O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), agência ambiental da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgou nesta quarta-feira (21), em Genebra, na Suíça, que a ultrapassagem do limite de 1,5°C de aquecimento global do Acordo de Paris já é inevitável. Com as políticas climáticas em vigor, o planeta está em trajetória de aquecimento de cerca de 2,8°C até o final do século, com 66% de probabilidade de atingir essa marca e 10% de chance de superar 3,4°C.
Apesar de o documento indicar que décadas de ação climática insuficiente fecharam a janela para impedir que a temperatura cruze a marca de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, a instituição aponta caminhos para minimizar essa ultrapassagem (chamada em inglês de overshoot) e retornar ao patamar até 2100. “A ultrapassagem não é uma rendição. Ainda podemos mantê-la o menor e mais curta possível – e trazer as temperaturas de volta para abaixo de 1,5 grau até o final do século”, afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, em tradução livre, defendendo o reforço das políticas climáticas e a expansão das energias renováveis.
Projeções do PNUMA para a temperatura global e metas atuais
Os dados integram a 17ª edição do relatório sobre a lacuna de emissões, que tem como coautora envolvida na análise a especialista Louise Jeffery, do NewClimate Institute, organização de pesquisa climática. O levantamento calcula o impacto das Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), que são os compromissos climáticos nacionais assumidos pelos países signatários. Caso apenas as NDCs incondicionais sejam cumpridas, o aquecimento global chegará a 2,7°C até o fim do século. Se todas as NDCs atuais forem implementadas, incluindo aquelas que dependem de apoio financeiro internacional, o aumento da temperatura média global será limitado a 2,6°C.
Mesmo no cenário mais otimista entre os compromissos existentes, que soma todas as NDCs e as promessas de emissões líquidas zero (net-zero, ou neutralidade de carbono), o aquecimento seria contido em 2,1°C. Para a diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, o custo da inação já é visível. “Cada fração adicional de um grau e cada ano adicional de aquecimento acima de 1,5°C aumentam os impactos e os riscos climáticos, como as inundações mortais, as ondas de calor e os incêndios florestais que assolaram muitas nações este ano”, disse Andersen, acrescentando que “por isso, devemos mobilizar todos os meios disponíveis para minimizar o pico de aquecimento e retornar a 1,5°C até o final do século”.
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A chefe da agência ambiental lembrou que os governos foram avisados durante anos sobre o esgotamento da margem de manobra e que os cientistas defenderam por muito tempo que manter o limite de 1,5°C exigiria um “esforço hercúleo”, o qual “não foi feito”. “Procrastinamos e agora essa janela de oportunidade fechou-se”, declarou Andersen, ressalvando que “não é altura de atirar a toalha ao chão e desistir”, mas sim de “encontrar o caminho de regresso aos 1,5°C o mais rapidamente possível”, por ser algo que ela classificou como “possível”.
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Como o planeta pode retornar ao limite de 1,5°C até 2100?
Para reverter a curva de temperatura após a ultrapassagem da meta, o relatório traça um cenário considerado o mais favorável, denominado “menor ultrapassagem possível” (lowest possible overshoot, no termo original). Nessa trajetória, o aquecimento global atinge um pico entre 1,7°C e 1,8°C por volta da metade do século e depois recua para 1,5°C ou menos até 2100, com cerca de 50% de probabilidade. Alcançar esse resultado exige cortes imediatos nas emissões globais de gases de efeito estufa em comparação com os níveis registrados em 2025: queda de 18% até 2030, de 45% até 2035 e de 69% até 2040, o que representa uma taxa média anual de redução de 5,7% entre 2025 e 2035.
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Os compromissos nacionais em vigor ficam distantes dessa necessidade. Enquanto o cenário de retorno aos 1,5°C pede um corte de 45% até 2035, a implementação total das promessas climáticas atuais dos países reduziria as emissões globais em apenas 5% a 8% até 2030 e entre 11% e 15% até 2035. Além da redução drástica na queima de poluentes, o retorno ao patamar de 1,5°C até o fim do século exigiria remover da atmosfera e armazenar de forma permanente cerca de 320 gigatoneladas (320 bilhões de toneladas métricas) de dióxido de carbono ao longo do século.
Dados oficiais do relatório Emissions Gap Report 2026
- Documento: 17ª edição do relatório sobre a lacuna de emissões, intitulada “Emissions Gap Report 2026: The Point of Return”.
- Órgão responsável: Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA / UNEP).
- Data e local de publicação: 21 de outubro de 2026, em Genebra, na Suíça.
- Volume de emissões em 2025: 58,4 bilhões de toneladas métricas de CO2 equivalente no total global.
- Participação por bloco: Países do G20 (grupo das maiores economias do mundo) responderam por 76% do total global de emissões.
Saída dos EUA do Acordo de Paris e preparação para a COP31
O balanço divulgado em 2026 apresenta um quadro mais grave do que o do levantamento anterior, além de registrar que as emissões provenientes de combustíveis fósseis em 2025 cresceram entre 0,4% e 1,1% na comparação com 2024. No relatório publicado em 2025, o PNUMA projetava um aquecimento entre 2,3°C e 2,5°C caso os planos climáticos fossem cumpridos. A piora nas projeções de 2026 reflete, em parte, estimativas atualizadas de emissões e a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris — tratado adotado em 2015 por quase 200 países para manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C e buscar o limite de 1,5°C. A retirada norte-americana é estimada em adicionar 0,1°C ao aquecimento global.
Os dados do PNUMA passam a orientar as negociações diplomáticas para a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), marcada para ocorrer em novembro de 2026 na cidade de Antália, na Turquia.
