Invictibellatrix amberina: fóssil guardado desde 1924 revela o primeiro dinossauro megarraptor da Europa

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Fóssil de dinossauro - Quality Stock Arts/shutterstock.com Foto: Fóssil de dinossauro - Quality Stock Arts/shutterstock.com

Uma equipe de pesquisadores do Reino Unido identificou uma nova espécie de dinossauro carnívoro, batizada de Invictibellatrix amberina, a partir de uma caixa craniana fossilizada encontrada na Ilha de Wight, na costa sul da Inglaterra. O animal viveu há cerca de 120 milhões de anos e representa o primeiro exemplar do grupo dos megarraptores já registrado na Europa.

A descrição formal da descoberta foi publicada na quarta-feira (14) no periódico científico Royal Society Open Science, em um estudo conduzido por cientistas da University College London (UCL) e da Universidade de Leeds. O fóssil utilizado na pesquisa permaneceu guardado em uma gaveta do Museu de História Natural de Londres por um século, desde a sua aquisição em maio de 1924, até ter sua relevância reconhecida e passar por exames de imagem.

Como caçava o Invictibellatrix amberina há 120 milhões de anos?

Os megarraptores faziam parte da subordem dos terópodes, grupo que reúne os dinossauros carnívoros bípedes. Ao contrário de predadores como o Tyrannosaurus rex, que dependiam de cabeças grandes, dentes robustos e uma mordida potente, mas tinham membros superiores curtos, o Invictibellatrix amberina utilizava os braços para abater suas vítimas.

Segundo o autor principal do estudo, o paleontólogo Cassius Morrison, a anatomia do grupo favorecia a velocidade e o ataque com os membros dianteiros. “Eles são bastante singulares entre os terópodes porque têm cabeças relativamente pequenas e esguias, mas braços longos e fortes, com enormes garras nas mãos, além de esqueletos de constituição muito leve”, afirmou Morrison. “As características indicam que eram caçadores ágeis, capazes de perseguir presas e usar seus braços e garras para capturá-las e estripá-las”, acrescentou.

A nova espécie tinha porte médio, com massa corporal estimada entre 200 e 300 quilos, peso comparável ao de um tigre de grande porte. A altura aproximada do animal era de 1,5 metro, equivalente à estatura de um ser humano adulto, e suas mãos contavam com garras curvas cujo comprimento estimado variava de 10 a 20 centímetros.

fóssil dinossauro - Frame Stock Footage/Shutterstock.com
Foto: fóssil dinossauro – Frame Stock Footage/Shutterstock.com

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Na região da Formação Wessex, onde hoje fica a Ilha de Wight, o Invictibellatrix amberina convivia com terópodes maiores e diversos dinossauros herbívoros. Por não ser o predador de topo daquele ecossistema no início do período Cretáceo, na idade geológica Barremiana, ele desempenhava uma função ecológica semelhante à das hienas atuais, alimentando-se de pequenos dinossauros, lagartos e mamíferos.

Os autores do trabalho apontaram que, se convivesse com seres humanos, esse megarraptor representaria um risco direto maior do que um predador gigante. “Não era o predador de topo de seu tempo, mas para os humanos esse dinossauro teria sido mais perigoso do que um T. rex. Teríamos sido presas de tamanho perfeito, cerca de um terço do peso corporal deles. Eles definitivamente teriam nos perseguido. Um T. rex não teria se dado ao trabalho, pois seríamos pequenos demais”, declarou Morrison, em tradução livre.

Dados do registro científico do Invictibellatrix amberina

O trabalho que confirmou a existência da espécie na Inglaterra envolveu uma equipe multidisciplinar de paleontólogos britânicos. Além de Cassius Morrison e do coautor Charlie Roger Scherer, doutorando em Ciências da Terra na University College London, assinam o artigo os pesquisadores Paul M. Barrett, Philip David Mannion, Laura B. Porro, Brett Clark e Daniel D. Folkes.

  • Espécime catalogado: caixa craniana parcial registrada sob o código NHMUK PV R 6775 no Museu de História Natural de Londres.
  • Local exato da coleta original: pé de um penhasco em Sudmoor Point, nas proximidades de Brook, na Ilha de Wight, Inglaterra.
  • Referência da publicação: artigo divulgado em 14 de outubro de 2026 na revista Royal Society Open Science, sob o identificador digital DOI 10.1098/rsos.260937.
  • Origem do nome científico: o termo latino Invictibellatrix significa “guerreira indomável” ou “guerreira invicta” (no feminino), escolhido pelos autores em alusão à futura ascensão do grupo ao topo da cadeia alimentar e como símbolo de força para pessoas que sofrem bullying, discriminação e opressão; já o epíteto amberina refere-se ao âmbar presente nas rochas da formação geológica local.

Trajetória do fóssil de 1924 e a evolução dos megarraptores

O fragmento ósseo que deu origem à descoberta foi coletado originalmente pelo paleontólogo amador e colecionador Reginald Walter Hooley. Após a morte de Hooley, o material foi vendido ao Museu de História Natural de Londres em maio de 1924. O fóssil permaneceu armazenado nas gavetas da instituição sem descrição formal até 2020, quando o paleontólogo do museu e coautor do estudo, Paul M. Barrett, reexaminou a peça e identificou que se tratava de uma caixa craniana relevante que exigia análise detalhada.

Para estudar o espécime centenário sem causar danos físicos à rocha e ao osso, os cientistas aplicaram técnicas de tomografia computadorizada (micro-CT scans) e criaram modelos tridimensionais do interior e do exterior do crânio. O exame revelou características anatômicas exclusivas da espécie, incluindo uma crista nucal sagital (proeminência óssea na parte traseira do crânio para fixação muscular) e um formato distinto na abertura por onde passava a medula espinhal.

Antes da identificação do exemplar britânico, a paleontologia debatia como esses predadores haviam se espalhado pelo planeta, uma vez que não existiam registros fósseis do grupo no continente europeu. “Esta nova espécie é a primeira prova que temos de que os megarraptores também estiveram presentes na Europa e que eles chegaram ao Gondwana por esse caminho, em vez de saltar de ilha em ilha mais ao sul”, disse Charlie Roger Scherer, em tradução livre.

Modelagens matemáticas de biogeografia realizadas na pesquisa indicam que os megarraptores tiveram uma distribuição cosmopolita no começo do Cretáceo. Posteriormente, o grupo desapareceu do supercontinente norte, a Laurásia que englobava a América do Norte e a Ásia, onde os tiranossauros assumiram o domínio, mas prosperou e evoluiu para predadores de topo no supercontinente sul, o Gondwana, formado pelas atuais América do Sul, África, Austrália e Antártida.

No hemisfério sul, esses animais atingiram proporções gigantescas até a extinção dos dinossauros pelo impacto de um asteroide há 66 milhões de anos, chegando a desenvolver garras de até 35 centímetros. O maior representante conhecido da família é o Maip macrothorax, que media entre 9 e 10 metros de comprimento e habitou a região da Patagônia cerca de 50 milhões de anos depois da época em que viveu o seu parente europeu na Ilha de Wight.

Como o único fóssil conhecido do Invictibellatrix amberina consiste em uma caixa craniana parcial, a aparência completa do corpo, a presença de penas filamentosas e o tamanho exato das garras não possuem confirmação direta no registro fóssil do espécime, tendo sido inferidos pelos pesquisadores com base em parentes próximos dentro do grupo dos megarraptores.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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