Cratera de Batagaika perde 1 milhão de m³ de gelo por ano na Sibéria

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Gelo marinho do Ártico - istockphoto.com Foto: Gelo marinho do Ártico - istockphoto.com

Cerca de 1 milhão de metros cúbicos de gelo e sedimentos desaparecem anualmente da cratera de Batagaika, localizada na República de Sakha, na Sibéria, Rússia, desde 2014. A maior depressão de permafrost — solo que permanece congelado por longos períodos — do mundo avança sobre a encosta impulsionada pelo aquecimento do clima e libera entre 4.000 e 5.000 toneladas de carbono orgânico por ano na atmosfera.

Os cálculos constam em um estudo publicado em 31 de março de 2024 na revista científica Geomorphology, liderado por Alexander Kizyakov, cientista do Departamento de Criolitologia e Glaciologia da Universidade Estatal de Moscou Lomonosov. Do volume anual perdido pela depressão, cerca de dois terços correspondem a gelo subterrâneo derretido e um terço a sedimentos descongelados. Dezenas de crateras semelhantes marcam o norte russo, mas nenhuma alcança as proporções da feição siberiana. “Tem havido relatos de que essas feições de degelo regressivo estão aparecendo ao redor do Ártico, mas esta está em uma categoria à parte”, afirmou Mary Edwards, professora e pesquisadora da Universidade de Southampton, em tradução livre.

Dimensões e volume mobilizado pela cratera de Batagaika até 2023

Cratera
Foto: Cratera – aeonWAVE/ Shutterstock.com

Situada nas Terras Altas de Yana, a cerca de 660 quilômetros a nordeste da capital regional Yakutsk, a estrutura é classificada pelos geólogos como uma megaslump, termo técnico em inglês para uma depressão termocárstica ou colapso regressivo de degelo, onde o terreno afunda após a perda do gelo que o sustentava. Entre os moradores locais da etnia iacuta, o gigantesco buraco aberto na paisagem recebe o nome de “portão para o submundo”. Ao todo, desde o início do seu processo de formação até o ano de 2023, o colapso do terreno já deslocou um volume acumulado equivalente a mais de 14 Grandes Pirâmides de Gizé.

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Os levantamentos topográficos e de sensoriamento remoto realizados pelos cientistas registraram as marcas exatas da expansão da cratera na superfície siberiana:

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  • Volume total de material mobilizado até 2023: 34,7 milhões de metros cúbicos, divididos entre 23,4 milhões de metros cúbicos de gelo derretido e 11,3 milhões de metros cúbicos de depósitos descongelados.
  • Largura da depressão: 990 metros registrados em 2023, um salto em relação aos 790 metros medidos em 2014.
  • Área total ocupada: 87,6 hectares alcançados em 2023.
  • Altura dos paredões e profundidade: mais de 85 metros de altura em determinados trechos, equivalente a um edifício de quase 30 andares, atingindo até 100 metros de profundidade máxima.
  • Ritmo de avanço da borda: recuo médio de 12 metros por ano na parede principal, com variações entre 5 e 15 metros anuais nas medições recentes.

Como o degelo faz a cratera de Batagaika crescer a cada verão?

O crescimento contínuo da estrutura tem origem na combinação de verões mais quentes, que ampliam o período de derretimento do subsolo, e invernos mais curtos, que diminuem o tempo de recongelamento da terra. A formação começou após a remoção da cobertura vegetal isolante na região, provocada pelo corte de árvores e pelo trânsito de veículos pesados fora de estrada. As fontes científicas registram diferentes marcos para o início desse processo: enquanto pesquisadores apontam que o distúrbio inicial e a abertura de uma ravina ocorreram entre as décadas de 1940 e 1960, outros levantamentos mencionam a formação da depressão nos anos 1970 e o avanço acentuado a partir do início dos anos 1980.

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O avanço físico do buraco ocorre por meio de um ciclo que se retroalimenta toda vez que os termômetros superam a marca de zero grau na região. Com a subida da temperatura, o gelo subterrâneo que dá sustentação à terra começa a derreter, fazendo com que o material do fundo se solte, deslize e seja levado pela erosão. Esse desmoronamento deixa uma área ainda maior de paredão exposta diretamente ao ar quente, o que acelera a velocidade do degelo e empurra a borda da cratera encosta acima. “Todo ano, assim que as temperaturas sobem acima do ponto de congelamento, isso vai começar a acontecer de novo. Uma vez que você expôs algo assim, é muito difícil pará-lo”, declarou a professora Mary Edwards.

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Permafrost de 650 mil anos e fósseis na cratera de Batagaika

Além de alterar o relevo, o colapso do terreno abriu um arquivo geológico e biológico preservado no gelo. Um estudo de datação liderado por Julian Murton, professor de Geologia da Universidade de Sussex, identificou nas camadas mais profundas expostas pela cratera um permafrost com pelo menos 650 mil anos de idade — o solo congelado datado mais antigo da Eurásia e o segundo mais antigo do planeta. “Cientificamente, é muito interessante porque podemos ver o que está debaixo da terra”, disse Mary Edwards sobre a exposição das camadas subterrâneas.

O material descongelado nos paredões devolveu à superfície vestígios da fauna e da flora dos períodos Pleistoceno e Holoceno, comprovando que a região já teve um clima mais quente, seco e ventoso no passado:

  • Mamíferos pré-históricos: carcaças, dentes e ossos preservados de cavalo pré-histórico (Equus lenensis), bisão-das-estepes (Bison priscus), mamutes, leões-das-cavernas e lobos.
  • Registros de vegetação antiga: restos de madeira de lariços e grãos de pólen de píceas e pinheiros contidos em uma sequência de permafrost de 50 a 80 metros de espessura.

Monitoramento espacial e o limite de profundidade na rocha matriz

Vista do espaço, a depressão aparece como uma cicatriz marrom cortando o verde da tundra, contraste registrado em 7 de junho de 2016 pelo satélite Landsat 8 e destacado pelo Observatório da Terra da NASA, a agência espacial dos Estados Unidos. Os registros orbitais utilizados pela agência monitoram a evolução da área desde 1999, enquanto dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos apontam que a extensão da cratera triplicou no intervalo entre 1991 e 2018.

Segundo os pesquisadores responsáveis pelo estudo de 2024 na revista Geomorphology, o fundo da depressão já alcançou a rocha matriz em diversos pontos, barreira geológica que impede o buraco de ficar mais profundo, mas a estrutura continuará se expandindo pelas margens laterais e encosta acima nos próximos verões.

Jeronimo Santos é colaborador da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2016: Formação: Marketing

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