Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade Stanford, na Califórnia, demonstraram que o bloqueio do receptor EP2 restaura a eliminação das chamadas células zumbis e reverte o declínio de múltiplos órgãos em camundongos idosos. O estudo, publicado na revista científica Science em 16 de julho de 2026, também comprovou que a inibição farmacológica desse receptor devolve a capacidade juvenil de limpeza celular em amostras de tecidos humanos envelhecidos e doentes.
A pesquisa teve como autora sênior Katrin I. Andreasson, professora de Neurologia e Ciências Neurológicas na Escola de Medicina da Universidade Stanford, e como autora principal Yuting Jessy Tan, instrutora de neurologia na mesma instituição. “Temos tentado descobrir por que envelhecemos. Agora sabemos pelo menos uma grande razão para isso”, afirmou Andreasson, em tradução livre, ao detalhar o papel da falha na remoção de células desgastadas na degeneração do organismo.
Como o receptor EP2 paralisa a remoção de células zumbis nos órgãos?
O processo de deterioração identificado pela equipe de Stanford concentra-se nos macrófagos residentes em tecidos (TRMs), um tipo de glóbulo branco de vida longa responsável por engolir e destruir restos celulares. Em condições normais de juventude, esses macrófagos executam um processo contínuo de limpeza biológica chamado eferocitose, impedindo que células mortas ou defeituosas permaneçam no interior dos órgãos.
Leia também: Universidade Stanford reverte branqueamento de corais em tanque
Com o avanço da idade, ocorre um aumento na sinalização da prostaglandina E2 (PGE2), um hormônio lipídico inflamatório que se conecta ao receptor EP2 presente na superfície dos macrófagos residentes. Essa ligação altera o funcionamento energético dos macrófagos: em vez de utilizarem a glicose como combustível para manter a respiração das mitocôndrias e digerir detritos, as células passam a estocar essa glicose na forma de glicogênio. Sem energia suficiente, a capacidade fagocítica cai e o sistema de descarte entra em colapso.
Veja também: Gatas tricolores têm origem explicada pelo gene Arhgap36 no DNA
Quando os macrófagos deixam de funcionar, os neutrófilos — glóbulos brancos de defesa que morrem rapidamente — não são recolhidos e transformam-se em neutrófilos senescentes, conhecidos como células zumbis porque param de se dividir, mas não são eliminados. “Eles são a equipe de coleta de lixo do corpo. Grande parte desse lixo são células defuntas”, declarou Andreasson sobre o trabalho dos macrófagos. Os parâmetros biológicos desse ciclo de produção e limpeza no organismo abrangem os seguintes números:
Saiba mais: Uso de pronomes na infância aponta risco de depressão futura
- Mais de 100 bilhões: quantidade aproximada de neutrófilos produzidos diariamente pelo corpo humano e que exigem remoção contínua pelos macrófagos.
- 12 a 24 horas: tempo médio de vida ativa dos neutrófilos na corrente sanguínea antes de precisarem ser descartados.
- 60% a 90%: proporção do total de macrófagos nos principais órgãos que corresponde aos macrófagos residentes em tecidos (TRMs).
Sem o descarte adequado, os neutrófilos senescentes acumulam-se em órgãos como o fígado, o baço e a medula óssea, onde passam a liberar enzimas proteases e substâncias tóxicas nos tecidos ao redor. “Os neutrófilos senescentes estão matando nossos tecidos. A limpeza dessas células é essencial para prevenir a inflamação crônica”, disse a neurologista de Stanford.
