ONU alerta que bloqueio em Ormuz já reduz colheitas pelo mundo

8 min de leitura
ONU - kckate16/Shutterstock.com Foto: ONU - kckate16/Shutterstock.com

A Organização das Nações Unidas (ONU) alertou em outubro de 2026, em Bangcoc, na Tailândia, que o bloqueio de fertilizantes no Estreito de Ormuz já reduz a adubação nas lavouras atuais pelo mundo. Somada ao fenômeno climático El Niño e às restrições no comércio de trigo do Mar Negro, a falta de insumos ameaça provocar uma crise de segurança alimentar em partes da Ásia e da África em 2027.

O diagnóstico foi apresentado na quinta-feira (15) por Álvaro Lario, presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), agência especializada da ONU voltada ao financiamento de projetos rurais em países em desenvolvimento. “O repasse do fechamento inicial do Estreito de Ormuz começa a ser visto agora”, afirmou Lario, em tradução livre. Segundo o dirigente, os preços globais das commodities agrícolas subiram 13% no terceiro trimestre de 2026, com projeção de novas altas nos custos de produção no quarto trimestre deste ano e no primeiro trimestre de 2027.

Escassez de fertilizantes de Ormuz altera decisões de plantio e encarece a ureia

Os estoques iniciais de fertilizantes e de combustíveis amorteceram o primeiro choque causado pelo conflito no Oriente Médio, mas a incerteza prolongada levou os produtores rurais a realizar um plantio mais cauteloso e a aplicar menos adubo na terra. O encarecimento dos combustíveis também elevou os gastos com a colheita mecanizada e com o transporte da safra. Sem capital de giro suficiente, pequenos agricultores tendem a abandonar culturas mais lucrativas e de retorno lento para priorizar plantações que geram renda rápida.

Confira também: Ataque a cargueiro no Estreito de Ormuz leva ONU a interromper evacuação e reacende tensão regional

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) calcula que até 30% do comércio internacional de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, rota marítima que antes da guerra respondia por quase metade do enxofre transportado por navios e por grande parte da amônia, duas matérias-primas essenciais para a fabricação de fosfato. No caso específico da ureia, o Oriente Médio detém cerca de 34% do comércio mundial, segundo dados da consultoria Argus, o que expõe diretamente os países dependentes da importação de insumos, combustíveis e comida. A Tailândia, por exemplo, compra do Golfo Pérsico e do Irã cerca de 31% dos fertilizantes que utiliza, segundo o banco OCBC, enquanto nações africanas como Sudão, Somália, Moçambique e Tanzânia dependem daquela região para adquirir entre 50% e 60% de todo o seu adubo.

O mercado internacional sofre na prática o segundo choque de oferta desde o início dos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em 28 de fevereiro de 2026. Enquanto a primeira restrição foi absorvida pelos estoques, a segunda ocorre exatamente no período de compra de adubo para as safras de 2027. A cotação internacional da ureia atingiu o pico de US$ 782 por tonelada durante as hostilidades militares e recuou para cerca de US$ 350 por tonelada em junho de 2026, durante um cessar-fogo temporário que reabriu a passagem marítima. Em meados de julho, contudo, o governo iraniano retomou as restrições na rota, o que provocou uma alta de 14% no preço da ureia nos portos brasileiros ao longo de quatro semanas até o fim daquele mês, segundo levantamento da consultoria StoneX.

Acompanhe: Petroleiros retomam travessia no Estreito de Ormuz em meio a plano da ONU e alertas do Irã

Corredor marítimo da ONU em Ormuz depende de acordo entre EUA e Irã

Uma projeção divulgada pelo Banco Mundial em abril de 2026 apontava alívio nos preços apenas em 2027, condicionada à recuperação das exportações do Oriente Médio e à reabertura efetiva do estreito. Para destravar esse fluxo, a ONU estruturou um plano operacional coordenado por Jorge Moreira da Silva, subsecretário-geral da organização e diretor-executivo do Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS), órgão que gerencia obras de infraestrutura e logística humanitária. Em pronunciamento na quarta-feira (14), à margem das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial em Bangcoc, o executivo advertiu sobre a urgência da medida. “É absolutamente crucial conseguir o acordo nas próximas semanas. Caso contrário, perderemos a temporada de plantio”, declarou Moreira da Silva, em tradução livre.

