O ministro João Augusto Ribeiro Nardes, conhecido como Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU), órgão de fiscalização financeira do Congresso Nacional, afirmou em Brasília que faltará dinheiro para pagar as aposentadorias no Brasil se o cenário fiscal atual for mantido. Em vídeo publicado em uma rede social na quarta-feira (21), o magistrado atribuiu o risco ao déficit da Previdência Social superior a R$ 404 bilhões e à realização de R$ 326 bilhões em gastos públicos fora do Orçamento da União.
Ao dirigir-se aos trabalhadores que contribuem com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), autarquia federal responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões, Nardes declarou que a capacidade financeira do país está comprometida. “É bom que você que vai um dia querer se aposentar pela Previdência ficar sabendo que, como está, não haverá aposentadoria porque não temos mais economia suficiente para pagar nem os aposentados hoje e quem dirá futuramente”, disse o ministro.
Críticas de Augusto Nardes aos R$ 326 bilhões fora do Orçamento
Na gravação que ganhou repercussão em 22 de outubro de 2026, o integrante do TCU criticou o que classificou como “desorçamentação” das contas públicas durante o terceiro mandato do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. O termo é utilizado pelo ministro para descrever a execução de despesas governamentais paralelas, sem a devida inclusão nas regras regulares do Orçamento da União, o que segundo suas contas já acumula R$ 326 bilhões.
Para Nardes, o volume de despesas contabilizadas por fora das regras orçamentárias e o desequilíbrio fiscal têm efeito direto sobre o mercado e a credibilidade externa do Brasil. “A situação se torna cada vez mais grave porque foi feita uma desorçamentação. Ou seja, gastar por fora. Atualmente, já estamos em R$ 326 bilhões. Portanto, está colapsando a economia nacional, está praticamente inviabilizando o país a nível internacional de buscar investidores”, afirmou.
Apesar de citar a cifra exata de R$ 326 bilhões em despesas extraorçamentárias, o ministro Augusto Nardes não detalhou na gravação qual a base de cálculo exata nem o período temporal — se correspondente ao resultado anual ou ao acumulado durante todo o mandato presidencial — utilizados para chegar a esse montante.
O pagamento das aposentadorias do INSS será interrompido?
As declarações feitas por Augusto Nardes no vídeo expressam a avaliação técnica e pessoal do magistrado sobre a sustentabilidade fiscal do sistema previdenciário brasileiro no médio e longo prazos. Não há nenhum anúncio oficial do Tribunal de Contas da União, do INSS ou do governo federal sobre suspensão, atraso ou interrupção nos pagamentos mensais dos benefícios previdenciários vigentes.
Nardes relatou na gravação que incluiu um alerta formal em seu parecer sobre a prestação de contas do governo federal neste ano, documento em que destacou o déficit superior a R$ 404 bilhões na Previdência Social. A manifestação pública do ministro ocorre às vésperas do segundo turno da eleição presidencial de 2026, período em que se intensifica o debate econômico sobre a aplicação de um ajuste fiscal para conter a expansão da dívida pública e o avanço dos gastos obrigatórios sobre o caixa da União.
Comparação do TCU entre o governo Lula e as pedaladas de Dilma Rousseff
Ao avaliar a condução da contabilidade pública na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, Augusto Nardes estabeleceu uma comparação direta entre o cenário fiscal de 2026 e as chamadas “pedaladas fiscais” ocorridas no governo da ex-presidente da República Dilma Rousseff. Em 2015, Nardes atuou como relator no TCU do processo que investigou atrasos nos repasses do Tesouro Nacional a bancos públicos para o pagamento de benefícios e programas sociais, manobra contábil que embasou o pedido de impeachment da ex-mandatária em 2016 após a corte de contas recomendar a rejeição do balanço presidencial.
Ao relembrar sua atuação no julgamento de uma década atrás, o ministro sustentou que práticas semelhantes voltaram a ser registradas na administração federal. “Tomei uma decisão muito importante em 2015. Fui relator das chamadas pedaladas fiscais”, declarou Nardes, acrescentando na sequência: “Houve manipulação lá atrás nas contas da presidente e volta a acontecer”.
Dados oficiais do TCU sobre o déficit da Previdência e a dívida pública
Além dos valores citados verbalmente pelo ministro em seu pronunciamento sobre o rombo de R$ 404 bilhões e os gastos paralelos de R$ 326 bilhões, relatórios oficiais do próprio Tribunal de Contas da União e indicadores macroeconômicos registram a evolução recente das contas públicas e do sistema previdenciário consolidado, que soma o Regime Geral do INSS, o regime dos servidores públicos e o sistema de proteção social dos militares:
- Salto da dívida pública: avanço de 72% para 83% em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todas as riquezas produzidas pelo país) durante o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
- Déficit previdenciário consolidado em 2024: saldo negativo de R$ 418,9 bilhões apurado pelos relatórios oficiais do TCU.
- Déficit previdenciário consolidado em 2025: saldo negativo de R$ 440,6 bilhões segundo o TCU, resultante da diferença entre R$ 762,6 bilhões em receitas arrecadadas e R$ 1,203 trilhão em despesas totais com o pagamento de benefícios.
- Meta fiscal de 2026: estimativa oficial de um déficit primário de R$ 80,9 bilhões contabilizado fora da meta fiscal estipulada para o ano.
- Passivo de 2015: montante de R$ 50 bilhões citado por Nardes como o valor utilizado sem autorização do Congresso Nacional à época do julgamento das pedaladas fiscais.
Em meio aos alertas sobre o desequilíbrio nas contas da União, Augusto Nardes informou que pretende antecipar o pedido de sua aposentadoria do cargo de ministro do Tribunal de Contas da União para o final de 2026.

