os dados apurados nesta terça-feira (20) mostram que os casos registrados em Sumaré e Campinas fazem parte de um volume de milhares de contestações administrativas e processos represados no estado. As estatísticas da Ouvidoria da CGU, órgão federal de controle interno e transparência pública, e os levantamentos operacionais de atendimento do próprio instituto apontam os seguintes volumes de demandas em São Paulo:
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- Total de manifestações na CGU em São Paulo: 10.175 reclamações e denúncias contra o INSS registradas entre 1º de janeiro e 18 de outubro de 2026.
- Média diária de queixas no estado: aproximadamente 35 manifestações por dia ao longo de 2026.
- Pedidos pendentes de análise em Campinas: 5.517 requerimentos na fila, dos quais 557 aguardavam resposta havia mais de 45 dias.
- Processos em análise no estado de São Paulo: 204 mil pedidos contabilizados no fim de setembro de 2026, sendo cerca de 20 mil com espera superior a 45 dias.
- Tempo médio de espera estadual: 17 dias para a análise de requerimentos, segundo cálculo da gestão do instituto.
Queda nas reclamações da CGU em 2026 e motivos de queixas contra o INSS
Na comparação histórica com o ano anterior, o volume de contestações apresentadas por cidadãos paulistas na Controladoria-Geral da União registrou retração. Entre 1º de janeiro e 18 de outubro de 2025, o estado de São Paulo havia contabilizado 11.683 reclamações e denúncias contra o INSS, o que representa uma queda de cerca de 12,9% no comparativo com o mesmo intervalo de 2026. A fila geral de processos em análise no território paulista também recuou em relação ao início de 2026, quando somava 482 mil pedidos, assim como o estoque pendente em Campinas, que era de aproximadamente 11,8 mil solicitações na abertura do ano.
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O levantamento detalhado da CGU divide as ocorrências de 2026 conforme a natureza do problema enfrentado pelo segurado no atendimento previdenciário:
- Demora na análise de requerimentos, serviços e recursos: 2.311 registros.
- Demora na análise de benefícios por incapacidade: 1.578 registros.
- Reconhecimento inicial de direitos e serviços: 1.438 registros.
- Demora na manutenção de benefícios: 998 manifestações.
- Pedidos relacionados a revisões de benefícios: 772 manifestações.
Como funcionam os prazos e a análise de documentos no INSS?
A concessão de benefícios por incapacidade exige o cumprimento de critérios previdenciários específicos e a avaliação médica das condições estipuladas para cada modalidade de auxílio, de modo que a simples apresentação de laudos e exames de imagem na perícia não garante, isoladamente, o deferimento do pedido. De acordo com o gerente de projetos da Presidência do INSS, Renato Mousinho, a média de 17 dias de espera para análise no estado de São Paulo representa uma redução de quase 60% na comparação com o início de 2026. O gestor atribuiu a diminuição da fila à realização de concurso público, à organização de mutirões de atendimento nos fins de semana e à adoção da análise documental para solicitações de benefício por incapacidade.
Por meio do mecanismo de avaliação documental, o trabalhador afastado pode ter o auxílio liberado diretamente pela checagem de atestados e relatórios médicos enviados ao instituto, sem a obrigatoriedade de passar por perícia médica presencial, desde que cumpra os requisitos previstos para a modalidade. O próprio INSS ressalta, porém, que os números de redução da fila e a média de 17 dias referem-se ao estoque geral de requerimentos e não significam que todos os segurados receberão resposta dentro desse mesmo prazo, uma vez que o tempo de conclusão varia conforme as exigências de cada processo. Quando há negativa inicial ou atraso na implantação, os canais administrativos acionados pelos segurados incluem as Juntas de Recursos, a Ouvidoria do INSS e a Ouvidoria da CGU.
Sobre as cobranças de Doralice Maria da Silva e Luiz Carlos Benassi, o INSS informou que os dois processos seriam encaminhados às áreas técnicas responsáveis para apuração interna. A autarquia federal não divulgou uma data nem previsão específica para concluir a análise e liberar uma decisão definitiva sobre os pagamentos dos segurados de Sumaré e Campinas.