O mecanismo de emergência desenhado pelas Nações Unidas está pronto para entrar em vigor assim que houver aval político, mas permanece bloqueado pelo impasse diplomático: Teerã classifica como “insuficiente” a resposta norte-americana sobre a navegação em Ormuz, enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou na quinta-feira (15) que a guerra termina “assim que eu quiser”. Caso Washington e Teerã cheguem a um entendimento, a operação marítima seguirá parâmetros logísticos já definidos pela entidade internacional:

  • Fluxo mínimo de cinco navios de fertilizantes por dia cruzando o Estreito de Ormuz para abastecer países em necessidade crítica.
  • Instalação de um centro de coordenação em Omã responsável pelo registro oficial das embarcações comerciais.
  • Atuação de monitores da ONU dentro dos portos do Golfo Pérsico, em conjunto com autoridades locais, para inspecionar as cargas.
  • Prazo operacional de 7 a 10 dias após a assinatura de um acordo bilateral para a ativação completa do corredor marítimo.

Paralisação de seis meses no Golfo se soma ao impacto do El Niño até 2027

A tentativa de criar um corredor humanitário começou em março de 2026, quando a ONU instituiu uma força-tarefa logo após a eclosão do conflito militar, mas o grupo nunca conseguiu operar em razão da falta de consenso entre os governos envolvidos. De acordo com dados das Nações Unidas apresentados por Jorge Moreira da Silva, o tráfego total pelo Estreito de Ormuz desabou de cerca de 130 embarcações diárias antes da guerra para apenas 5 navios por dia na primeira quinzena de outubro de 2026. Uma nota técnica publicada em setembro de 2026 pelo International Food Policy Research Institute (IFPRI), centro global de pesquisas sobre políticas agrícolas e nutricionais, confirmou que os embarques de fertilizantes da região ficaram praticamente paralisados por mais de seis meses, representando uma fração insignificante do tráfego mesmo durante a trégua entre meados de junho e meados de julho.

O bloqueio logístico agrava indicadores econômicos e humanitários que já vinham em deterioração desde o primeiro semestre. Em abril de 2026, Alexander De Croo, chefe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), alertou que a guerra empurraria mais de 30 milhões de pessoas de volta à pobreza, mesmo que os combates cessassem no dia seguinte. Já um relatório de agosto de 2026 da Câmara de Comércio Internacional (ICC) calculou que a interrupção contínua em Ormuz pode encarecer os cereais em até 81%, as oleaginosas em 66% e os produtos de origem animal em 30%. No mercado físico, o índice de preços de alimentos da FAO atingiu 136,0 pontos em setembro de 2026, acumulando o terceiro aumento mensal consecutivo, enquanto o banco JPMorgan projeta que a inflação mundial de alimentos acelere de 2,8% no primeiro semestre de 2026 para 5% no primeiro semestre de 2027.

Na frente climática, um alerta emitido em 5 de agosto de 2026 pelo Programa Mundial de Alimentos (PMA), braço da ONU para assistência alimentar de emergência, indicou 81% de probabilidade de um El Niño muito forte entre 2026 e 2027. O fenômeno pode empurrar pelo menos mais 49 milhões de pessoas para a insegurança alimentar aguda até o fim de 2027, elevando o total de 225 milhões para 274 milhões de pessoas atingidas em 45 países monitorados, com risco concentrado no sul da Ásia, no Sahel, no sul da África, no Sudeste Asiático e no Corredor Seco da América Central. “O El Niño é uma ameaça massiva à segurança alimentar de milhões que já estão vulneráveis”, afirmou Carl Skau, diretor-executivo interino do PMA, em tradução livre. No Brasil, que planta em outubro de 2026 a safra de soja 2026/2027 e enfrenta chuvas fortes no Sul associadas ao fenômeno, a capacidade de atender importadores em 2027 dependerá do nível de adubação aplicado agora nas lavouras.

Luís Henrique Costa é jornalista formado pela FMU, editor-chefe e fundador do Mix Vale, portal de notícias em atividade desde 2011. Responde pela direção editorial do veículo, que cobre Brasil e mundo em economia, benefícios sociais, esportes, tecnologia, ciência e entretenimento. Atua na área há mais de 15 anos e lidera uma equipe de cerca de 15 colaboradores.

Notícias relacionadas