Insônia crônica: dificuldade para dormir três noites por semana durante três meses exige tratamento médico

8 min de leitura
Insônia eHipersonia -EmirMemedovski/Istock.com Foto: Insônia eHipersonia -EmirMemedovski/Istock.com

O levantamento Vigitel, do Ministério da Saúde, aponta que 31,7% dos adultos moradores das capitais brasileiras e do Distrito Federal apresentam ao menos um sintoma de insônia. De acordo com orientações médicas divulgadas nesta quarta-feira, 21 de outubro de 2026, a dificuldade para dormir deixa de ser passageira e passa a exigir tratamento clínico quando ocorre pelo menos três noites por semana, de forma contínua, ao longo de três meses.

O médico psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo, do Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP), explica que o quadro clínico envolve tanto o período noturno quanto o impacto nas tarefas diárias. “Se a pessoa tem uma dificuldade para iniciar o sono, se tem despertares no meio da noite com dificuldade para reiniciar esse sono, junto com fadiga, cansaço e outros sintomas durante o dia, isso ocorrendo três noites por semana, de uma maneira contínua durante três meses, é bem provável que essa pessoa tenha insônia”, afirmou o médico.

Critérios médicos para o diagnóstico da insônia crônica

A médica Andrea Bacelar, vice-presidente da Academia Brasileira do Sono do Rio de Janeiro, detalha que a condição clínica reúne três manifestações principais durante a noite, somadas à perda de rendimento ao longo do dia. A especialista participou, ao lado de Andrea Toscanini, médica do Laboratório do Sono do IPq do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, das análises sobre o distúrbio apresentadas no domingo (18).

“Para a gente classificar insônia, o indivíduo tem que ter dificuldade para pegar no sono, acordar de madrugada e/ou despertar precocemente. Para a gente definir transtorno, quer dizer, isso é crônico, isso tem que acontecer três vezes por semana por pelo menos três meses”, declarou Andrea Bacelar.

Veja também: Ministério da Saúde contabiliza 14 mortes por raios até agosto de 2026

A privação contínua de descanso interfere na rotina profissional e pessoal dos pacientes diagnosticados com o distúrbio. A artista plástica, designer de joias e modelo Vitória, de 30 anos, apresenta dificuldades para dormir desde a infância, com sono leve e interrupções na madrugada que afetam seu humor e sua disposição diária. “Eu me sinto fraca. Eu me sinto como se tivesse drenado minha energia”, disse a modelo, que também relatou aceleração nos pensamentos ao tentar retomar o sono: “A minha cabeça fica a mil. Eu lembro de alguma coisa que tenho que fazer, uma coisa que deixei de fazer.”

Confira também: Ministério da Saúde identifica 12 cidades do Amazonas com demanda no SUS por queimadas

Outro paciente avaliado clinicamente pelo psiquiatra Alexandre Pinto de Azevedo é o profissional de reabilitação física Patrick, de 35 anos, que sofre de ansiedade noturna gerada pela própria expectativa de não conseguir descansar. Durante a madrugada, ele acompanha a passagem do tempo no relógio, e a exaustão acumulada já fez com que seus olhos fechassem durante o atendimento a um paciente no trabalho. “Quando chega próximo no meu horário de levantar, aí que é pior, porque eu fico olhando a hora, de hora em hora, para não perder o meu tempo”, relatou Patrick. Ao avaliar o caso do profissional de reabilitação, o psiquiatra da USP identificou o padrão de apreensão prévia: “Você fica na expectativa todas as noites do quão ruim será o teu sono”.

Acompanhe: Ministério da Saúde prorroga edital sobre câncer no SUS até 18/10

Tratamento da insônia prioriza terapia comportamental antes de remédios

Ao contrário da busca direta por medicamentos para induzir o sono, o protocolo clínico de primeira linha para tratar a insônia crônica começa pela mudança de hábitos e pela terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I, abordagem estruturada que corrige comportamentos e pensamentos que impedem o descanso). Segundo Alexandre Pinto de Azevedo, o uso de fármacos é restrito aos pacientes que não respondem a essas intervenções iniciais. “A medicação não vem antes das medidas comportamentais. Ela só aparecerá se algumas dessas técnicas falharem”, afirmou o psiquiatra.

