Casos de câncer em menores de 50 anos crescem no mundo todo

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Médico, paciente, simbolo câncer de mama - Jo Panuwat D/shutterstock.com Foto: Médico, paciente, simbolo câncer de mama - Jo Panuwat D/shutterstock.com

O Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer (WCRF, na sigla em inglês), rede internacional de organizações beneficentes, identificou o crescimento global de diagnósticos de câncer em pessoas com menos de 50 anos nas últimas duas décadas, com avanço acentuado nos tumores colorretais, que atingem o intestino. Dados divulgados no domingo, 18 de outubro de 2026, a partir de registros da Inglaterra, dos Estados Unidos e da Holanda, mostram que a incidência de novos casos subiu para sete tipos da doença entre a população mais jovem analisada em território inglês.

Apesar do avanço percentual registrado nos levantamentos internacionais, pesquisadores apontam que a ocorrência total de tumores na faixa etária abaixo dos 50 anos permanece baixa em números absolutos. “O câncer ainda é muito incomum entre os jovens. Três vezes um número pequeno continua sendo um número pequeno”, afirmou Amy Berrington de Gonzalez, professora de epidemiologia clínica do Instituto de Pesquisa do Câncer (Institute of Cancer Research), em Londres.

Câncer colorretal em jovens adultos: avanço na América Latina e projeções do INCA

Um levantamento publicado em 2025 avaliou registros médicos de 50 países e territórios acumulados até o ano de 2017 e constatou a expansão do câncer colorretal de início precoce em 27 dessas localidades. Na América Latina, o crescimento das taxas de diagnóstico entre adultos com menos de 50 anos foi confirmado em cinco regiões analisadas pelos cientistas, com o ritmo mais acelerado de expansão anual concentrado no Chile.

No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA), órgão do Ministério da Saúde, divulgou em 4 de fevereiro de 2026 a projeção de 781 mil novos casos de câncer por ano para o triênio de 2026 a 2028, com destaque para os tumores de colo do útero e colorretal, que possuem potencial de prevenção e detecção precoce. Quando são excluídos os tumores de pele não melanoma da contagem geral, a estimativa brasileira passa para cerca de 518 mil diagnósticos anuais no país, divididos entre as principais incidências por sexo na população geral.

  • Projeção para homens no Brasil (triênio 2026-2028): maior incidência nos tumores de próstata, com cerca de 77,9 mil novos casos anuais, seguidos pelos cânceres de cólon e reto, pulmão, estômago e cavidade oral.
  • Projeção para mulheres no Brasil (triênio 2026-2028): maior volume nos tumores de mama, com cerca de 78,6 mil casos por ano, seguidos pelas ocorrências em cólon e reto, colo do útero, pulmão e tireoide.
  • América Latina (estudo de 2025 com dados até 2017): avanço do câncer colorretal precoce registrado na Argentina, na Costa Rica, no Equador, em Porto Rico e no Chile, país onde a taxa subiu quase 4% ao ano.
Câncer colorretal, médico segurando intestino modelo humano de cólon
Foto: Câncer colorretal, médico segurando intestino modelo humano de cólon -sasirin pamai/Shutterstock.com

Comparação histórica de diagnósticos de câncer entre 2001 e 2023

A evolução das taxas nas últimas duas décadas mostra uma mudança na proporção de pacientes jovens diagnosticados em serviços de saúde. Na Inglaterra, a taxa de detecção de câncer colorretal em pessoas com menos de 50 anos dobrou no intervalo entre 2001 e 2023: o índice passou de cerca de um caso para cada 26 mil habitantes no início do século para a marca de um diagnóstico a cada 12 mil pessoas no levantamento mais recente do WCRF.

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Outro estudo publicado em 2025, conduzido por Amy Berrington de Gonzalez com registros de 42 países coletados entre 2003 e 2017, comparou a evolução da doença na faixa etária de 20 a 49 anos com o grupo de adultos de 50 anos ou mais. A pesquisa identificou que a maioria dos tipos de tumores em expansão nos jovens também subiu entre os mais velhos, mas o tumor de intestino apresentou comportamento distinto em cerca de um terço das nações avaliadas, onde avançou mais rapidamente nos adultos jovens. “É o único câncer que parece estar aumentando entre os jovens enquanto diminui entre as pessoas mais velhas”, declarou a epidemiologista.

  • Tumores em alta de 20 a 49 anos (42 países, de 2003 a 2017): crescimento confirmado nos cânceres de tireoide, mama, colorretal, rim, útero e leucemia na maioria das nações pesquisadas.
  • Rastreamento precoce nos Estados Unidos (15 a 39 anos): estudo sobre câncer de pâncreas apontou alta quase exclusiva em tumores em estágio inicial e mortalidade inalterada, reflexo de maior procura por exames em hospitais.
  • Avanço real do tumor colorretal: pesquisas americanas registraram crescimento também nos diagnósticos em estágios avançados da doença entre jovens, o que indica aumento efetivo de casos além do efeito de rastreamento.

Obesidade e alimentação: o que explica o aumento de casos de câncer?

A Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer (IARC, na sigla em inglês), órgão vinculado à Organização Mundial da Saúde (OMS), classifica a obesidade como causa comprovada de pelo menos 13 tipos de câncer, além de listar o sedentarismo, o consumo de álcool e a ingestão de carnes processadas como fatores de risco. Dados históricos da OMS mostram que as taxas globais de obesidade dobraram entre a população adulta e quadruplicaram entre adolescentes desde a década de 1990, enquanto uma revisão científica publicada em 2021 indicou que adultos jovens com obesidade apresentam quase o dobro de probabilidade de desenvolver câncer colorretal antes de completar 50 anos.

A relação direta de alimentos ultraprocessados e de microplásticos com o surgimento de tumores em pacientes jovens, por outro lado, ainda não possui confirmação científica conclusiva, nem há definição sobre quanto do crescimento total em todos os tipos da doença decorre apenas de maior diagnóstico precoce. O professor de epidemiologia do câncer no Imperial College London, Marc Gunter, avalia que as mudanças de estilo de vida e alimentação na América Latina influenciam o quadro, mas pede cautela sobre hipóteses ainda em estudo. “Há muito exagero em torno do tema”, afirmou Gunter, enquanto Amy Berrington de Gonzalez acrescentou que “as dietas mudaram, mas ainda não sabemos qual papel isso pode desempenhar”.

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Prevenção do câncer em adultos abaixo de 50 anos e hábitos indicados

As orientações médicas de prevenção primária voltadas a jovens adultos e à população abaixo dos 50 anos concentram-se na redução de fatores de risco comprovados pela OMS e no acompanhamento em hospitais para detecção em estágio inicial. Segundo o epidemiologista Marc Gunter, embora mudanças estruturais contra o trabalho sedentário dependam de políticas públicas de saúde, medidas individuais diárias reduzem a probabilidade de desenvolvimento de tumores no trato digestivo e em outros órgãos.

Os pesquisadores recomendam a manutenção de um peso corporal saudável, a diminuição do consumo de carnes processadas e de bebidas alcoólicas e a adoção de uma dieta rica em fibras, encontradas em vegetais, grãos integrais e leguminosas. “Fazer uma caminhada, ser fisicamente mais ativo, comer mais frutas e verduras. Talvez essas coisas não estejam tão na moda, mas são realmente importantes”, disse Marc Gunter.

Beatriz Lima é colaboradora da redação do Mix Vale, portal de notícias com cobertura de Brasil e mundo. Produz conteúdo nas editorias de economia e benefícios, com foco em informação de serviço para o leitor brasileiro. Escreve para o portal desde 2024.

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