Confira também: Entenda a genética dos gatos laranjas e a prevalência da cor entre os machos
Reversão de danos no fígado e em múltiplos tecidos em Stanford
Para testar se o bloqueio desse mecanismo poderia recuperar o organismo já deteriorado, os cientistas realizaram intervenções genéticas e aplicarão inibidores farmacológicos seletivos contra o receptor EP2 nos macrófagos residentes de camundongos idosos. A interrupção do sinal inflamatório preservou o funcionamento mitocondrial juvenil dos macrófagos e restabeleceu a eliminação das células zumbis acumuladas. Nos animais tratados, a retomada da limpeza celular preveniu ou reverteu seis quadros associados à velhice: o declínio cognitivo, a fragilidade física, a sarcopenia (atrofia muscular), o acúmulo de tecido adiposo, o comprometimento cardíaco e a inflamação sistêmica.
As análises de proteômica plasmática — técnica que mapeia o conjunto de proteínas presentes no sangue — apontaram o fígado como uma das principais fontes das alterações imunológicas ligadas ao envelhecimento. No tecido hepático, a redução da atividade do receptor EP2 resgatou a limpeza dos neutrófilos envelhecidos e evitou o estresse parácrino, fenômeno em que uma célula danificada contamina e prejudica o funcionamento das células saudáveis vizinhas.
Além dos experimentos em animais, a equipe analisou amostras de tecidos humanos envelhecidos e doentes em laboratório. Os pesquisadores confirmaram que os órgãos humanos também apresentam expressão elevada do receptor EP2 nos macrófagos residentes, acompanhada pelo acúmulo de neutrófilos senescentes, e que a inibição farmacológica do receptor restaurou a capacidade de limpeza celular a níveis juvenis.
Estudos de 2001 a 2021 sobre o receptor EP2 e anti-inflamatórios
A investigação sobre o impacto da inflamação e da via da prostaglandina E2 no envelhecimento cerebral e sistêmico apoia-se em duas décadas de levantamentos populacionais, testes clínicos e descobertas laboratoriais anteriores. A relação entre o controle inflamatório e as doenças neurodegenerativas passou por diferentes etapas de verificação científica ao longo dos anos:
- Novembro de 2001: publicação do Estudo de Rotterdam no periódico New England Journal of Medicine, conduzido por Bas in ‘t Veld, Bruno Stricker e colegas do Erasmus Medical Center, que acompanhou 6.989 idosos e sugeriu que o uso prolongado de anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) por mais de dois anos reduzia o risco relativo de desenvolver a doença de Alzheimer.
- 2001 a dezembro de 2004: execução nos Estados Unidos do ensaio clínico randomizado ADAPT (sigla em inglês para Estudo de Prevenção Anti-inflamatória da Doença de Alzheimer), que inscreveu 2.528 participantes para testar os medicamentos celecoxibe e naproxeno contra placebo, tendo os tratamentos suspensos por preocupações de segurança cardiovascular.
- 2013: divulgação dos resultados de acompanhamento do estudo ADAPT, que confirmaram a ausência de efeito protetor daqueles anti-inflamatórios tradicionais na redução do risco de Alzheimer em humanos.
- 20 de janeiro de 2021: publicação na revista Nature de um estudo anterior de Stanford, liderado pelo autor principal Paras Minhas e por Katrin Andreasson, demonstrando que o bloqueio do receptor EP2 em macrófagos e micróglias (células de defesa do sistema nervoso central) impedia o sequestro de glicose em glicogênio e restaurava a memória espacial em camundongos idosos.
A diferença entre o fracasso dos anti-inflamatórios comuns no ensaio ADAPT e os resultados obtidos em Stanford está na especificidade do alvo biológico. Enquanto medicamentos amplos afetam múltiplas vias e trazem riscos cardiovasculares, o trabalho de 2026 focou exclusivamente no receptor EP2 dentro dos macrófagos residentes, reconectando o metabolismo celular à remoção física dos neutrófilos tóxicos.
Ainda não há cronograma confirmado para o início de ensaios clínicos em seres humanos com inibidores seletivos do receptor EP2 voltados ao tratamento sistêmico do envelhecimento. Até a publicação do artigo na revista Science, todos os testes farmacológicos de reversão do declínio de órgãos restringiram-se a camundongos vivos e a culturas de células e tecidos humanos isolados em laboratório.