A psicóloga Kidsay Souza, especialista em terapia do sono, explica que o acompanhamento psicológico atua diretamente sobre o condicionamento mental que mantém o paciente acordado. “A terapia do sono vai trabalhar a relação do paciente com a cama, os pensamentos que ficam na hora de dormir, os aspectos emocionais e aquela ansiedade que o paciente fica de ter que dormir”, disse a psicóloga.

Além da psicoterapia específica, os médicos indicam a adoção diária de medidas de higiene do sono (conjunto de práticas rotineiras que preparam o organismo para o repouso noturno). O funcionamento do cérebro segue um relógio biológico regulado pelos ciclos naturais de luz e escuridão, mas a exposição constante à iluminação artificial e às telas de celulares, tablets e computadores mantém o sistema nervoso em estado de alerta no horário em que deveria desacelerar. As recomendações médicas para reorganizar esse ciclo incluem:

  • Manter horários regulares para acordar todos os dias;
  • Aumentar a exposição à luz solar natural durante a manhã e ao longo do dia;
  • Evitar o uso de telas luminosas pelo menos duas horas antes do horário de dormir;
  • Reduzir o consumo de bebidas e alimentos com cafeína no fim da tarde;
  • Utilizar a cama exclusivamente para dormir, evitando outras atividades no local.

Riscos da insônia para o cérebro e o sistema cardiovascular

A interrupção frequente do repouso noturno provoca consequências que ultrapassam a fadiga e a queda de produtividade no trabalho. Durante a fase de sono profundo, o cérebro humano executa um processo fisiológico de limpeza natural, responsável por eliminar resíduos metabólicos e substâncias acumuladas ao longo das horas de vigília. Quando esse mecanismo de limpeza é interrompido repetidamente pela falta de sono, há um aumento na probabilidade de desenvolvimento de doenças neurológicas e quadros de demência.

A privação crônica de descanso também sobrecarrega o sistema circulatório. O médico neurologista Diego Carvalho, da instituição médica Mayo Clinic, alerta para a relação direta entre o distúrbio do sono e ocorrências graves no coração e nos vasos sanguíneos. “A insônia está associada com problemas cardiovasculares também, aumento do risco de ter um AVC, um derrame, ou de ter um problema cardíaco”, explicou o neurologista, referindo-se ao acidente vascular cerebral.

Dados do Ministério da Saúde sobre a insônia nas capitais

Em 2026, o Ministério da Saúde divulgou pela primeira vez indicadores inéditos sobre a qualidade do sono na pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, levantamento oficial com dados coletados em 2024 e divulgados entre 2025 e 2026). Para mapear o cenário nas 26 capitais estaduais e no Distrito Federal, o inquérito avaliou três situações ocorridas nas quatro semanas anteriores à entrevista: se o morador teve dificuldade para pegar no sono, se acordou durante a noite e demorou a voltar a dormir, ou se despertou antes do horário desejado sem conseguir retomar o descanso.

Além do índice geral de 31,7% da população adulta com ao menos uma queixa de insônia, o levantamento do Ministério da Saúde detalhou a distribuição do problema e da privação de horas dormidas por perfil demográfico e regional:

  • Prevalência de sintomas de insônia por sexo: atinge 36,2% das mulheres adultas e 26,2% dos homens adultos nas capitais;
  • Curta duração do sono (menos de seis horas por noite): afeta 20,2% do total de adultos moradores das capitais brasileiras;
  • Divisão do sono curto por sexo: 21,3% entre as mulheres e 18,9% entre os homens;
  • Recorte por escolaridade e faixa etária no sono curto: 29% entre mulheres com baixa escolaridade e 23,1% entre pessoas com 65 anos ou mais;
  • Capital com maior índice de privação: Maceió lidera o ranking nacional, com 24,8% da população adulta dormindo menos de seis horas diárias.

A recomendação das sociedades médicas para pessoas que acordam cansadas diariamente e preenchem o critério de três noites semanais de dificuldade para dormir por três meses é procurar avaliação médica especializada para investigar as causas do distúrbio e iniciar o tratamento adequado.

Carolina Costa é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2019. Formação: Administração

Notícias relacionadas