A Meta suspendeu temporariamente o recurso de compartilhamento de links de conversas do seu agente de inteligência artificial Muse nos Estados Unidos, em confirmação feita nesta segunda-feira (19). A medida ocorreu após a empresa de cibersegurança Claroc localizar mais de 6.800 endereços públicos do assistente expostos em registros da internet, contendo informações pessoais e documentos empresariais confidenciais.
A investigação da Claroc foi publicada neste domingo (18) e mostrou que os mais de 6.800 links de compartilhamento podiam ser encontrados com uma única consulta a bancos públicos de DNS passivo, sistema que armazena o histórico de resolução de nomes de domínios na rede. Em comunicado oficial, a porta-voz da Meta e do Muse, Tracy Clayton, confirmou a interrupção da ferramenta. “As pessoas têm a capacidade de compartilhar artefatos específicos do Muse, o que cria uma página que pode ser acessada por quem tem o link. No entanto, pausamos essa funcionalidade enquanto revisamos este relatório e consideramos mudanças na forma como esses links podem ser descobertos”, afirmou, em tradução livre.
Como a falha GhostShares expôs os links do Muse na internet?
Batizada pela Claroc de GhostShares, a vulnerabilidade estrutural acontecia pela maneira como o assistente de inteligência artificial da Meta gerava os endereços eletrônicos para dividir pesquisas, imagens e textos. Em vez de posicionar a identificação da página no caminho final da URL, o Muse inseria o título da conversa e um código aleatório diretamente no subdomínio, operando sob a estrutura cf.metaaiusercontent.com — a exemplo do formato home-sale-budget-9f21c8a3.cf.metaaiusercontent.com. Quando qualquer usuário clicava em um link compartilhado, o navegador de internet consultava o nome do host e os provedores de DNS passivo registravam e indexavam o endereço completo de maneira automática, permitindo que terceiros localizassem e abrissem as páginas sem a necessidade de senha ou login.
No documento técnico, a Claroc definiu as GhostShares como “páginas que se abrem para pessoas que nunca receberam o link e que essas pessoas podem encontrar por conta própria”. De acordo com os pesquisadores, localizar esse tipo de material em outros assistentes de inteligência artificial exigiria buscas mais complexas, mas no produto da Meta uma consulta simples bastou. Além dos bancos de DNS passivo, um serviço público de varredura de sites acumulava mais de 75 capturas salvas de páginas geradas pelo aplicativo.
Continue lendo: Inteligência artificial Meta AI funciona no WhatsApp com geração de imagens, testes e suporte em grupos
Ao analisar uma amostra de algumas centenas de páginas abertas sem restrição de acesso, a equipe de segurança encontrou materiais privados de usuários e empresas. Entre os arquivos expostos estavam anotações de preparação para uma chamada confidencial de recrutamento executivo com um laboratório de IA, contendo o contato interno e o horário da reunião, e uma revisão interna de receitas destinada ao diretor-executivo (CEO) de uma companhia nacional de marketing. Os links abertos também exibiam o pedido de empréstimo de um pequeno empresário com o valor solicitado, uma lista de tarefas com alerta de fraude bancária acompanhada do número parcial da conta, um relatório de desempenho imobiliário com endereços e dados de hipoteca, além do calendário anual de férias de dezenas de funcionários.
Muse e falha GhostShares: números, datas e impacto no serviço
- Agente afetado: assistente pessoal autônomo de inteligência artificial Muse, da Meta.
- Links localizados: mais de 6.800 endereços públicos de conversas em uma única consulta de DNS passivo.
- Capturas arquivadas: mais de 75 varreduras de páginas salvas em serviço público de inspeção.
- Notificação inicial: falha reportada à Meta na quinta-feira, 8 de outubro de 2026.
- Divulgação da pesquisa: relatório publicado pela Claroc neste domingo (18).
- Ação da empresa: suspensão temporária do recurso confirmada pela Meta nesta segunda-feira (19).
- Páginas desativadas: lote de 40 páginas monitoradas pela Claroc que saíram do ar nesta terça-feira (20).
O cofundador e diretor de tecnologia (CTO) da Claroc, Asaf Aprozper, declarou que comunicou o problema por meio do programa de recompensas por falhas (bug bounty) da Meta em 8 de outubro de 2026. Ele também tentou contato com representantes da companhia por uma rede social profissional, mas não recebeu retorno antes dos questionamentos feitos pela imprensa. “Os usuários devem estar cientes de que, ao solicitar ao Muse que compartilhe um chat com alguém, ele cria um link público que pode ser descoberto usando as técnicas de DNS passivo que descrevemos”, disse Aprozper.
Saiba mais: Aplicativo Muse da Meta lidera downloads com agente de inteligência artificial autônomo
Lançamento do Muse e histórico de vulnerabilidade no macOS
O episódio ocorre pouco mais de um mês após a estreia da ferramenta, ocasião em que o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, declarou que o assistente havia sido projetado desde o início com foco em privacidade e segurança. Lançado em 8 de setembro de 2026, o Muse funciona como um agente autônomo de propósito geral que alcançou o topo da lista de aplicativos gratuitos mais baixados da App Store, loja digital da Apple. O software preenche formulários, agenda compromissos, realiza compras e redige documentos em nome do usuário, exigindo amplo acesso a contas pessoais, e-mails, calendários e WhatsApp.
Antes do caso envolvendo os subdomínios, o aplicativo já havia passado por uma correção de emergência. Em 21 de setembro de 2026, às 14h42 no horário universal coordenado (UTC), cerca de duas semanas após a estreia do serviço, o pesquisador de segurança especialista em macOS e fundador da Objective-See, Patrick Wardle, divulgou publicamente uma vulnerabilidade zero-day (falha até então desconhecida pelo fabricante) no cliente do Muse para computadores da Apple. O erro envolvia uma configuração não documentada chamada endo_voyager_dictation_endpoint, que permitia redirecionar o tráfego de ditado de voz para um servidor malicioso e capturar tokens de autenticação e áudios.
A Meta aplicou uma atualização rápida (hot-fix) para corrigir a brecha do macOS em 22 de setembro de 2026, às 06h36 UTC. Na época, o chefe do Superintelligence Labs da Meta, David Singleton, confirmou o reparo e argumentou que a exploração exigia um software malicioso (malware) previamente instalado no computador da vítima, embora pesquisadores alertassem para o risco de ataques do tipo ClickFix, técnica de engenharia social que induz o próprio usuário a executar comandos nocivos no aparelho.
Bloqueio de acessos no Muse e rastro de títulos nos bancos de DNS
Com a suspensão aplicada pela Meta nesta semana, os usuários do Muse estão impedidos de gerar novos links de compartilhamento, e os endereços criados anteriormente deixaram de abrir — incluindo o grupo de 40 páginas acompanhado pela equipe da Claroc, que ficou inacessível nesta terça-feira (20). Apesar da queda das páginas, os títulos das conversas que já haviam sido consultados permanecem visíveis no histórico público dos arquivos de DNS passivo.
A Claroc informou que não inspecionou o conteúdo integral dos mais de 6.800 endereços localizados e que não encontrou evidências de que o material exposto tenha sido explorado de forma maliciosa por terceiros antes do bloqueio. A Meta ainda não divulgou uma data para reativar a função de compartilhamento no Muse enquanto avalia alterações técnicas na geração dos links.
